quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Desperate Living






Uma esnobe dona de casa com problemas mentais discute violentamente com o seu esposo, e no calor da disputa sua empregada doméstica morbidamente obesa o mata, sufocando-o com a sua enorme bunda. Perseguidas pela polícia as duas se refugiam em uma favela, espécie de terra do nunca, e refugo de marginais, nudistas e pervertidos sexuais. O lugar é governardo por uma rainha banguela, tirânica e ninfomaníaca. 






Nada disso é estranho no universo de repulsa, choque e imundície do mestre John Waters, o rei do vômito e do pop grotesco, que realizou nada menos do que a obra prima Pink Flamingos. John nunca pegou leve ao atacar os valores da sociedade americana, e Desperate living não fica atrás. Foi o único filme de Waters a não contar com a participação de sua musa, o travesti Divine, e que se passa inteiramente em um mundo imaginário. Uma espécie de conto de fadas lésbico, insano e nojento. Diversão assegurada para toda a família !


                                           


Título Original: Desperate Living
Ano: 1977
Diretor: John Waters
País: USA
Awards: Nenhum

O Estranho mundo de Zé do Caixão





"Não se dê ao trabalho de pensar o que somos, porque a conclusão final seria loucura, o final de tudo para o início do nada". Esse é o mote do genial trabalho de um dos meus heróis pessoais, José Mojica Marins. Uma obra prodigiosa, piramidal e aberrante. Para se ter uma idéia de seu poder de fogo, após esse filme Mojica passou a ser considerado oficialmente um doente mental para o então despótico departamento de censura federal, que naquele momento tinha o poder arbitrário de escolher o que as pessoas podiam ou não assistir.  Mojica desfila três curta metragens de enredos independentes entre si, porém interligados pelo conceito do primitivismo inerente ao homem: o Id, a camada mais profunda do inconsciente humano, como teorizado por Freud, e origem de atos de natureza bestial e torpe, onde o infame e o abjeto se misturam ao prazer narcísico que desconhece qualquer conceito limitador de civilização. Mojica nos conduz gradualmente, episódio a episódio, numa viagem descendente em direção à barbárie e à desumanização completa do episódio "Ideologia". Nada mais resta senão o instindo reptiliano. O filme apresenta a figura do professor "Oaxiac odez", óbvia inversão de Zé do caixão, que como o mito de satanás, é a própria personificação da sombra humana, de todo desejo que é negado pela noção moral e civilizatória e por conseguinte delegado, através de projeções, à responsabilidade de um outro. E a sequência final da santa ceia é uma das coisas mais lindas que já assisti na vida, porque é provocativa em muitos sentidos, sobretudo no aspecto canibal por trás da idéia de se comer o corpo de Cristo. Um filme sagrado.






Título Original: O estranho mundo de Zé do Caixão
Ano: 1967
País: Brasil
Diretor: José Mojica Marins
Awards: Nenhum

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ladrões de Bicicleta





Na penúria da Itália dos primeiros anos do pós guerra, um desempregado, Antonio, finalmente consegue um emprego, mas sob a condição de comprar uma bicicleta, ferramenta esta necessária ao trabalho de colador de cartazes. Escadrinhando cada centavo disponível a família por fim consegue adquiri-la, porém no primeiro dia de trabalho de Antônio seu precioso bem é roubado. O homem se mete então, na companhia de seu filho, pelos mais sórdidos, abjetos e miseráveis lugares de uma horrível cidade, na tentativa de localizar sua bicicleta.





Este magnífico filme é o ícone maior do neorrealismo italiano, movimento amparado estéticamente no estado de espírito da Itália pós Mussolini: pobreza, constrangimento, injustiça e desespero. O neorealismo tornou-se célebre, por ser ele mesmo, um simbolo sublime de mudança social e progresso cultural em um país que se reorganizava. Ladri di Biciclette é tido como o mais belo filme italiano já feito, e alguns o colocam como um dos mais importantes da história. Com relação à sua influência, os italianos costumam dizer para os franceses que a Nouvelle vague é muito bacana, mas só que eles já a haviam inventado uma década antes.





Título Original: Ladri di Biciclette
Ano: 1949
Diretor: Vitorio de Sica
País: Itália
Awards: Locarno International Film Festiva / National Board of Review / New York Film Critics Circle Awards / Academy Awards / British Academy of Film and Television Arts / Bodil Awards Copenhagen / Golden Globes / Cinema Writers Circle Awards Espanha / Kinema Junpo Awards Japão 

Basquiat Traços de uma Vida




Bom filme que mostra a peculiar carreira do artista alternativo americano Jean Michel Basquiat, cujos domínios se estendiam da música à pintura, grafite, instalações, e poesia; sempre com um estilo primitivo e expontâneo mas também energético e inovador. Quando o midas da pop art Andy Wharol  se encantou com sua obra, Basquiat tornou-se um sucesso instantâneo, chegando a ser a capa do New York Times. David Bowie, que trabalhou com Basquiat em vida, faz um ótimo Andy Wharol.



Esse filme dá também um bom panorama da efervescência cultural de Manhatan, e sobretudo East Village, que marcou o final dos anos 70 e 80, quando praticamente, tudo que fosse novo era o Hype da semana. Foi o auge do CBGBs, das galerias de arte, Punk-New Wave, (e da No wave !), e do experimentalismo nihilista que arrebatava os corações dos modernos. Depois disso, cada mega cidade do mundo passou a possuir um bairro que emula a cena: uma área que já foi decadente, é invadida por artistas e descolados, burgueses afins, se enche de galerias, endereços da moda, etc, etc.

