domingo, 20 de outubro de 2013

Blue Jasmine





Jasmine é uma elegante e charmosa mulher de meia idade, proeminente socialite de Park avenue, que subitamente vê seu mundo de contos de fadas desabar após a prisão repentina de seu esposo, um inescrupuloso financista que fez sua fortuna destruindo a vida financeira de outros. Completamente arruinada, cruza o país em busca de abrigo na casa de sua irmã adotiva Ginger, uma mulher que por sua vez carrega seu próprio fardo de desgraças. Mais recente filme do genial Woody Allen, que é ninguém menos que Deus, como já proclamado por aqui em outra ocasião. Para mim é disparado o melhor filme dele desde "Desconstruindo Harry", que foi o ultimo exemplar de seu cinema a reproduzir seu alter-ego neurótico, persona sobre a qual construi sua notoriedade como cineasta, roteirista e ator. Já idoso, Allen vem na ultima década se dedicando à função de realisador de filmes que, se não chegam a ser brilhantes, estão muito acima da tautologia que a concorrência nos oferece.






Porém, em Blue Jasmine, Allen concebeu um clássico imediato. Um filmaço. Mais uma obra prima inquestionável para a sua filmografia. Confesso que fui ao cinema com a expectativa de assistir um bom filme, porém na linhagem de sua safra mais recente, algo como um "Meia noite em Paris", simpático e ligeiro mas não memorável. Entretanto, saí da sessão não apenas agradavelmente surpreso, mas verdadeiramente comovido com a força do filme. Um sombrio psicodrama com a assinatura de um mestre, com uma narrativa sofisticada como raramente se vê. Simplesmente perfeito, coeso, enxuto. Uma beleza.







O filme é basicamente uma atualizada releitura pessoal do classico "Um bonde chamado desejo", de Tenessee Williams, ponto alto da dramaturgia norte americana, e que já foi revisitado inúmeras vezes na cultura popular (sendo uma das mais queridas por mim o episódio de Os Simpsons, "Cenas de um casamento bem sucedido"  - Aposto que Allen é um fã). Blue Jasmine recita/referência/homenageia "Um bonde chamado desejo" sobretudo com relação ao colapso mental de Jasmine, brilhantemente interpretada por Cate Blanchett. Aliás, para que haja justiça, é preciso reconhecer que a preciosa atuação de Blanchett é responsável por parte da grandeza do filme, uma vez que a atriz viveu a degradação em um nível de perfeição perturbador. Mas todo mundo do elenco está muito bem, e diga-se de passagem, não há um único personagem fácil ou agradável no filme: cada um deles é uma alma perdida.







Há também uma corajosa referência cifrada à própria biografia de Allen no filme, e que cabe ao espectador mais atento identificá-la, muito embora ela seja bastante óbvia. O filme está ainda em cartaz, e a chance de assistí-lo no cinema é uma possibilidade real. Eu mesmo quero vê-lo mais uma vez na telona. Assistir Blue Jasmine no cinema na ocasião do seu lançamento equivaleria ao privilégio de alguém que tenha visto os Sex Pistols ao vivo em 1978: é agora ou nunca. De vez em quando me pego pensando na eventualidade de viver num mundo sem Woody Allen, o que é uma possibilidade real, visto que ele já está velhinho. Mas aí ele faz um filme como Blue Jasmine e mostra que ainda tem o fôlego maior do que cinco Tarantinos juntos.  Eu tenho certeza que daqui a muito tempo as pessoas ainda escreverão sobre este filme, e mesmo com a indiferença dos anos, ele vai figurar lado a lado com os maiores clássicos de Allen, que por sua vez repousará tranquilo no panteão dos eternos. 






Título Original: Blue Jasmine
Ano: 2013
País: USA
Diretor: Woody Allen
Awards: Nenhum por enquanto

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