quinta-feira, 1 de julho de 2010

A meia noite levarei a sua alma


Eu calculo que muitos leitores deste blog provavelmente já podem estar familiarizados com o universo de um dos melhores diretores de todos os tempos : José Mojica Marins , cuja pessoa acabou se fundindo com a do seu principal personagem , o coveiro Zé do caixão. Porém , tirando a prova dos 9 , é incrível como o personagem é tão conhecido por todos , habita no inconsciente das pessoas , mas tão poucos assistiram aos filmes verdadeiramente. Para mim Mojica é mais do que um grande diretor, mas um gênio, e um de meus heróis pessoais , um cara que sinceramente adoraria conhecer e tirar uma foto.



Eu sou um adorador fanático religioso deste filme (e da fase clássica de Mojica) , do tipo que tem a fita de vídeo (raridade!) , DVD , e com certeza terei em qualquer formato que venha a ser lançado , nem que seja no formato desestabilizador neuronal , porque este é um dos filmes que tem que se ter ! Há alguns anos um colega só me chamava de Mojica , ou mesmo de Demônio Palito , em homenagem à criatura bizarra da sequência Esta noite encarnarei no seu cadáver ..




O filme é uma jóia , e o mais importante da trilogia : Um coveiro sádico e ateu , de uma pacata cidade do interior , em um êxtase de arrogância e superioridade , tem a idéia de gerar um descendente perfeito , e não exita em eliminar os obstáculos. Zé é um personagem complexo e cativante , de grande personalidade , obcessivo e meticuloso , e não por acaso se tornaria um ídolo para os fã de cinema Cult em todo o planeta ( Mojica foi considerado gênio em vida pela revista Francesa Cahiers du Cinema , e a produtora americana Something Weird , a mais conceituada em cinema B do mundo lançou vários de seus filmes ) . Ele cita Nietszche sem saber , desafia Deus e zomba da fé das pessoas simples de sua cidade (na verdade Zé era dublado por uma voz potente que nada tem a ver com a de Mojica e seu português torto ) . Mas é no orgulho intelectual , e nos seus acessos de cólera que são puro expressionismo alemão , que está o charme do personagem .




As dificuldades materiais que Mojica enfrentou para realizar este clássico foram incríveis , e mesmo com tudo pronto ainda precisou enfrentar a censura federal , que por pouco não o prenderia sob a acusação de tratar-se de um débil mental perigoso . O Complemento literário perfeito para o filme é o espetacular livro " Maldito " do querido Andre Barcinski , que descreve a biografia deste heroi do cinema , Mojica (cuja vida daria um filme ainda melhor do que os seus) , e as desventuras deste sujeito simples que sem jamais receber educação formal teve desde cedo um incrível instinto cinematográfico . 
Roger Corman , o papa dos filmes B , chorou de emoção ao assistir a cena da procissão dos mortos , cujo negativo foi pintado à mão , quadro a quadro , num efeito incrível , e confessou " Eu não sou páreo para esse cara .. "

Clássico , para assistir de joelhos.





Título Original : A meia noite levarei a sua alma
Ano : 1964
Diretor : José Mojica Marins
País : Brasil
Awards : L'Ecran Fantastique / Prêmio Tiers Convention du Cinema Fantastique  / Festival de Cine Fantástico y de Terror de Sitges / Buenos Aires International Festival of Independent Cinema / NatFilm Festival Dinamarca

3 comentários:

  1. Eu tenho sempre a legítima sensação de que não conseguirei assimilar no tod a filmografia do Zé do Caixão (não estou dizendo com isso que ele seja um mau diretor). Apenas ele me passa a ideia de ser uma incógnita.

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  2. Acho que entendi o que quis dizer Pseudo autor. De fato a filmografia de Mojica é extensa e irregular (vide a fase pornô) , mas cheia de pérolas , como Finis hominis e tal. Vc já leu o " Maldito " ? Vale muito a pena para desfazer essa "incógnita" . Mas de fato o cara é um dínamo.
    Abraço !

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  3. Eu tenho muito medo do dia em que o Mojica morrer , e subitamente vão aparecer um milhão de "fãs" e um trilhão de "homenagens" de inúmeros aproveitadores que nem sequer assistiram ou prestigiaram o cara enquanto ele ainda está vivo e em condições de tarabalhar e produzir suas obras. Mojica tem um incontável número de filmes inacabados que acumulou ao longo dos anos puramente por falta de apoio financeiro para terminá-los. Enquanto a Embrafilme (uma verdadeira aberração !!) financiou toneladas de filmes inúteis e de fachada nos ano 70 , que empurraram a reputação do cinema brasileiro para a merda e ainda resolveram a vida financeira de muitos ditos "diretores" , Mojica precisava se humilhar dirigindo filmes pornográficos e de zoofilia para não morrer de fome , fato que entristeceu o cara ao ponto de mudar o seu nome nos créditos , como sinal de honra e respeito à sua produção inicial.

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