O filme tenta penetrar no aparato psicológio do jovem pintor, sua força criativa, suas idéias simples, honestas e ingênuas, e que criou um estilo durável e influente. O que seria da programação visual da MTV nos primórdios sem a referência do cara ? O filme conta com uma ótima trilha, e algumas participações curiosas, como a viúva bagaceira Courtney Love.

                                     


Título original: Basquiat
Ano: 1996
Diretor: Julian Schnabel
País: USA
Awards: Festival de Veneza / Independent Spirit Awards / Political Film Society  USA / National Board of Review USA



sábado, 9 de novembro de 2013

Ascensor para o Cadafalso





Florence, uma linda mulher casada com um rico e poderoso industrial, planeja assassinar o esposo com a ajuda do amante, que é ninguém menos do que o homem de confiança de seu marido. Porém, um inesperado contratempo pode colocar em risco o que parecia ser um crime perfeito.
Imponente e admirável estréia cinematográfica de Louis Malle (de Au revoir les enfants), um dos pilares da nouvelle vague. Na verdade sua estréia havia acontecido anos antes com o documentário O mundo do silêncio, que mostrava o poético universo aquático do comandante Jacques Cousteau, algo completamente novo na época. Sendo assim, sua estréia em ficção foi mesmo com Ascensor para o cadafalso, em grande estilo, criando um clássico imediato, um tenso filme de suspense ao mesmo tempo cheio de classe e de inovações estéticas.





Porque Louis Malle era, antes de tudo, um esteta. Oriundo de uma família de classe alta, era um sujeito culto e provocador, sobretudo com relação às imposturas burguesas, que conhecia tão bem em virtude de suas origens. Ao contrário de muitos de seus análogos da nouvelle vague, Malle tinha uma vida privilegiada, cursou escola de cinema, e dominava a técnica muito bem. Por isso, seria repetidamente rejeitado pelos outros diretores do movimento, por conta de seu estilo considerado excessivamente proverbial por eles. Enquanto Malle sentia-se à vontade com o cinema clássico, todos os outros se julgavam em uma espécie de cruzada de honra cujo axioma era reinventar a linguagem cinematográfica a todo custo.



Tamanha reverência aparece muito claramente em Ascensor para o cadafalso, cuja trama de ironia fatalista segue de maneira obediente, quase ritual, a formula do cinema noir americano, gênero então idolatrado pela geração da nouvelle vague, em virtude de seu aspecto naturalmente soturno e estiloso, mas também estranhamento belo. Mas Malle tinha apenas 24 anos quando realizou este filmaço, e projetou também, de uma maneira inovadora para o momento, as aspirações de sua geração num segundo casal de jovens namorados, que dão corpo à um subtrama do filme, mas que acaba por se ligar finalmente à trama original.







Malle fez questão de fotografar a linda Jeanne Moreau de maneira completamente natural, sem maquiagem alguma ou qualquer luz artificial, de forma à captar em seu rosto todo o desalento de sua personagem, uma mulher perdida em uma névoa de paixão e desespero. E deu certo, pois foi depois deste filme que Moreau conquistou o status de deusa que a imortalizou. A trilha sonora é um caso à parte. Fascinado pela melancolia evocada pelas poucas, longas e tristes notas do cool jazz, Malle convocou ninguém menos que Miles Davis, então um promissor nome do gênero, para gravar a trilha sonora em tempo real, ou seja, enquanto assistia ao filme já finalizado, dentro de um estúdio cheio de champagne com alta rotação. O resultado foi fantástico: a música é como um personagem, e a trilha ganhou vida própria, sendo até hoje editada como um dos maiores clássicos do jazz já realizado. Um filme magnífico, cheio de classe.





Título Original: Ascenseur pour l'echafaud
Ano: 1958
Diretor: Louis Malle
País: França
Awards: Prêmio Louis Delluc de cinema

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Waterworld - Segredo das águas



              




Em um futuro pós apocalíptico não identificado, o aquecimento das calotas polares cria um planeta aquático onde a terra seca é apenas uma lenda ancestral. Nesta sinistra e violenta realidade sem lei, um mutante antisocial se junta à uma mulher e uma menina em busca de um mitológico continente perdido. Essa é a premissa deste horrível filme, que não é apenas horrível, mas sim um dos mais horríveis filmes já feitos. Passados quase 20 anos deste enorme naufrágio cinematográfico, eis que a obra começa a ganhar ares cult, e renasce como uma curiosa peça maldita de humor involuntário. 


Geralmente, para o bom cinéfilo aplicado o julgamento de valor não costuma ser necessariamente o norte que orienta a escolha dos filmes que quer assistir. Um filme é um filme, mas se ele é 'bom' ou 'ruim' já é uma questão secundaria à decisão de assisti-lo. Assistir é preciso e ponto final. Além disso, todo mundo preza por seus sagrados momentos de escárnio e espírito de porco. Afinal o ruim é a medida do bom, e assistir um filme terrivelmente ruim em toda a extensão de sua estupidez é um dos maiores prazeres descompromissados que existem. E este filme é um presente dos cruéis sátiros do cinema ruim. Como todos perceberam (menos Kevin Costner pelo visto), o filme é uma espécie de apropriação lobotomizada de Mad Max, trocando-se deserto por mar, e motos e carros por jet-skis e veleiros, ambientado em um cenário futurista, idiota e impossível. Como agravante do nonsense temos Kevin Costner atuando e uma evidente pregação politico-ecológica chata e alarmista. E o pior (melhor), o filme é ambicioso, mecatrônico, pura pretensão.




