quarta-feira, 31 de julho de 2013

A Febre do rato


                                


Poeta é um sujeito cínico, no sentido grego da palavra. Um hedonista que vive em estado de permanente delírio poético, e que, entre um baseado aqui e um copo de cachaça acolá, distribui seus arroubos filosóficos através do fanzine anarquista "Febre do rato", quando não está lançando palavras pelo ar, dentro de um velho carro pelas ruas de Recife. Quando conhece Eneida, poeta vive ele mesmo a sua própria "Febre do rato", pois não consegue consumar o ato sexual com sua mais nova musa. 
"Febre do rato" ora como metáfora da disseminação da peste (a peste bubônica das idéias), ora como estado de abstinência sexual, é o mote deste trabalho do cineasta pernambucano Claudio Assis, cujos longas anteriores "Amarelo manga" e Baixio das Bestas" já foram postados aqui.


                                  


Febre do rato, como filme autoral, está de fato impregnado do que já pode ser chamado do estilo de Claudio de Assis. Seu habitual discurso cinematográfico repleto de Pernambuco, sexo, maconha, miséria social e humana, o drama existêncial de personagens esquecidos do cenário urbano, aparece no filme quase como uma declaração de princípios. Em "Febre do rato", fica claro um extremo apreço estético e ideológico. Se por um lado, o filme não possui a mesma solidez, como história, de seus antecessores, por outro esbanja em estilo e no bom uso da linguagem cinematográfica, de referências ricas, notavelmente nouvelle vague, realismo italiano, cinema marginal brasileiro, e claro, Glauber Rocha. 


                                   


O desagradável como estética, fotografado lindamente em preto e branco, com enquadramentos memoráveis e esmerados. Com citações obrigatórias de Bakunin e Chico Science, terminando com a cena ao lado do caranguejo da rua Aurora, símbolo do Manguebeat, passando pela ótima trilha de Jorge du peixe (Nação Zumbi), tudo celebra a contracultura anárquica recifense em alto estilo, sendo o próprio diretor um dos expoentes da cena cultural que desde o surgimento do "manifesto do mangue" (por sua vez de genética punk), vem conectando os ricos regionalismos locais com o mundo, tendo como pano de fundo comentários sobre o abandono sócio econômico da cidade. Cinema de qualidade, com Hellcife como personagem principal, de um dos melhores diretores brasileiros em atividade.


Título Original: A febre do rato
Ano: 2011
Diretor: Claudio Assis
País: Brasil
Awards: Festival Festin / Prêmio Associação dos críticos de arte de São Paulo / Festival de cinema de Brasília / Festival de Paulínia / Festival de cinema de Havana / Festival de cinema de Rotterdam
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