sábado, 30 de outubro de 2010

Persepolis


Essa ótima animação conta, sob a ótica autobiográfica da cativante Marjane (uma menina iraniana iconoclasta e cheia de opinião, a primeira mulher iraniana a desenhar quadrinhos e a diretora do filme), a fascinante história recente do Irã, desde os tempos do xá Reza Pahlavi (cujo regime não era um espetáculo, mas ao menos o país gozava de uma liberdade civil próxima da ocidental), até a conturbada transição para o estabelecimento da terrível república islâmica, sob o comando do aiatolá Khomeini, quando os direitos civis, sobretudo das mulheres, foram colocados abaixo da estreita ótica do corão, da mesma forma que os costumes ocidentais foram satanizados pelo novo regime.




Hoje o Irã assusta tanto o mundo, e não sem motivo. A antiga tirania de Reza Pahlavi  foi substituida pela tirania dos fundamentalistas islâmicos, cujas origens da sua chegada ao poder foram as classes incultas e ressentidas dos anos do Xá, que levaram os Aiatolás ao poder pela força do zelo religioso somado à um discurso socialista genérico, e hoje se dedicam com muito ódio a banir a tal "maldade" do Ocidente e dos valores ocidentais. Se levarmos em conta que há petróleo em jogo, e que nem mesmo dentro do Irã o regime é uma unanimidade (vide os violentos e intermitentes protestos populares), a coisa toda é mesmo um enorme barril de pólvora ...



Se essa questão parece interessante ao leitor, então não deixe de assistir a este filme espetacular, que soube como abordar a questão de uma maneira clara e poética, ao se focar no aspecto humano das mudanças políticas (e religiosas) de uma sociedade em transição. E para quem gosta de ir mais fundo na complexa situação do choque de valores entre ocidente e oriente, sugiro humildemente a leitura do ótimo livro de Edward Said, Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente, da companhia das letras (com a edição de bolso disponível, baratinho). Persepolis, filme bem feito, antenado e sensacional, é a adaptação em animação da série em quadrinhos de mesmo nome, escrita pela quadrinista Marjane Satrapi, e que é fortemente auto-biográfica.

Ela cresceu em Teerã em uma família de intelectuais, estudou no Lycée Français e presenciou a crescente repressão da liberdade civil na vida cotidiana dos habitantes do país, desde a queda do Xá, até a instauração do regime inicial de Khomeini. Com 14 anos foi mandada para Viena por seus pais, a fim de escapar da insanidade do regime iraniano, onde, por exemplo, uma mulher que anda sem lenço pela rua é presa sumariamente, ou apedrejada em via pública no caso de adultério. A mudança cria em Marjane uma ambivalência intima dos valores de ocidente/oriente que poderia facilmente ser transportada para a escala planetária. Filmaço.

Título original : Persépolis
Ano : 2007
Diretor : Vincent Paronnaud / Marjane Satrapi
País : França / USA
Awards : Festival de Cinema de São Paulo / BAFTA / British Independent Film Awards / UK Festival of Women's Cinema from Tangiers to Tehran / Human Rights Watch Film Festival UK / Miyazaki Film Festival / Cannes / Cinemanila International Film Festival / Giffoni Film Festival / Helsinki International Film Festival / Copenhagen International Film Festival / Hong Kong Asian Film Festival / Italia Internazionale Festival / New York Film Festival / Taipei Golden Horse Film Festival / Iceland French Film Festival / Melbourne International Film Festival / London Film Festival / Valladolid International Film Festival / Argentinean Film Critics Association Awards , entre outros 




Um comentário:

  1. Olá. Meu nome é Luiz Santiago, sou editor do Cinebulição (www.cinebuli.blogspot.com). Gostei muito da sua página e gostaria de propor parceria: ambos seguirem e indicarem os blogs do outro. Se gostar do que vir no Cinebulição, me dá um toque. Eu ficaria muito contente.

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