Como atração adicional está o fato que este desastre super inflacionado foi em sua época o filme mais caro jamais feito. Um orçamento gigantesco que apenas Kevin Costner teria o privilégio de descolar naquele momento. Nesta altura ele vinha de uma sequência impressionante de sucessos comerciais e pareceria estúpido ao estúdio não lhe dar carta branca para produzir o delírio mais bizarro que lhe ocorresse. Foi apenas depois do fracasso que, subitamente, o mundo inteiro se deu conta que Kevin Costner era ridículo e sem talento, mas parece que isso foi uma surpresa apenas para quem não havia assistido Campo dos sonhos, Wyatt Earp e O guarda costas, só para citar alguns exemplos das medonhas atrocidades cometidas pelo cara.

Seria a obra de Costner ruim porque transportava para o universo cinematográfico as medíocres aspirações do americano White Trash, segmento do qual Costner é um autêntico egresso, a começar pelo nome ? O sujeito jamais demonstrou inclinações acadêmicas, mas sempre privilegiou o baseball, Nascar e a musica country em sua escala de valores, que são exatamente as mesmas do publico que o validava. No início dos anos 90 seu bom mocismo e seu look clean encantavam a América bundona de tal maneira que o cara era rei. Seu toque de midas o fez um dos nomes mais poderosos da industria, o que culminaria com a egotrip de Waterworld. Entretanto, nos anos em que esteve envolvido com o projeto o cara não se deu conta que o mundo mudava. Nirvana, Beavis and Butt head, Tarantino, Ren & Stimpy, e toda uma estética ácida, cínica e politicamente incorreta tomava de assalto o país, modificando o gosto do americano médio. De repente ele era o passado. Morto dentro desta nova cultura e enterrado junto com uma pilha de cadáveres démodés.




Nem Dennis Hopper salvou o filme, que foi um retumbante fracasso comercial e de crítica. Totalmente humilhado, Costner ainda teve a inacreditável bravura testicular de transpor o mesmo erro de Waterworld para "The Postman", trocando a mesma premissa do mar pela terra. Foi a gota d'água, e sua carreira estava acabada. Transformado em persona non grata, fez uma série de filmes inexpressívos em todos estes anos. Só fui ver seu rosto na tela de novo recentemente em O Homem de aço, e confesso que achei o cara muito bem como o pai de Clark Kent, embora não tenha achado o filme lá estas coisas. Baseado no come back de John Travolta em Pulp Fiction de 95, quando retornou às telas se auto parodiando e brincando com a imagem camp que havia construído nos anos 70, talvez este fosse um caminho interessante para Costner seguir e garantir como Travolta uma segunda vida em Hollywood. Já Waterworld, uma pérola Trash ...




Título Original: Waterworld
Ano: 1995
País: USA
Direção: Kevin Reynolds e Kevin Costner
Awards: Razzie Awards - Pior Filme, pior Ator, pior Diretor e pior ator Coadjuvante 


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Joy Division




Documentário espetacular, de uma história espetacular, de uma banda espetacular ... Formato: entrevistas com os protagonistas, cenas de arquivo raras - inclusive de uma horrenda Manchester dos anos 70, e a poderosa música do Joy Division, desde o primeiro ensaio dos caras até a metamorfose em New Order. Mais uma peça para ajudar a montar o quebra cabeças que foi o Joy Division, uma banda saída de uma então cidade destruída e esquecida, para jamais conquistarem o mundo, e mesmo assim, serem uma das maiores influências para tudo o que aconteceria no rock nos anos seguintes ao seu desaparecimento. Não tem muito o que dizer além de que no final é duro segurar a emoção. Para assistir colado com control e 24hs Party people, nesta ordem. 



            







Título original: Joy Division
Ano: 2008
País: UK
Diretor: Grant Gee
Awards: CPH:DOX award

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Joven y Alocada






Uma adolescente em plena fase de ebulição sexual esbarra na fanática resistência de sua família evangélica que entende a sexualidade humana como algo pecaminoso e mesmo perigoso. Frustrada, ela expõe os detalhes de suas fantasias e práticas sexuais em seu blog Joven y alocada, através de um avatar secreto criado para se proteger. Simpático filme chileno sobre as dificuldades universais dos adolescentes, sobretudo acerca de suas duvidas afetivas.





Mas o aspecto mais interessante do filme é mesmo a dura exposição da aculturação imposta pelas igrejas evangélicas, e a constatação de que tudo não passa de um teatro baseado na coerção psicológica de seus fiéis, aforismadas por passagens bíblicas vazias e que não oferecem nenhuma resposta concreta frente ao incontornável absurdo da existência. Neste aspecto me lembrou o espetacular "Camiño", onde o catolicismo é que é a bola da vez. O título em português " As aventuras de uma ninfomaníaca" além de machista e apelativo, não faz justiça ao filme. E o cartaz é impagável.


