quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Estranho mundo de Zé do Caixão





"Não se dê ao trabalho de pensar o que somos, porque a conclusão final seria loucura, o final de tudo para o início do nada". Esse é o mote do genial trabalho de um dos meus heróis pessoais, José Mojica Marins. Uma obra prodigiosa, piramidal e aberrante. Para se ter uma idéia de seu poder de fogo, após esse filme Mojica passou a ser considerado oficialmente um doente mental para o então despótico departamento de censura federal, que naquele momento tinha o poder arbitrário de escolher o que as pessoas podiam ou não assistir.  Mojica desfila três curta metragens de enredos independentes entre si, porém interligados pelo conceito do primitivismo inerente ao homem: o Id, a camada mais profunda do inconsciente humano, como teorizado por Freud, e origem de atos de natureza bestial e torpe, onde o infame e o abjeto se misturam ao prazer narcísico que desconhece qualquer conceito limitador de civilização. Mojica nos conduz gradualmente, episódio a episódio, numa viagem descendente em direção à barbárie e à desumanização completa do episódio "Ideologia". Nada mais resta senão o instindo reptiliano. O filme apresenta a figura do professor "Oaxiac odez", óbvia inversão de Zé do caixão, que como o mito de satanás, é a própria personificação da sombra humana, de todo desejo que é negado pela noção moral e civilizatória e por conseguinte delegado, através de projeções, à responsabilidade de um outro. E a sequência final da santa ceia é uma das coisas mais lindas que já assisti na vida, porque é provocativa em muitos sentidos, sobretudo no aspecto canibal por trás da idéia de se comer o corpo de Cristo. Um filme sagrado.






Título Original: O estranho mundo de Zé do Caixão
Ano: 1967
País: Brasil
Diretor: José Mojica Marins
Awards: Nenhum

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