terça-feira, 26 de abril de 2011

Eu andarei como um cavalo doido



Um rapaz com graves problemas edipianos foge para o deserto após a morte da mãe, e lá econtra Marvel, um nobre selvagem que se relaciona muito bem com a "mãe-terra" . Os dois tornam-se surpreendentemente inseparáveis , e junto com uma cabra , tornam-se companheiros de uma viajem repleta de símbologia psicanalítica.Taí um filme que gosto muito, uma raridade que não existe mais: o filme autoral . Neste caso feito pelo provocador e doidaço Fernando Arrabal (de Viva la Muerte) - que faz uma pontinha no final dando um beijinho na boca do selvagem . Filmes assim são uma raridade em uma época em que o cinema, mesmo o independente, tornou-se mais e mais corporativo.




Como todas as coisas que Arrabal fez, trata-se de um filme que em nada lembra um bombom hollywoodiano : é sujo , surreal, fragmentado e livre. Esse filme em especial , agradará em cheio os cinéfilos que também amam a teoria psicanalítica , pois o filme é repleto de simbolos mentais , e na verdade parece até um mapa freudiano. Estão lá , além do citado Complexo de Édipo (lugar comum de todos os filmes de Arrabal), o horror da castração e a fixação no falo , a polícia como figura paterna, a dádiva das fezes , o canibalismo como expressão de amor, e tantos outros. Todos os elementos mentais são simplesmente filmados como atos reais, o que dá ao filme a cara de um longo sonho edipiano. Assista e faça a sua leitura .. Filmaço !




Título original : J'irai comme un cheval fou
Ano : 1973
Diretor : Fernando Arrabal
País : França
Awards : nenhum

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Invasores de Corpos


Na bela São Francisco , um eficiente plano de invasão alienígena é posto em prática : esporos de plantas interplanetárias começam a germinar e a produzir clones das pessoas , que são trocadas por cópias exatas, porém a própria alma é descartada e substituída pelo caráter desprovido de emoção dos extraterrestres "encorporados". Matthew e Elizabeth , dois funcionários do departamento de saúde pública, começam a desconfiar que talvez exista uma conspiração em curso.




Excelente e esquecido filminho, que na verdade é um remake do clássico dos anos 50 , cuja trama é exatamente a mesma , mas que  funcionava como uma alegoria anti-comunista nos anos em que o cinema americano se enganjou na paranóia de medo soviético que varreu o país. Na versão mais recente está em jogo a questão da própria identidade dentro de uma sociedade impessoal , sobre o que faz alguém ser o que é, uma parábola sobre cultos de massa , despersonalização, e a própria paranóia no sentido clínico da coisa. Do caralho !



A direção de Philip Kaufman é sensacional : o clima lúgrube e preciso , os movimentos de câmera, a trilha e os ruídos naturais amplificados criam uma atmosfera sufocante e adequada. O elenco dispensa comentários , e os anos 70 tornam tudo melhor, a verdade é essa. O filme é perturbador, e conseguir esse efeito é obra para poucos. Se você pensa que ainda se fazem bons filmes de horror hoje você precisa assistir isso ...

Título original : Invasion of the Body Snatchers
Ano : 1978
Diretor : Philip Kaufman
País : USA
Awards : WGA Award / Festival do Cinema Fantástico de Avoriaz / Academy of Science Fiction Fantasy & Horror Films


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terça-feira, 19 de abril de 2011

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia



Lição 1 : Jamais engravide a filha adolescente de um católico e conservador barão do crime mexicano . Mas Alfredo Garcia desconhecia este precioso conselho. Agora sua cabeça está valendo o prêmio de 1 milhão , e todos os capangas e mercenários , dos dois lados da fronteira, estão atrás do cara. Bennie , nada mais do que um rufião comum , acredita que esta é a sua grande chance ...



Sam Peckinpah  dirigiu, já completamente alcoolatra, esta jóia esquecida do cinema americano. É de fato , o próprio triunfo da boçalidade , e traz as marcas do seu cinema : banho de sangue , violência gratuita especialmente direcionada às mulheres , podridão e poucas palavras. Filmado com baixo orçamento em seu muito amado México , retratado de uma maneira fortemente sentimental , foi o ultimo filme de Peckinpah que leva a sua marca.




Depois disso Sam descobriria , através do amigo James Caan , o açucar boliviano , o pó branco pelo qual se apaixonaria . A partir daí Sam se tornaria cada vez mais paranóico e progressivamente se deterioraria como diretor e como homem , que era, de fato, apaixonado por retratar um mundo de nihilismo, misoginia e brutalidade. Virou lenda ...