Título Original: Joven y Alocada
Ano: 2012
País: Chile
Diretor: Marialy Rivas
Awards: Festival de cinema independente de Buenos Aires / Fastival de cinema latino americano de Huelva / San Sebastián International Film Festival / Sundance Film Festival

domingo, 20 de outubro de 2013

Blue Jasmine





Jasmine é uma elegante e charmosa mulher de meia idade, proeminente socialite de Park avenue, que subitamente vê seu mundo de contos de fadas desabar após a prisão repentina de seu esposo, um inescrupuloso financista que fez sua fortuna destruindo a vida financeira de outros. Completamente arruinada, cruza o país em busca de abrigo na casa de sua irmã adotiva Ginger, uma mulher que por sua vez carrega seu próprio fardo de desgraças. Mais recente filme do genial Woody Allen, que é ninguém menos que Deus, como já proclamado por aqui em outra ocasião. Para mim é disparado o melhor filme dele desde "Desconstruindo Harry", que foi o ultimo exemplar de seu cinema a reproduzir seu alter-ego neurótico, persona sobre a qual construi sua notoriedade como cineasta, roteirista e ator. Já idoso, Allen vem na ultima década se dedicando à função de realisador de filmes que, se não chegam a ser brilhantes, estão muito acima da tautologia que a concorrência nos oferece.







Porém, em Blue Jasmine, Allen concebeu um clássico imediato. Um filmaço. Mais uma obra prima inquestionável para a sua filmografia. Confesso que fui ao cinema com a expectativa de assistir um bom filme, porém na linhagem de sua safra mais recente, algo como um "Meia noite em Paris", simpático e ligeiro mas não memorável. Entretanto, saí da sessão não apenas agradavelmente surpreso, mas verdadeiramente comovido com a força do filme. Um sombrio psicodrama com a assinatura de um mestre, com uma narrativa sofisticada como raramente se vê. Simplesmente perfeito, coeso, enxuto. Uma beleza.







O filme é basicamente uma atualizada releitura pessoal do classico "Um bonde chamado desejo", de Tenessee Williams, ponto alto da dramaturgia norte americana, e que já foi revisitado inúmeras vezes na cultura popular (sendo uma das mais queridas por mim o episódio de Os Simpsons, "Cenas de um casamento bem sucedido"  - Aposto que Allen é um fã). Blue Jasmine recita/referência/homenageia "Um bonde chamado desejo" sobretudo com relação ao colapso mental de Jasmine, brilhantemente interpretada por Cate Blanchett. Aliás, para que haja justiça, é preciso reconhecer que a preciosa atuação de Blanchett é responsável por parte da grandeza do filme, uma vez que a atriz viveu a degradação em um nível de perfeição perturbador. Mas todo mundo do elenco está muito bem, e diga-se de passagem, não há um único personagem fácil ou agradável no filme: cada um deles é uma alma perdida.







Há também uma corajosa referência cifrada à própria biografia de Allen no filme, e que cabe ao espectador mais atento identificá-la, muito embora ela seja bastante óbvia. O filme está ainda em cartaz, e a chance de assistí-lo no cinema é uma possibilidade real. Eu mesmo quero vê-lo mais uma vez na telona. Assistir Blue Jasmine no cinema na ocasião do seu lançamento equivaleria ao privilégio de alguém que tenha visto os Sex Pistols ao vivo em 1978: é agora ou nunca. De vez em quando me pego pensando na eventualidade de viver num mundo sem Woody Allen, o que é uma possibilidade real, visto que ele já está velhinho. Mas aí ele faz um filme como Blue Jasmine e mostra que ainda tem o fôlego maior do que cinco Tarantinos juntos.  Eu tenho certeza que daqui a muito tempo as pessoas ainda escreverão sobre este filme, e mesmo com a indiferença dos anos, ele vai figurar lado a lado com os maiores clássicos de Allen, que por sua vez repousará tranquilo no panteão dos eternos. 






Título Original: Blue Jasmine
Ano: 2013
País: USA
Diretor: Woody Allen
Awards: Nenhum por enquanto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Balão Vermelho


     
             

Um dia, o pequeno Pascal encontra por acaso um grande balão vermelho em seus passeios pelo bairro parisiense de Ménilmontant. Aparentemente, o balão é dotado de uma vontade própria, e os dois desenvolvem então uma estreita amizade. Porém, tamanha amizade faz com que os meninos da vizinhança comecem a cobiçar o balão de Pascal. Essa é a história desse bonito curta metragem francês da década de 50, um verdadeiro tesouro.


                         


O filme retrata metaforicamente através de seu realismo mágico, uma atmosfera de ingenuidade e pureza, mas também nos lembra como o ser humano pode ser mesquinho e destrutivo. Filmado no então insalubre bairro de Ménilmontant, em Paris, é uma oportunidade quase documental de se observar como era a área então, já que hoje trata-se de um agradável bairro bohêmio que não se parece nada com o que é visto no filme.  


                                   


O filme é francamente metafórico, e como tal abre caminho para as mais delirantes fantasias projetadas daqueles que o assistem. Me diverti muito em ver algumas leituras feitas ao seu respeito: o balão como uma metáfora de cristo, ou, o balão como uma metáfora da França do pós guerra que voltava a sorrir, e até uma suposta relação gay entre Pascal e o balão, com a subsequente onda de ira que isso despertou. Com todo respeito, para mim o filme é apenas a simplicidade daquilo que mostra tão claramente. Além disso e um ótimo meio de apresentar para as crianças um cinema de qualidade que certamente vai ajudar a formar seu senso estético para o futuro.





