sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Waterworld - Segredo das águas



              




Em um futuro pós apocalíptico não identificado, o aquecimento das calotas polares cria um planeta aquático onde a terra seca é apenas uma lenda ancestral. Nesta sinistra e violenta realidade sem lei, um mutante antisocial se junta à uma mulher e uma menina em busca de um mitológico continente perdido. Essa é a premissa deste horrível filme, que não é apenas horrível, mas sim um dos mais horríveis filmes já feitos. Passados quase 20 anos deste enorme naufrágio cinematográfico, eis que a obra começa a ganhar ares cult, e renasce como uma curiosa peça maldita de humor involuntário. 


Geralmente, para o bom cinéfilo aplicado o julgamento de valor não costuma ser necessariamente o norte que orienta a escolha dos filmes que quer assistir. Um filme é um filme, mas se ele é 'bom' ou 'ruim' já é uma questão secundaria à decisão de assisti-lo. Assistir é preciso e ponto final. Além disso, todo mundo preza por seus sagrados momentos de escárnio e espírito de porco. Afinal o ruim é a medida do bom, e assistir um filme terrivelmente ruim em toda a extensão de sua estupidez é um dos maiores prazeres descompromissados que existem. E este filme é um presente dos cruéis sátiros do cinema ruim. Como todos perceberam (menos Kevin Costner pelo visto), o filme é uma espécie de apropriação lobotomizada de Mad Max, trocando-se deserto por mar, e motos e carros por jet-skis e veleiros, ambientado em um cenário futurista, idiota e impossível. Como agravante do nonsense temos Kevin Costner atuando e uma evidente pregação politico-ecológica chata e alarmista. E o pior (melhor), o filme é ambicioso, mecatrônico, pura pretensão.




Como atração adicional está o fato que este desastre super inflacionado foi em sua época o filme mais caro jamais feito. Um orçamento gigantesco que apenas Kevin Costner teria o privilégio de descolar naquele momento. Nesta altura ele vinha de uma sequência impressionante de sucessos comerciais e pareceria estúpido ao estúdio não lhe dar carta branca para produzir o delírio mais bizarro que lhe ocorresse. Foi apenas depois do fracasso que, subitamente, o mundo inteiro se deu conta que Kevin Costner era ridículo e sem talento, mas parece que isso foi uma surpresa apenas para quem não havia assistido Campo dos sonhos, Wyatt Earp e O guarda costas, só para citar alguns exemplos das medonhas atrocidades cometidas pelo cara.

Seria a obra de Costner ruim porque transportava para o universo cinematográfico as medíocres aspirações do americano White Trash, segmento do qual Costner é um autêntico egresso, a começar pelo nome ? O sujeito jamais demonstrou inclinações acadêmicas, mas sempre privilegiou o baseball, Nascar e a musica country em sua escala de valores, que são exatamente as mesmas do publico que o validava. No início dos anos 90 seu bom mocismo e seu look clean encantavam a América bundona de tal maneira que o cara era rei. Seu toque de midas o fez um dos nomes mais poderosos da industria, o que culminaria com a egotrip de Waterworld. Entretanto, nos anos em que esteve envolvido com o projeto o cara não se deu conta que o mundo mudava. Nirvana, Beavis and Butt head, Tarantino, Ren & Stimpy, e toda uma estética ácida, cínica e politicamente incorreta tomava de assalto o país, modificando o gosto do americano médio. De repente ele era o passado. Morto dentro desta nova cultura e enterrado junto com uma pilha de cadáveres démodés.




Nem Dennis Hopper salvou o filme, que foi um retumbante fracasso comercial e de crítica. Totalmente humilhado, Costner ainda teve a inacreditável bravura testicular de transpor o mesmo erro de Waterworld para "The Postman", trocando a mesma premissa do mar pela terra. Foi a gota d'água, e sua carreira estava acabada. Transformado em persona non grata, fez uma série de filmes inexpressívos em todos estes anos. Só fui ver seu rosto na tela de novo recentemente em O Homem de aço, e confesso que achei o cara muito bem como o pai de Clark Kent, embora não tenha achado o filme lá estas coisas. Baseado no come back de John Travolta em Pulp Fiction de 95, quando retornou às telas se auto parodiando e brincando com a imagem camp que havia construído nos anos 70, talvez este fosse um caminho interessante para Costner seguir e garantir como Travolta uma segunda vida em Hollywood. Já Waterworld, uma pérola Trash ...




Título Original: Waterworld
Ano: 1995
País: USA
Direção: Kevin Reynolds e Kevin Costner
Awards: Razzie Awards - Pior Filme, pior Ator, pior Diretor e pior ator Coadjuvante 


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