terça-feira, 29 de outubro de 2013

Joy Division




Documentário espetacular, de uma história espetacular, de uma banda espetacular ... Formato: entrevistas com os protagonistas, cenas de arquivo raras - inclusive de uma horrenda Manchester dos anos 70, e a poderosa música do Joy Division, desde o primeiro ensaio dos caras até a metamorfose em New Order. Mais uma peça para ajudar a montar o quebra cabeças que foi o Joy Division, uma banda saída de uma então cidade destruída e esquecida, para jamais conquistarem o mundo, e mesmo assim, serem uma das maiores influências para tudo o que aconteceria no rock nos anos seguintes ao seu desaparecimento. Não tem muito o que dizer além de que no final é duro segurar a emoção. Para assistir colado com control e 24hs Party people, nesta ordem. 



            







Título original: Joy Division
Ano: 2008
País: UK
Diretor: Grant Gee
Awards: CPH:DOX award

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Joven y Alocada






Uma adolescente em plena fase de ebulição sexual esbarra na fanática resistência de sua família evangélica que entende a sexualidade humana como algo pecaminoso e mesmo perigoso. Frustrada, ela expõe os detalhes de suas fantasias e práticas sexuais em seu blog Joven y alocada, através de um avatar secreto criado para se proteger. Simpático filme chileno sobre as dificuldades universais dos adolescentes, sobretudo acerca de suas duvidas afetivas.





Mas o aspecto mais interessante do filme é mesmo a dura exposição da aculturação imposta pelas igrejas evangélicas, e a constatação de que tudo não passa de um teatro baseado na coerção psicológica de seus fiéis, aforismadas por passagens bíblicas vazias e que não oferecem nenhuma resposta concreta frente ao incontornável absurdo da existência. Neste aspecto me lembrou o espetacular "Camiño", onde o catolicismo é que é a bola da vez. O título em português " As aventuras de uma ninfomaníaca" além de machista e apelativo, não faz justiça ao filme. E o cartaz é impagável.


Título Original: Joven y Alocada
Ano: 2012
País: Chile
Diretor: Marialy Rivas
Awards: Festival de cinema independente de Buenos Aires / Fastival de cinema latino americano de Huelva / San Sebastián International Film Festival / Sundance Film Festival

domingo, 20 de outubro de 2013

Blue Jasmine





Jasmine é uma elegante e charmosa mulher de meia idade, proeminente socialite de Park avenue, que subitamente vê seu mundo de contos de fadas desabar após a prisão repentina de seu esposo, um inescrupuloso financista que fez sua fortuna destruindo a vida financeira de outros. Completamente arruinada, cruza o país em busca de abrigo na casa de sua irmã adotiva Ginger, uma mulher que por sua vez carrega seu próprio fardo de desgraças. Mais recente filme do genial Woody Allen, que é ninguém menos que Deus, como já proclamado por aqui em outra ocasião. Para mim é disparado o melhor filme dele desde "Desconstruindo Harry", que foi o ultimo exemplar de seu cinema a reproduzir seu alter-ego neurótico, persona sobre a qual construi sua notoriedade como cineasta, roteirista e ator. Já idoso, Allen vem na ultima década se dedicando à função de realisador de filmes que, se não chegam a ser brilhantes, estão muito acima da tautologia que a concorrência nos oferece.







Porém, em Blue Jasmine, Allen concebeu um clássico imediato. Um filmaço. Mais uma obra prima inquestionável para a sua filmografia. Confesso que fui ao cinema com a expectativa de assistir um bom filme, porém na linhagem de sua safra mais recente, algo como um "Meia noite em Paris", simpático e ligeiro mas não memorável. Entretanto, saí da sessão não apenas agradavelmente surpreso, mas verdadeiramente comovido com a força do filme. Um sombrio psicodrama com a assinatura de um mestre, com uma narrativa sofisticada como raramente se vê. Simplesmente perfeito, coeso, enxuto. Uma beleza.







O filme é basicamente uma atualizada releitura pessoal do classico "Um bonde chamado desejo", de Tenessee Williams, ponto alto da dramaturgia norte americana, e que já foi revisitado inúmeras vezes na cultura popular (sendo uma das mais queridas por mim o episódio de Os Simpsons, "Cenas de um casamento bem sucedido"  - Aposto que Allen é um fã). Blue Jasmine recita/referência/homenageia "Um bonde chamado desejo" sobretudo com relação ao colapso mental de Jasmine, brilhantemente interpretada por Cate Blanchett. Aliás, para que haja justiça, é preciso reconhecer que a preciosa atuação de Blanchett é responsável por parte da grandeza do filme, uma vez que a atriz viveu a degradação em um nível de perfeição perturbador. Mas todo mundo do elenco está muito bem, e diga-se de passagem, não há um único personagem fácil ou agradável no filme: cada um deles é uma alma perdida.







Há também uma corajosa referência cifrada à própria biografia de Allen no filme, e que cabe ao espectador mais atento identificá-la, muito embora ela seja bastante óbvia. O filme está ainda em cartaz, e a chance de assistí-lo no cinema é uma possibilidade real. Eu mesmo quero vê-lo mais uma vez na telona. Assistir Blue Jasmine no cinema na ocasião do seu lançamento equivaleria ao privilégio de alguém que tenha visto os Sex Pistols ao vivo em 1978: é agora ou nunca. De vez em quando me pego pensando na eventualidade de viver num mundo sem Woody Allen, o que é uma possibilidade real, visto que ele já está velhinho. Mas aí ele faz um filme como Blue Jasmine e mostra que ainda tem o fôlego maior do que cinco Tarantinos juntos.  Eu tenho certeza que daqui a muito tempo as pessoas ainda escreverão sobre este filme, e mesmo com a indiferença dos anos, ele vai figurar lado a lado com os maiores clássicos de Allen, que por sua vez repousará tranquilo no panteão dos eternos. 






