sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A Palavra




Em uma vila camponesa e conservadora da Dinamarca, Morten Borgen, um fazendeiro protestante e viúvo vive com seus filhos num ambiente de irrepreensível zelo religioso. Quando seu neto se apaixona pela filha de um alfaiate que pertence à uma outra denominação protestante, os dois são impedidos de se casar em virtude das divergências entre as duas famílias, que entram então num processo de disputa denominacional. Porém, durante esta quimera ideológica , acontecem eventos que colocarão a fé de Morten à prova.






Esse filme é antes de tudo uma abordagem completamente fantasmagórica e psicológica dessa curiosa invenção humana chamada de religião, e uma reflexão em torno de sua temática sobrenatural. Lindamente fotografado em preto e branco pelo diretor/lenda Carl Theodor Dreyer, que foi ninguém menos que o diretor mítico que seduziu toda uma geração de cineastas, desde Bergman (que o seguiu passo a passo pelo que parece) até toda a turma da modernidade francesa dos anos seguintes. O enigmático final do filme é um curioso objeto de debates ao longo dos anos, do tipo ame ou odeie, de acordo com a orientação de fé do espectador e de sua tolerância do que é racional ou metafísico. Independente disso é de fato uma obra que impressiona demais como cinema, e pelo que sei é o único cult que tenho notícia de algum surtado que assistiu ajoelhado perante a tela. Mas com certeza não deixa indiferente o religioso mais pio ou o ateu mais sereno, obviamente por motivos distintos.





Dreyer é de fato um diretor especial, único, que nos deu clássicos como "O Vampiro" e "A paixão de Joana Darc". Egresso do cinema mudo e do expressionismo alemão, preservou dentro do seu cinema falado uma dimensão narrativa que jamais sobrepõe os princípios mais elementares do cinema primitivo. Cabe aqui igualmente, algumas linhas sobre o "cinema espiritualizado", conforme teorizado pelo monge cinéfilo francês Amédée Ayfre, e que existiu como sub gênero nos anos do pós guerra. 

Inspirado na contemporânea corrente filosófica do "existencialismo cristão" de Emmanuel Mounier (em oposição ao existencialismo ateu de Sartre), esses cineastas (dentre os quais Dreyer é um expoente) se utilizavam da capacidade quase ontológica da câmera em se apropriar do mundo e revelar todas as suas dimensões. E, à partir deste princípio do cinema como criador de epifanias, introduzir no interior do texto fílmico o sentimento do sagrado e do espiritual. Veja o filme e entenda a teorização.


                       



Titulo original : Ordet
Ano : 1955
Diretor : Carl Theodor Dreyer
País : Dinamarca
Awards : Leão de Ouro em Veneza / Cannes / National Board of Review, USA / Globo de Ouro

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