sábado, 28 de setembro de 2013

Os incompreendidos



                        



Estréia cinemátográfica de François Truffaut, que é ao mesmo tempo: uma autobiografia ligeiramente modificada de seus anos de pré adolescência; o marco zero da nouvelle vague; e um clássico incontestável do cinema. Os incompreendidos, rodado quando Truffaut contava com 26 anos e basicamente zero de experiência como cineasta, foi a sua oportunidade de colocar em prática um cinema completamente diferente daquele que tão veementemente atacou nos seus anos como redator no lendário periódico cahiers du cinema, onde escreveu um manifesto em defendia a demolição "das velhas lendas do cinema francês" - coitado do Rene Clement ! (ver Les deux de la vague). O filme é basicamente uma espécie de purgação de suas mágoas adolescentes através do pequeno Antoine, seu alter-ego, conflitado entre uma escola severa, um lar disfuncional de pais fracos e indiferentes, e um gosto pela delinquência (fazer Les 400 coups, título original do filme, significa algo como "fazer muita merda"). Tudo isso era novo na época. Uma mãe que não ligava para o seu filho era o tipo de coisa que não se via jamais no cinema, ainda apegado à um velho classissismo, onde o banal, no sentido mais sublime do termo, costumava passar despercebido, e temas tidos como delicados eram igualmente evitados. 


Uma das queixas de Truffaut no famoso manifesto que escreveu no Cahiers du cinema, era justamente contra um cinema baseado no star-system, e confinado à um estúdio, que por sinal eram poucos e antiquados na França do pós guerra. Com a nouvelle vague inaugurou-se uma maneira mais documental de se filmar, com locações naturais, em plena rua, com a linguagem que as pessoas utilizavam no dia a dia, movimentos de câmeras inusitados, sobre temas pertinentes à vida das pessoas comuns. Como novidade também haveria uma redução notável no número de diálogos em cena: caberia ao espectador, por si só, penetrar no aparato psicológico dos personagens, e interpretá-los, criando um envolvimento mental muito maior com a obra, e a possibilidade de lançar sobre ela o seu próprio olhar. O movimento foi também um manifesto em relação às antigas e esclerosadas instituições autoritárias da "velha França", representadas no filme pela escola e pelas forças policiais. Diz-se comumente que a nouvelle vague foi a versão filmada o escopo daquilo que culminaria nos movimentos sociais de 68, mas na verdade ele foi uma espécie de fio condutor que canalizava os anseios e as mudanças de costumes que já pairavam nas mentes, nos jornais, nas ruas, nos escritos, no inconsciente coletivo, enfim. Daí sua aceitação imediata, tanto por parte da crítica (melhor filme em Cannes naquele ano) quanto do público, e a seguir o mundo.



                               



A nouvelle vague não foi Truffaut sozinho, é óbvio. Seu nêmesis foi seu antigo companheiro do Cahiers (ver Les deux de la vague)  Godard, que colocaria em prática um cinema mais avant-gardista e radical no qual a visão de mundo é filtrada através de um aparato intelectual, artístico, filosófico, existêncial, conceitualmente monocórdico; que muitas vezes impunha uma barreira inderrogável entre seus filmes e o público. Todo o resto do movimento ficava no território entre um e outro. Truffaut foi um fenômeno de bilheteria, mas com excessão dele, diz-se que a nouvelle vague teve poucos espectadores, entretanto, cada um deles virou um cineasta. É um simpático exagero, mas se você olhar com atenção cada filme já publicado neste blog que foi produzido desde então, verá que uma boa parte deles traz de fato a nouvelle vague em seu DNA. 




                                                  



Uma conexão ineressante deste filme é que ele foi dedicado por Truffaud à André Bazin, à quem tinha como um pai, e que infelizmente não veria a estréia cinematográfica de seu pupilo. Bazin, igualmente um adorador de cinema e de gatos, morreu de leucemia com míseros 40 anos. Ele foi um dos grandes teóricos do cinema francês. Fundou, e editou o Cahiers du cinéma por muitos anos. Era um forte defensor do cinema de realidade objetiva, isto é, mais documental, como o neo-realismo italiano por exemplo (parente estilístico da nouvelle vague), em oposição ao classicismo (sobretudo Hollywoodiano) do cinema como manipulação da realidade. Quando se conhece a nouvelle vague entende-se a extensão da influência de suas idéias. Ele foi também um dedicado "professor" dos cineclubes que organizava em Paris. Como crítico de arte que era, acreditava firmemente, que a cultura e o conhecimento são elementos de emancipação pessoal, e se dedicou à apresentar e comentar filmes de qualidade à um público mais popular.



                        



Título Original: Les quatre cents coups
Ano: 1959
Diretor: François Truffaut
País: França
Awards: Cannes / Oscar / Sant Jordi Prêmio de Cinema / New York Film Critics Circle Awards / Bodil Awards / BAFTA

domingo, 22 de setembro de 2013

Reefer Madness





Melodramático filme propaganda realizado no distante ano de 1936, cujo objetivo primordial era o de alertar a conservadora e protestante população americana do pré guerra quantos aos supostos riscos do controverso arbusto cientificamente conhecido como Cannabis. Na visão maniqueísta do filme, o consumo da planta seria responsável direto por atos criminosos de seus usuários, tais como estupro, massacre e suicídio, ou a completa degradação pessoal rumo à loucura. Feito num tempo em que retratava-se, por exemplo, o casal de traficantes dormindo em camas separadas, o filme acabou por tornar-se uma empoeirada peça de curiosidade cinematográfica (muito embora a campanha de satanização da maconha nos EUA tenha seguido de vento em popa ao longo do século XX), até reaparecer nos anos 70 como obra clássica e cultuada.







Tomei contato com o filme quando assisti ao documentário Grass, que utilizava algumas sequências suas, e foi um choque cômico. Hoje o filme é de domínio público, sendo fácil encontrá-lo na rede. Recentemente, este cultuado conto moral foi colorizado em tons berrantes, para realçar seu teor cômico e camp, saindo diretamente em DVD pela Fox. Da época em que foi produzido até nossos dias muita coisa aconteceu no planeta, mas é surpreendente que na maioria dos países hoje, a maconha ainda possua o mesmo status legal que possuia em 1936, ou pior, que ainda seja equivocadamente entendida pelo cidadão médio como o escandaloso veneno juvenil de Reefer madness. Não me considero um ativista pró-cannabis, mas será que o estado tem mesmo o direito de decidir aquilo que os seus cidadãos podem ou não consumir ? Enquanto a sociedade foge do assunto, a planta segue clandestina alimentando uma lucrativa rede de tráfico e violência.



Título Original: Reefer Madness
Ano: 1936
País: USA
Diretor: Louis J Gasnier
Award: Nenhum

                   
                          
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