Título Original: Blue Jasmine
Ano: 2013
País: USA
Diretor: Woody Allen
Awards: Nenhum por enquanto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Balão Vermelho


     
             

Um dia, o pequeno Pascal encontra por acaso um grande balão vermelho em seus passeios pelo bairro parisiense de Ménilmontant. Aparentemente, o balão é dotado de uma vontade própria, e os dois desenvolvem então uma estreita amizade. Porém, tamanha amizade faz com que os meninos da vizinhança comecem a cobiçar o balão de Pascal. Essa é a história desse bonito curta metragem francês da década de 50, um verdadeiro tesouro.


                         


O filme retrata metaforicamente através de seu realismo mágico, uma atmosfera de ingenuidade e pureza, mas também nos lembra como o ser humano pode ser mesquinho e destrutivo. Filmado no então insalubre bairro de Ménilmontant, em Paris, é uma oportunidade quase documental de se observar como era a área então, já que hoje trata-se de um agradável bairro bohêmio que não se parece nada com o que é visto no filme.  


                                   


O filme é francamente metafórico, e como tal abre caminho para as mais delirantes fantasias projetadas daqueles que o assistem. Me diverti muito em ver algumas leituras feitas ao seu respeito: o balão como uma metáfora de cristo, ou, o balão como uma metáfora da França do pós guerra que voltava a sorrir, e até uma suposta relação gay entre Pascal e o balão, com a subsequente onda de ira que isso despertou. Com todo respeito, para mim o filme é apenas a simplicidade daquilo que mostra tão claramente. Além disso e um ótimo meio de apresentar para as crianças um cinema de qualidade que certamente vai ajudar a formar seu senso estético para o futuro.





Título Original: Le Ballon Rouge
Ano: 1956
Diretor: Albert Lamorisse
País: França
Awards: British Academy of Film and Television Arts / Cannes / New York Film Critics Circle Awards / National Board of Review / Prix Louis Delluc / Wisconsin International Children's Film Festival /  Los Angeles Outfest Gay and Lesbian Film Festival / Educational Film Award

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Marley


                               


Não, não é o filme do cachorrinho, mas sim o documentário-biografia realizado pelo diretor escocês Kevin McDonald (de "O ultimo rei da Escócia") sobre a vida do mitológico Bob Marley. O filme tem a virtude de retratar Bob unicamente através de depoimentos de pessoas que foram testemunhas oculares de tudo que é dito, pois estiveram de fato presentes ao seu lado por toda sua vida. Rita Marley (a viúva "oficial"), Bunny Wailer, o doidaço Lee Perry e Cindy Breakspeare, sua mais notória amante (e com quem teve um de seus 11 filhos), entre outros, testemunham a realmente cinematográfica trajetória do homem, desde seu nascimento na mais absoluta miséria, até sua precoce morte e legado, como uma espécie de profeta místico do século 20.


                       
               


Exceto pela metafísica rastafari, sempre amei o reggae, mais por suas extraordinárias virtudes musicais do que pela sua confusa pregação religiosa. Desde quando eu era criança ainda, e havia uma pixação no muro da minha escola que me intrigava: Bob Marley (1945-1981), até passar 8 meses como baterista em uma banda de reggae, ele sempre esteve lá. O elegante minimalismo, o conceito simples, o fato de estar intimamente ligado à cultura Punk (vide The Clash, Rancid, etc), o fato de existir o Dub, tudo isso sempre me atraiu ao reggae como um íma, e comparado-se aos subgêneros do estilo desde então, a impressão que fica é que Bob é a evolução do reggae, e não o contrário. Ele é o reggae e ponto final. Somado a seu carisma e apelo universais, não é de se admirar que o homem tenha se tornado uma deidade. Por causa dele o reggae parece ser uma espécie de denominador comum e catalisador de diferenças musicais, um porto que congrega adoradores tão distintos quanto rastas, hippies, punks, rockers, clubbers, rappers, hipsters, e todos os skinheads que fizeram do reggae um verdadeiro estilo de vida. 


Como documentário o filme é magnífico, detalhando também sua doença, seu exílio terapêutico na Alemanha (numa surreal situação de Jamaica abaixo de zero), a primeira fase dos Wailers (então uma inusitada boy-band de Trenchtown, e que reunia nada menos que a santíssima trindade do Reggae: Bob, Bunny Wailer e o também eterno Peter Tosh); seu intenso envolvimento politico na Africa, seu funeral. Por outro lado o filme é bastante superficial à respeito do papel crucial da gravadora britânica Island (e do produtor Chris Blackwell, que soube literalmente forjar o som da banda ao adaptá-los ao paladar pop-rock ocidental com o album "Catch a fire". Essa reinvenção foi de fato o começo de tudo em termos de estrelato, e sem ela certamente o gênio do cara teria permanecido na pequena Jamaica e ninguém mais tocaria no assunto. (n.do r.: para mais detalhes assista ao documentário "Classic albuns - Catch a fire")
Outro fato notório que o filme não aborda, é que Marley sabia da gravidade de sua doença desde o início, mas ignorou qualquer tratamento mais profundo pois acreditava que Jah iria curá-lo.  Enfim, para fãs, adoradores ou haters : um filmaço.

(Obs: Embora não creditado, foi Martin Scorsese quem primeiro tocou o projeto, mas precisou deixá-lo por questões de agenda)


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Título original: Marley
Ano: 2012
Diretor: Kevin Mc Donald
País: UK / USA
Awards: British Independent Film Awards / BAFTA Film Award / Black Reel Awards / Evening Standard British Film Awards / Image Awards / Washington DC Filmfest

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