Título Original: Le Ballon Rouge
Ano: 1956
Diretor: Albert Lamorisse
País: França
Awards: British Academy of Film and Television Arts / Cannes / New York Film Critics Circle Awards / National Board of Review / Prix Louis Delluc / Wisconsin International Children's Film Festival /  Los Angeles Outfest Gay and Lesbian Film Festival / Educational Film Award

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Marley


                               


Não, não é o filme do cachorrinho, mas sim o documentário-biografia realizado pelo diretor escocês Kevin McDonald (de "O ultimo rei da Escócia") sobre a vida do mitológico Bob Marley. O filme tem a virtude de retratar Bob unicamente através de depoimentos de pessoas que foram testemunhas oculares de tudo que é dito, pois estiveram de fato presentes ao seu lado por toda sua vida. Rita Marley (a viúva "oficial"), Bunny Wailer, o doidaço Lee Perry e Cindy Breakspeare, sua mais notória amante (e com quem teve um de seus 11 filhos), entre outros, testemunham a realmente cinematográfica trajetória do homem, desde seu nascimento na mais absoluta miséria, até sua precoce morte e legado, como uma espécie de profeta místico do século 20.


                       
               


Exceto pela metafísica rastafari, sempre amei o reggae, mais por suas extraordinárias virtudes musicais do que pela sua confusa pregação religiosa. Desde quando eu era criança ainda, e havia uma pixação no muro da minha escola que me intrigava: Bob Marley (1945-1981), até passar 8 meses como baterista em uma banda de reggae, ele sempre esteve lá. O elegante minimalismo, o conceito simples, o fato de estar intimamente ligado à cultura Punk (vide The Clash, Rancid, etc), o fato de existir o Dub, tudo isso sempre me atraiu ao reggae como um íma, e comparado-se aos subgêneros do estilo desde então, a impressão que fica é que Bob é a evolução do reggae, e não o contrário. Ele é o reggae e ponto final. Somado a seu carisma e apelo universais, não é de se admirar que o homem tenha se tornado uma deidade. Por causa dele o reggae parece ser uma espécie de denominador comum e catalisador de diferenças musicais, um porto que congrega adoradores tão distintos quanto rastas, hippies, punks, rockers, clubbers, rappers, hipsters, e todos os skinheads que fizeram do reggae um verdadeiro estilo de vida. 


Como documentário o filme é magnífico, detalhando também sua doença, seu exílio terapêutico na Alemanha (numa surreal situação de Jamaica abaixo de zero), a primeira fase dos Wailers (então uma inusitada boy-band de Trenchtown, e que reunia nada menos que a santíssima trindade do Reggae: Bob, Bunny Wailer e o também eterno Peter Tosh); seu intenso envolvimento politico na Africa, seu funeral. Por outro lado o filme é bastante superficial à respeito do papel crucial da gravadora britânica Island (e do produtor Chris Blackwell, que soube literalmente forjar o som da banda ao adaptá-los ao paladar pop-rock ocidental com o album "Catch a fire". Essa reinvenção foi de fato o começo de tudo em termos de estrelato, e sem ela certamente o gênio do cara teria permanecido na pequena Jamaica e ninguém mais tocaria no assunto. (n.do r.: para mais detalhes assista ao documentário "Classic albuns - Catch a fire")
Outro fato notório que o filme não aborda, é que Marley sabia da gravidade de sua doença desde o início, mas ignorou qualquer tratamento mais profundo pois acreditava que Jah iria curá-lo.  Enfim, para fãs, adoradores ou haters : um filmaço.

(Obs: Embora não creditado, foi Martin Scorsese quem primeiro tocou o projeto, mas precisou deixá-lo por questões de agenda)


.                                                


Título original: Marley
Ano: 2012
Diretor: Kevin Mc Donald
País: UK / USA
Awards: British Independent Film Awards / BAFTA Film Award / Black Reel Awards / Evening Standard British Film Awards / Image Awards / Washington DC Filmfest

sábado, 28 de setembro de 2013

Os incompreendidos



                        



Estréia cinemátográfica de François Truffaut, que é ao mesmo tempo: uma autobiografia ligeiramente modificada de seus anos de pré adolescência; o marco zero da nouvelle vague; e um clássico incontestável do cinema. Os incompreendidos, rodado quando Truffaut contava com 26 anos e basicamente zero de experiência como cineasta, foi a sua oportunidade de colocar em prática um cinema completamente diferente daquele que tão veementemente atacou nos seus anos como redator no lendário periódico cahiers du cinema, onde escreveu um manifesto em defendia a demolição "das velhas lendas do cinema francês" - coitado do Rene Clement ! (ver Les deux de la vague). O filme é basicamente uma espécie de purgação de suas mágoas adolescentes através do pequeno Antoine, seu alter-ego, conflitado entre uma escola severa, um lar disfuncional de pais fracos e indiferentes, e um gosto pela delinquência (fazer Les 400 coups, título original do filme, significa algo como "fazer muita merda"). Tudo isso era novo na época. Uma mãe que não ligava para o seu filho era o tipo de coisa que não se via jamais no cinema, ainda apegado à um velho classissismo, onde o banal, no sentido mais sublime do termo, costumava passar despercebido, e temas tidos como delicados eram igualmente evitados. 