                                      


Título Original : Bring me the head of Alfredo garcia
Ano : 1974
Diretor : Sam Peckinpah
Pais : México / USA
Awards : Festival International Du Film / Locarno Film Festival / Karlovy Vary International Film Festival


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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Multiple Maniacs



Divine viaja com um show itinerante de aberrações , a "Cavalgada da perversão de Lady Divine " espetáculo que, segundo o mestre de cerimônias é  "o show mais sujo do mundo, com baixarias autênticas, cuidadosamente selecionadas para ensinar como se quebram as leis naturais, cometendo atos contra a natureza e ao Senhor , que repugnam qualquer um com o mínimo de decência" . De fato é um ótimo show . Mais tarde, levada pelo menino Jesus de Praga em pessoa à uma igreja católica, Divine se apaixona por uma mulher que está lá rezando, e num ato de amor, a mulher lhe introduz um crucifixo em seu reto como ato de afeição e luxúria.





Esse é o mundo para lá de estranho de John Waters , e embora ele tenha tornado-se célebre no circuito de cinema marginal apenas com Pink Flamingoes, esse filme já trazia todos os seus elementos em estado bruto. É um filme espetacular, e embora o roteiro não seja lá muito elaborado (o que está de acordo com a proposta anárquica de Waters), merecem destaque, além da sequência da igreja de Santa Cecília, a sua visão pessoal da via crucis e a cena de sexo com a lagosta gigante. Esteticamente é um filme inacreditável, e Waters conseguiu ao mesmo tempo enfurecer os hippies do flower power e os puritanos banguelas de sua morfética America. Louvado seja Waters.


Título Original : Multiple Maniacs
Ano : 1970
Diretor : John Waters
País : USA
Awards : Nenhum



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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Repo Man - A onda Punk



Otto é um punk de subúrbio em Los Angeles . Cansado do tédio e revoltado por seus pais terem dado todo dinheiro à um Pastor , se torna um Repo - Man , isto é , um repossessor, que toma de volta bens não pagos por caloteiros. Ao mesmo tempo , um lunático rouba extra-terrestres de uma base militar e os coloca no porta-malas de um carro. Logo Otto se verá no meio de uma conspiração que envolve seus amigos Repo , alguns ladrões comuns , punks de araque , um filósofo de rua , os Homens de preto , e até Tele-evangelistas.



Como eu gosto desse fiminho ! Assisti pela primeira vez na TV, muito criança ainda , e para completar o filme foi exibido todo cortado para se adequar à emissora , e acabou que não compreendi bem suas sutilezas na época. Mas fiquei com ele na cabeça , e já crescido o re descobri com grande entusiasmo, e volta e meia torno a assisti-lo , e garanto , não há melhor divertimento escapista .
Poucos filmes oitentistas , pelo menos os que pretendiam ser prestigiosos para os estúdios, foram tão longe como este. Na verdade , naquela década , começava um processo de domesticação dos filmes de Hollywood , que logo se transformaria em uma padronização burra e politicamente correta . Era melhor para os estudios produzir filmes para famílias assistirem e assim recuperarem o investimento , porque aquela era afinal , a era do VHS , e pensava-se no lucro do filme não mais apenas como renda de bilheteria.
Repo Man é foda. Hoje pode não parecer , mas era um filme "de estúdio" , só que politicamente incorreto , anti-americano , cheio de drogas , comentários sociais (todo rodado no gueto) e até alguns grãozinhos metafísicos aqui e ali ... Uma raridade na era Reagan. E apenas um cara de fora , Alex Cox (de Sid and Nancy) , diretor inglês , poderia ver a América daquela maneira.




E o que há de verdadeiramente Punk no filme ? Bem , o subtítulo é obra do distribuidor nacional , mas além dos punks caricaturais espalhados no filme , há também algumas referências muito espertas . De fato o filme acontece durante o estouro da terceira onda do Punk , o hardcore californiano . GBH , a placa do carro com os ETs é o nome de uma banda Punk clássica . Todos os produtos comerciais mostrados no filme são simplesmente genéricos Pic'n pay , estampados simplesmente como "Corn Flakes" , "Food" , "Beer" , etc , não há rótulos , corporações ou "produtos". Nada mais Punk . A música que Otto canta quando perde o emprego é "TV Party", do Black Flag , ícone supremo do Hardcore e hino da parada toda . Aliás a trilha é coisa muito fina. Além de algumas bandas punks obscuras, tem Iggy Pop , Suicidal Tendencies , e Burning Tendencies , fazendo uma cover de "Pablo Picasso" , dos Modern Lovers , uma das músicas mais brilhantes já escritas por algum ser humano. Além disso os Circle Jerks , além de estarem na trilha, também fazem uma ponta como uma banda de inferninho. Punk !
Quem tem um pouquinho de Punk no seu DNA acaba se emocionando com estas pequenas coisas , mas quem não está nem aí para isso ainda tem um filme muito divertido à disposição. Clássico !!

