segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Triunfo da vontade


Durante toda a história alemã, desde os remotos tempos de Carlos Magno, sempre pareceu muito natural a busca incessante de territórios na direção do leste, com a respectiva eliminação (limpeza étnica) da população nativa e o subsequente repovoamento da área com as pretensamente superiores população, língua e cultura germânicas. Aquele sujeitinho odioso, havia sido levado ao poder como culminação de um processo social (que misturava situação econômica catastrófica, vergonha coletiva, ausência de estado e euforia nacionalista) que afetou a Alemanha no período entre guerras. Para ele parecia uma continuação histórica desse costume: expandir o império alemão não apenas em direção aos leste , a terra dos (para ele) imundos eslavos, mas também lançar seus tentáculos contra os "primos" germânicos do ocidente europeu, e assim criar um delirante império que duraria mil anos. Parecia pura retórica populista e delirante mas não era. A Alemanha, o país das luzes do século 19, terra de Kant e Nietzsche, era agora a terra da barbárie e do horror.




Com sua aura messiânica e trejeitos histéricos, Hitler usava o expediente comum à qualquer outro pregador: repetir a mentira até que esta vire verdade. Digressionava sobre pátria, pureza de sangue e exigia devoção religiosa ao nacional socialismo. A cúpula nazi logo percebeu (assim como os soviéticos anos antes) que o cinema era a ferramente perfeita de propaganda, e encomendou este infame testamento na forma de filme-documentário , impressionante e assustador, que retrata a convenção do nacional socialismo de 1934 , em Nuremberg: um desfile de imagens que evocavam grandeza e glória, entre alguns discursos que eram autênticos arroubos de monstruosidade. 





O filme carrega, como obra, um trabalho de montagem exemplar e memorável, e aqui eu não falo de ideologias, mas sim de cinema. Inspirado pelo cinema soviético de Eiseinstein, Leni Riefenstahl usa de todos os expedientes de montagem, enquadramento de planos e contra campos, musica e edição, para construir e celebrar uma aura heroica e mítica em torno da figura do partido e de seu líder, e amplificar a maneira como estes eram recebidos pela população alemã, e assim produzir o efeito de contágio de uma mítica. A grande atenção dada pelo filme aos planos em que Hitler desce dos céus em um avião (ele foi um inovador neste expediente) e encontra o povo em terra é constantemente metaforizado por alguns teóricos do cinema como a representação de um deus que chega dos céus como redentor. O uso da sedução das imagens de cinema como propaganda e meio de manipulação massiva não é uma invenção de Hitler, mas sim dos soviéticos, o que nos conduz à imediata reflexão de que a ideologia de massa que Hitler pregava, atacando o comunismo, produzia enfim os mesmos efeitos que este. 

O triunfo da vontade é então um filme de inestimável valor histórico, um verdadeiro patrimônio da humanidade, para se assistir refletindo, sobretudo na questão de como um "documentário" pode fazer da realidade uma ficção. Porque o filme é no sentido de gênero, um documentário, inicialmente sem mise-en-scène, em que tudo que foi filmado é evento real. Portanto ele nos deixa, talvez mais do que qualquer outro filme, a lição histórica de que uma imagem, ou uma construção à partir de imagens é uma construção antes de tudo, sujeita à montagem que o realizador pode criar de acordo com seus interesses. Não existe verdade absoluta no cinema, nem na ficção nem no documentário, mas apenas uma verdade relativa. Uma imagem não pode ser deificada como verdade nem em cinema, nem em fotografia, e menos ainda, muito menos ainda, na televisão. Uma segunda reflexão é aquela que nos mostra que o reverso do jogo de imagens também pode ser verdade. "O vampiro de Dusserdolf", de Fritz Lang, lançado três anos antes, como obra de ficção contemporânea, talvez trague em seu interior mais verdades sobre este momento catastrófico da Alemanha do que o documentário de Leni Riefenstahl. Portanto se o documentário ficcionaliza a realidade, também a ficção, na mão de um mestre, pode documentar a realidade. Mas isso é assunto para outra postagem.




Título original : Triumph des Willens / Das Dokument vom Reichsparteitag
Ano : 1934
Diretor : Leni Riefenstahl
País : Alemanha
Awards : One World Film Festival Rep Tcheca / Adelaide Film Festival / Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro / Cinemateket Copenhagen

Um comentário:

  1. olá, gostei muito de seu blog,estou a seguir.
    visite o meu, comecei a pouco tempo,
    abraços.

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