Uma das queixas de Truffaut no famoso manifesto que escreveu no Cahiers du cinema, era justamente contra um cinema baseado no star-system, e confinado à um estúdio, que por sinal eram poucos e antiquados na França do pós guerra. Com a nouvelle vague inaugurou-se uma maneira mais documental de se filmar, com locações naturais, em plena rua, com a linguagem que as pessoas utilizavam no dia a dia, movimentos de câmeras inusitados, sobre temas pertinentes à vida das pessoas comuns. Como novidade também haveria uma redução notável no número de diálogos em cena: caberia ao espectador, por si só, penetrar no aparato psicológico dos personagens, e interpretá-los, criando um envolvimento mental muito maior com a obra, e a possibilidade de lançar sobre ela o seu próprio olhar. O movimento foi também um manifesto em relação às antigas e esclerosadas instituições autoritárias da "velha França", representadas no filme pela escola e pelas forças policiais. Diz-se comumente que a nouvelle vague foi a versão filmada o escopo daquilo que culminaria nos movimentos sociais de 68, mas na verdade ele foi uma espécie de fio condutor que canalizava os anseios e as mudanças de costumes que já pairavam nas mentes, nos jornais, nas ruas, nos escritos, no inconsciente coletivo, enfim. Daí sua aceitação imediata, tanto por parte da crítica (melhor filme em Cannes naquele ano) quanto do público, e a seguir o mundo.



                               



A nouvelle vague não foi Truffaut sozinho, é óbvio. Seu nêmesis foi seu antigo companheiro do Cahiers (ver Les deux de la vague)  Godard, que colocaria em prática um cinema mais avant-gardista e radical no qual a visão de mundo é filtrada através de um aparato intelectual, artístico, filosófico, existêncial, conceitualmente monocórdico; que muitas vezes impunha uma barreira inderrogável entre seus filmes e o público. Todo o resto do movimento ficava no território entre um e outro. Truffaut foi um fenômeno de bilheteria, mas com excessão dele, diz-se que a nouvelle vague teve poucos espectadores, entretanto, cada um deles virou um cineasta. É um simpático exagero, mas se você olhar com atenção cada filme já publicado neste blog que foi produzido desde então, verá que uma boa parte deles traz de fato a nouvelle vague em seu DNA. 




                                                  



Uma conexão ineressante deste filme é que ele foi dedicado por Truffaud à André Bazin, à quem tinha como um pai, e que infelizmente não veria a estréia cinematográfica de seu pupilo. Bazin, igualmente um adorador de cinema e de gatos, morreu de leucemia com míseros 40 anos. Ele foi um dos grandes teóricos do cinema francês. Fundou, e editou o Cahiers du cinéma por muitos anos. Era um forte defensor do cinema de realidade objetiva, isto é, mais documental, como o neo-realismo italiano por exemplo (parente estilístico da nouvelle vague), em oposição ao classicismo (sobretudo Hollywoodiano) do cinema como manipulação da realidade. Quando se conhece a nouvelle vague entende-se a extensão da influência de suas idéias. Ele foi também um dedicado "professor" dos cineclubes que organizava em Paris. Como crítico de arte que era, acreditava firmemente, que a cultura e o conhecimento são elementos de emancipação pessoal, e se dedicou à apresentar e comentar filmes de qualidade à um público mais popular.



                        



Título Original: Les quatre cents coups
Ano: 1959
Diretor: François Truffaut
País: França
Awards: Cannes / Oscar / Sant Jordi Prêmio de Cinema / New York Film Critics Circle Awards / Bodil Awards / BAFTA

domingo, 22 de setembro de 2013

Reefer Madness





Melodramático filme propaganda realizado no distante ano de 1936, cujo objetivo primordial era o de alertar a conservadora e protestante população americana do pré guerra quantos aos supostos riscos do controverso arbusto cientificamente conhecido como Cannabis. Na visão maniqueísta do filme, o consumo da planta seria responsável direto por atos criminosos de seus usuários, tais como estupro, massacre e suicídio, ou a completa degradação pessoal rumo à loucura. Feito num tempo em que retratava-se, por exemplo, o casal de traficantes dormindo em camas separadas, o filme acabou por tornar-se uma empoeirada peça de curiosidade cinematográfica (muito embora a campanha de satanização da maconha nos EUA tenha seguido de vento em popa ao longo do século XX), até reaparecer nos anos 70 como obra clássica e cultuada.







Tomei contato com o filme quando assisti ao documentário Grass, que utilizava algumas sequências suas, e foi um choque cômico. Hoje o filme é de domínio público, sendo fácil encontrá-lo na rede. Recentemente, este cultuado conto moral foi colorizado em tons berrantes, para realçar seu teor cômico e camp, saindo diretamente em DVD pela Fox. Da época em que foi produzido até nossos dias muita coisa aconteceu no planeta, mas é surpreendente que na maioria dos países hoje, a maconha ainda possua o mesmo status legal que possuia em 1936, ou pior, que ainda seja equivocadamente entendida pelo cidadão médio como o escandaloso veneno juvenil de Reefer madness. Não me considero um ativista pró-cannabis, mas será que o estado tem mesmo o direito de decidir aquilo que os seus cidadãos podem ou não consumir ? Enquanto a sociedade foge do assunto, a planta segue clandestina alimentando uma lucrativa rede de tráfico e violência.