Título Original : Repo Man
Ano : 1984
Diretor : Alex Cox
País : USA
Awards : Berlin Film Festival / Saturn Award / BSFC Award / Mystfest

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Badlands



Kit é um gari fora da lei e com pinta de James Dean , numa cidadezinha do meio oeste americano . Ele se envolve com a ingênua adolescente Holly . Como o pai da moça desaprova o romance, a solução é matá-lo e pegar a estrada com a menina, numa road-trip de incompreensível violência. Filme superficialmente baseado em um incidente real que chocou a América no final da década de 50 , e também o primeiro esforço cinematográfico de Terrence Malick , enigmático diretor para lá de bissexto , que em 30 anos realizou apenas 4 filmes , mas sem dúvida nenhum tão forte quanto Badlands.




O filme é uma das primeiras metáforas a surgir nos anos 70 sobre a ruptura da inocência que a sociedade americana sofreu , sobretudo após a década de 50 . Malick teoriza, em seu retrospectivo ensaio cinematográfico, acerca da "expulsão mítica do Éden ", quando, a partir de então , a América abandonava seu hipotético status de terra santa (Hollyland) , repleta de complexos reprimidos de decência e carolice , para um status de Terra má (Badland) , com uma sádica propensão à violência e outros pecados. Me parece que hoje as duas Américas ainda permanecem vivas em uma só , e quanto mais seus desejos secretos e maus são reprimidos por uma estranha consciência de puritanismo , maiores são seus surtos histéricos de violência e dominação .



Russ Meyer já havia sacado isso mais de uma década antes , enquanto o processo estava acontecendo , mas retratava a coisa toda com sua deliciosa visão escapista e debochada , tendo basicamente , feito uma série de filmes exatamente com o mesmo argumento , e que são essencialmente a mesma coisa . Malick fez sua obra em outro tom : lúgrube , lento , fantasmagórico e dramático , resultando em um filme desolador e meditativo , que acabou virando um cult absoluto . É o protótipo, nascido uma geração antes de Assassinos por natureza , e seria apenas uma co-incidência o fato de Tarantino ter vampirizado diretamente os dois diretores ?

Título Original : Badlands
Ano : 1973
Diretor : Terrence Malick
País : USA
Awards : New York Film Festival / Donostia-San Sebastian International Film Festival / Festival de Veneza / Berlin International Film Festival / Karlovy Vary International Film Festival / BAFTA Film Award / National Film Registry USA / San Sebastián Film Festival

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Lola Montes



Por : Tom Leão

Graças a Criterion e a internet, pude, enfim, ver a versão restaurada e definitiva de 'Lola Montés', um daqueles filmes obrigatórios no currículo de cinéfilos. Na verdade, eu vi uma cópia relançada no Paissandu, em algum momento dos 80s, só que não lembrava de absolutamente nada. Apenas que era um filme fascinante e grande, feito para ser visto em telão Cinemascope. Agora, tive de ver em 47 polegadas, mas numa cópia de blu-ray muito boa. Além disso, a versão Criterion traz o filme montado do jeito que o diretor Max Ophüls (que morreu logo após) queria, e não como foi lançado nos cinemas em 1955, em ordem cronológica. E que, na época, foi um fracasso.




O filme conta a história (real) da cortesã Lola Montés (na verdade, uma irlandesa nascida Eliza Rosanna Gibert), que, através da arte da dança e da sedução (tinha corpo e rosto lindos), foi amantes de nomes como o compositor Franz Liszt e do rei da Baviera -- the power of the pussy --, até acabar a farra e se exilar nos EUA, onde virou atração circense (!). As pessoas iam lá para ver a mulher à frente de seu tempo, que botou a Europa a seus pés e provocou revoluções. Além da entrada para o espetáculo, pagavam um dólar (do Séc. 19) só para pegar em sua mão!