Título Original: Reefer Madness
Ano: 1936
País: USA
Diretor: Louis J Gasnier
Award: Nenhum

                   
                          

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A Febre do rato


                                


Poeta é um sujeito cínico, no sentido grego da palavra. Um hedonista que vive em estado de permanente delírio poético, e que, entre um baseado aqui e um copo de cachaça acolá, distribui seus arroubos filosóficos através do fanzine anarquista "Febre do rato", quando não está lançando palavras pelo ar, dentro de um velho carro pelas ruas de Recife. Quando conhece Eneida, poeta vive ele mesmo a sua própria "Febre do rato", pois não consegue consumar o ato sexual com sua mais nova musa. 
"Febre do rato" ora como metáfora da disseminação da peste (a peste bubônica das idéias), ora como estado de abstinência sexual, é o mote deste trabalho do cineasta pernambucano Claudio Assis, cujos longas anteriores "Amarelo manga" e Baixio das Bestas" já foram postados aqui.


                                  


Febre do rato, como filme autoral, está de fato impregnado do que já pode ser chamado do estilo de Claudio de Assis. Seu habitual discurso cinematográfico repleto de Pernambuco, sexo, maconha, miséria social e humana, o drama existêncial de personagens esquecidos do cenário urbano, aparece no filme quase como uma declaração de princípios. Em "Febre do rato", fica claro um extremo apreço estético e ideológico. Se por um lado, o filme não possui a mesma solidez, como história, de seus antecessores, por outro esbanja em estilo e no bom uso da linguagem cinematográfica, de referências ricas, notavelmente nouvelle vague, realismo italiano, cinema marginal brasileiro, e claro, Glauber Rocha. 


                                   


O desagradável como estética, fotografado lindamente em preto e branco, com enquadramentos memoráveis e esmerados. Com citações obrigatórias de Bakunin e Chico Science, terminando com a cena ao lado do caranguejo da rua Aurora, símbolo do Manguebeat, passando pela ótima trilha de Jorge du peixe (Nação Zumbi), tudo celebra a contracultura anárquica recifense em alto estilo, sendo o próprio diretor um dos expoentes da cena cultural que desde o surgimento do "manifesto do mangue" (por sua vez de genética punk), vem conectando os ricos regionalismos locais com o mundo, tendo como pano de fundo comentários sobre o abandono sócio econômico da cidade. Cinema de qualidade, com Hellcife como personagem principal, de um dos melhores diretores brasileiros em atividade.


Título Original: A febre do rato
Ano: 2011
Diretor: Claudio Assis
País: Brasil
Awards: Festival Festin / Prêmio Associação dos críticos de arte de São Paulo / Festival de cinema de Brasília / Festival de Paulínia / Festival de cinema de Havana / Festival de cinema de Rotterdam

domingo, 9 de junho de 2013

Jodorowsky's Dune





Excepcional documentário que narra a epopéia quixotesca de um homem e seu sonho, no caso, Alejandro Jodorowsky, um dos pilares deste blog, (que já apareceu por aqui em El topo, A Montanha sagrada, Santa Sangre) que sonhou por anos à fio em produzir sua versão pessoal do estranho romance Duna, de Frank Herbert, mas jamais conseguiu fazê-lo. Sem dúvidas, já é disparado o melhor filme que assisti este ano ! 
Eram os anos 70, e Jodorowsky, então superconfiante pelo sucesso inesperado de seus filmes nos circuitos underground mundo afora, embarcava em uma insana egotrip, e resolveu que iria apostar mais alto desta vez.





Assim, criou um projeto tão ambicioso e exagerado que é realmente espantoso que tenha conseguido chegar tão longe em seu delírio de grandeza: no elenco contaria com atores e celebridades tais quais David Carradine, Orson Welles, Salvador Dali, Gloria Swanson e Mick Jagger, entre outros, em um filme que duraria nada menos que 14 horas, e com a trilha sonora original de Pink Floyd e Magma (tudo a ver). Todo storyboard , cenários e ambientação foram criados pelo gênio etéreo dos quadrinhos sci-fi, o francês Moebius. As criaturas, roupas e edificações teriam a perturbadora marca do artista suiço H R Giger. Para completar , as naves espaciais estavam a cargo do designer Dan O'Bannon.





Mais de 9 milhões de dolares foram gastos na pré-produção, mas enfim, o projeto morreu nas gavetas dos executivos de Hollywood, que não cogitavam naquela época investir milhões e milhões em um filme que, dentro de suas visões pragmáticas, não passava de um filme B megatrônico. Sendo assim, Jodorowsky teve que abandonar seu sonho de criar "uma experiência de LSD que durasse 14 horas, sem a necessidade de se consumir a droga", "uma jornada espiritual que nos mostraria um novo messias", entre outros disparates típicos do status quo daquele momento.





O mais bizarro é que o projeto do filme (um tijolaço com a expessura de dois catálogos telefônicos) circulou por mãos poderosas em Hollywood, e poucos anos depois, "por acaso", surgia uma onda de blockbusters de sucesso que eram essencialmente filmes B espaciais, e que utilizavam exatamente a equipe de guerreiros de Jodorowsky ! Dan O'Bannon criaria nada menos que as naves de "Stars Wars", e deu no que deu, enquanto que HR Giger tornou-se o pai da criatura de "Aliens, o oitavo passageiro", o monstro capaz de evocar toda sorte de medos inconscientes. Jodorowsky, vampirizado, teve então que se contentar em ver seu sonho metafísico diluido na visão de outros diretores.