Sua vida é contada num picadeiro de circo, com numeros que reproduzem alguns momentos que estão sendo narrados se intercalando com cenas em flashback. Dá para notar onde foi que o Baz Luhrman se inspirou para fazer certas cenas de 'Moulin Rouge'. O filme (que rola em francês, alemão e inglês) é uma cascata de cores, sequencias muito bem feitas, cenários e visuais maravilhosos (de fazer babar galera de foto e moda). O diretor, em seu primeiro e unico filme colorido, foi perfeito em sua reconstituição de época e ao dar um toque pessoal à narrativa.




A atriz principal, Martine Carol, foi quase uma reencarnação de Lola, uma femme fatale francesa dos anos 1940 e 50, que teve vários casos famosos (e uma série de filmes em que interpretava mulheres sexy e decididas) e saiu de cena após a chegada de Brigitte Bardot; Morreu cedo, 47 anos, supostamente suicídio (o qual ja havia tentado antes do filme, o seu maior sucesso), já que ela não suportava ficar velha e ver a sua beleza ir embora. Era realmente estonteante...

Tom Leão
Blog

(N. do E.) : Tom Leão é jornalista , crítico musical e de cinema , escritor , DJ (Ziggy) , e também edita o lendário caderno de cultura pop e alternativa, Rio Fanzine , para o jornal O Globo . Valeu pela gentileza Tom , o filme é 10 !... )

Título Original : Lola Montes
Ano : 1955
Diretor : Max Ophüls
País : França / Alemanha / Luxemburgo
Awards : Toronto International Film Festival / Franco-German Film Festival (Czech Republic) / Athens Film Festival / New York Film Festival / Cinema St. Louis French Film Festival / Milwaukee Film Festival Winter Edition


DVD

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sábado, 2 de abril de 2011

A Montanha Sagrada


Um mendigo errante , com jeitão de Jesus Cristo vagueia por uma terra má e hostil , até que se depara com um alquimista iluminado , que o une a mais seis figuras ricas e proeminentes da terra , todos extraterrestres - cada qual representando um planeta do sistema solar , e os guia por uma jornada mística rumo à tão desejada imortalidade. Essa estranha resenha de fato é testemunha de que a narrativa não é mesmo o forte deste filme , mas sim sua coletânea de imagens épicas , ultrajantes , fascinantes , ou simplesmente Kitsch mesmo , no sentido de esteticamente exagerado , como um desfile de escola de samba.



Projeto mais ambicioso (e pretencioso) do doidão Alejandro Jodorowski , pode ser considerado como uma espécie de apoteose pessoal à contracultura , levada mais longe ainda que El Topo , cujo resultado é um documento vívido da confusão mental de uma era . Antes de começar a produção, e bem ao espírito da época, Jodorowski viveu um tempo em comunidade com todo o elenco e produção , e iniciou-se como "mago" com o guru boliviano (e por sua vez também doidão) Oscar Ichazo, que lhe encorajou a tomar doses cavalares de LSD como parte de sua "protoanálise" (SIC) . O resultado ficou evidente no filme , uma enorme, desconexa, onírica viagem de ácido.



A primeira parte do filme , que se dirige ao cristianismo e à sociedade católica ocidental é mais clara e contém algumas referências interessantes aos evangelhos : a multiplicação dos pães , os 12 apóstolos (as 11 putas e o macaquinho chucho-chucho) , a comunhão e a ascenção . Nesse segmento há uma boa re encenação da conquista do México onde sapos e lagartos são os atores em cena. Progressivamente o filme vai se tornando mais e mais desconexo , com referências à Tarot , Cabala , Alquimia , Astrologia e a inevitável ladainha hippie de "renascimento espiritual" , seja lá o que isso signifique.



Sem abrir mão de sua pegada escatológica , nem do uso extenso de deficientes físicos e animais de circo , o filme é puro Jodorowski . Diz a lenda que George Harrison ofereceu-se para o papel principal do Cristo/Ladrão , mas ao saber das inúmeras cenas de nudez , especialmente a da lavagem do ânus , pulou fora na hora. Foi um dos filmes mais caros já feitos no México até então , e mesmo assim custou bem menos de um milhão de dólares , o que em termos Hollywoodianos não passa de um Taco com guacamole para o tamanho da coisa toda: uma gigante alegoria lisérgica . Vai encarar ? ...



Título original : The Holy Mountain
Ano : 1973
Diretor : Alejandro Jodorowski
País : México / USA
Awards : Cannes / France L'Étrange Festival / Polish Latin America Film Festival

DVD

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