Duna, seria eventualmente realizado anos depois por Hollywood, resultando em um dos maiores abacaxis cinematográficos da história, que nem David Lynch conseguiu salvar. (Na verdade é um filme tão ruim que chega a ser bom). Já Jodorowsky's Dune é perfeito como cinema de documentário e ao mesmo tempo homenageia com justiça a figura já lendária do demente diretor chileno e suas idéias bizarras. Imperdível.


Título Original: Jodorowsky's Duna
Ano: 2013
Diretor: Frank Pavich
País: USA
Awards: Semana dos realizadores de Cannes


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Deconstruíndo Harry






Harry é um bem sucedido escritor que atravessa uma perturbadora fase de bloqueio criativo, e está prestes a receber uma homenagem da universidade que o expulsou na época de aluno. No processo, Harry mergulha em suas memórias pessoais misturadas ao de seus escritos e personagens fictícios (que são em ultima análise projeções de si mesmo, de seus desafetos, ou mesmo de suas facetas neuróticas) que o colocarão em situações tão inusitadas quanto estar frente à frente com o capeta em pessoa. (O inferno é igual ao inferno do Mojica !)




Excepcional criação do gênio judeu, que é constantemente um filme esquecido ou menosprezado em meio à fartura de clássicos de sua prolífica filmografia. Um filme tão pessoal, uma obra prima, embora este título caiba à muitos dos seus filmes. Allen admite abertamente seus pecados e fraquezas de forma admirável, ("Sua vida é nihilismo, cinismo, sarcasmo and orgasmo"). Allen é Harry e ponto final. Ou melhor, Harry é o Id de Allen, seu animal sem freios, a persoificação de seus anseios mais primitivos e básicos, aqui assumidos em praça pública. Sua paixão e ódio pelas teorias psicanalíticas, suas taras, sua visão de mundo mais vulgar, seu desprezo pelas religiões, sua obsessão existêncialista. Está tudo lá.





Não parece por acaso que depois da catarse de "Harry" o cinema de Allen tenha se transformado nesta ultima década em um cinema de "realizador", com seu neurótico alter-ego colocado de lado em favor de privilegiar referências à obras clássicas e belos contos cinematográficos, como "Vicky Cristina" e "Meia noite em Paris". Allen é Deus, pouco importa se como "Woody" Allen, o neurótico, ou como Allan Stewart Konigsberg, o realizador.


                                        


Título Original: Deconstructing Harry
Ano: 1997
Diretor: Woody Allen
País: USA
Awards: European Film Awards / Satellite Awards / Oscar / Turia Awards / Grande Prêmio Brasil de Cinema


domingo, 14 de abril de 2013

Duas garotas românticas



                           


Duas irmãs gêmeas de Rochefort (daí o título original em francês "Les demoiselles de Rochefort"), amantes das artes e da música, sonham em seguir para Paris e abraçar definitivamente este modo de vida. Quando uma trupe meio circense chega à cidade, talvez tenha chegado a hora de realizar este sonho. Na verdade o roteiro, simplório e cheio de buracos, não é o ponto forte deste filme. Porque vale a pena assistí-lo então ? Bem, primeiro porque trata-se de um belo exemplar do cinema cantante de Jacques Demy (que já apareceu aqui no blog em "Peau d'âne"), verdadeiro 'corpo estranho' da nouvelle vague, totalmente ingênuo e colorido, pelo qual tenho a maior das simpatias.


                                 


Além disso, é a unica oportunidade de se conferir Catherine Deneuve contracenar com sua irmã Françoise Dorléac (as gêmeas). Ambas igualmente belas, juntas na tela, são o grande chamariz para o cinéfilo aplicado. Françoise viria a falecer um pouco depois, com parcos 25 anos, em um trágico acidente automobilístico no sul da França, chocando todo o país. Deneuve viria a tornar-se a deusa que todos nós amamos. Há ainda uma participação de Agnès Varda, esposa de Demy, como uma freirinha. Como se não bastasse, há a presença nada à ver de Eugene Kelly, já longe de sua grande forma, fazendo uma ponta típica de final de carreira, totalmente perdido, basicamente para dar um pouco de credibilidade ao filme, em tanto que sub produto de musical americano (gênero que nesta época já se encontrava praticamente extinto).


"Duas garotas românticas" é um filme impagável. Datado, absurdo e camp, não tinha como não se tornar um cult absoluto. Michel Legrand, talentoso compositor e parceiro inseparável de Demy, fez um grande trabalho, e criou pelo menos um clássico instantâneo na trilha sonora, a pegajosa "Chanson des Jumelles " (canção das gêmeas), que agarra na cabeça e jamais te deixa. Agnès Varda viria à restaurar a fita como tributo ao seu falecido marido, trazendo de volta seu belo colorido. Uma mistura de otimismo gay (no sentido mais respeitoso da palavra), com tributo à anorexia. Clássico de um tempo em que o cigarro era tudo !     


Título original :  Les demoiselles de Rochefort
Ano : 1967
Diretor : Jacques Demy
País : França
Awards : Nenhum

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...