domingo, 13 de julho de 2014

The Nest





Recentemente, lendo sobre a ultima edição do Festival de Cinema de Rotterdam, soube que um dos favoritos daqui da casa, David Cronenberg, havia produzido um curta metragem que foi disponibilizado na rede pela organização do festival, que também presta uma homenagem ao cineasta este ano. Trata-se de um curta de apenas 9 minutos, filmado na garagem do diretor, que conta apenas com ele e a atriz Evelyne Brochu. The Nest (O Ninho) é puro Cronenberg. Sempre interessado em psicanálise, na relação entre mente e corpo, anomalias médicas, tecnologia, midia. Foi assim em  Filhos do Medo ,  Videodrome , Gêmeos Mórbida semelhança, e A Mosca, por exemplo. O filminho retrata uma consulta na qual um incrédulo médico (Cronenberg) examina e discute com sua paciente sobre o tratamento de uma invulgar condição que a mesma afirma ter: um enxame de vespas vivendo dentro de sua mama esquerda. O médico procura jogar com a consciência da pobre moça, que espera pela ajuda de um psiquiatra, mais do que a de um cirurgião. O filme é desconfortável, pois Cronemberg pega pesado e apresenta uma mulher jovem acometida por uma rara condição mental conhecida como Apotemnofilia, doença na qual o paciente sente excitação sexual na idéia de ter uma parte de seu corpo amputada. No filme, a moça tenta racionalizar sua parafilia (desvio sexual) criando a idéia delirante de vespas vivendo em sua mama, como pretexto para sua amputação.

O que me chamou a atenção nesse curta, ainda mais do que o habitual aspecto perturbador do diretor, foi a possibilidade do formato: um realizador veterano, icone do cinema fantástico, realiza uma obra com custo virtualmente zero, rodado com equipamento eletrônico, e posta na rede para que qualquer um possa vê-lo gratuitamente. Eu me pergunto, será este o caminho que o cinema tomará no futuro ? Ano passado eu li aqui que mesmo os criadores do formato blockbuster, Steven Spielberg e George Lucas, acreditam que sim. Para eles, ao longo dos anos, o cinema vai cada vez mais ganhar a internet, e as salas de cinema serão raras e caras. Os estúdios vão produzir poucas produções ou superproduções, que ficarão em cartaz por anos à fio, por um custo bem alto para o espectador, como os musicais da Broadway, por exemplo. Por outro lado, a rede poderia abrir caminho para uma explosão de criatividade, democrática e sem precedentes, que poderia mudar para sempre o que entendemos como cinema. É esperar pra ver ...





Titulo: The Nest
Diretor: David Cronenberg
Ano: 2014
País: Canadá
Awards: Festival de Rotterdam


sexta-feira, 11 de julho de 2014

Metropolis





Existem filmes clássicos, inesquecíveis, e existem aqueles que vão além, e se tornam parte fundamental da própria linguagem cinematográfica. "Metropolis" se enquadra nas duas categorias, e as extrapola, pois tornou-se referência de diversos campos da expressão artística humana, muito além do cinema. Por este motivo, é o único filme inscrito até hoje na UNESCO, na condição de patrimônio da humanidade. Verdadeiro monumento da Arte moderna e Contemporânea, este filme se confunde com as origens estéticas do movimento. Além de seu impressionante impacto visual, ele também abriu caminho para reflexões sócio - filosóficas que se mostram atuais quase um século depois, e deixou uma marca indelével na memória coletiva do século 20. Desde que criei este blog eu sabia que em algum momento eu deveria fazer um post deste filme, mas sempre protelei porque sabia que resultaria em algo longo, mas hoje, finalmente, ouvi o seu chamado de maneira irremediável. 





O ano era 1927, e a Europa do entre-guerras vivia um cenário social conturbado, onde fervilhavam de um lado sentimentos de derrota, desesperança, vergonha coletiva ; e de outro revanchismo e ultranacionalismo. Esse quadro era especialmente presente e perigoso na Alemanha, então República de Weimar: num país destroçado pela barbárie industrial da primeira guerra, a tradição militarista prussiana estava para resultar na criação da maior monstruosidade do século 20, o Nazismo de Hitler. É neste contexto que "Metrópolis" aparece. Baseado num texto de sua esposa, Thea von Harbou, o diretor impressionista alemão Fritz Lang concebe esta obra, que parecia catalisar em celulose o momento alemão. Thea era ela própria egressa de uma família tradicional alemã, e trazia em si a semente totalitarista da velha Prussia. Fritz, que era judeu, aparentemente estava mais interessado em materializar em imagens grandiosas e impressionantes a visão de sua esposa do que praticar qualquer espécie de proselitismo.





No ano de 2026, numa sociedade distópica, brutal, totalitária, e de urbanização monstruosa, o sonho de grandeza da classe dominante é alimentado pelo sangue da classe operária devorada pela "máquina", Moloch, numa referência ao mito bíblico de Babel. Mas Maria, uma moça pobre da cidade baixa, prevê a chegada de um "mediador" que irá equalizar a sociedade. Basicamente, baseada em mitos bíblicos de Deus-pai, Jesus, a Torre de Babel, e outros arquétipos facilmente identificáveis, Thea von Harbou transforma em seu texto a retórica marxista, então em voga na Europa (luta de classes), na retórica Nazi fascista (colaboração de classes). Não à toa, Hitler, que se considerava o tal "mediador" da sociedade alemã, caiu de amores pelo filme. Rapidamente, Goebbels, o ministro de propaganda nazista, convidou Fritz Lang para se tornar cineasta do partido, mas o mesmo, comprometido apenas com o aspecto alegórico e visual da sua obra, fugiu para Paris na mesma noite do convite. Já sua esposa Thea, inserida no status quo do momento, viria a tornar-se membro do partido nazi e o casal romperia para sempre em virtude da incompatibilidade ideológica.





Após vislumbrar o skyline de Manhatan pela primeira vez alguns anos antes, Lang teve a epifania de realizar um filme que trataria da verticalização e da desumanização social na era pós-industrial. Mais tarde a idéia se ampliou com o roteiro de Thea. O filme resultante é uma superprodução impressionante, sobretudo para os padrões daqueles dias. Um verdadeiro exercício de megalomania. Originalmente 350 horas de imagens foram registradas, num total de mais de 600 km de filmes rodados ! Efeitos especiais, cenários gigantes e maquetes foram usados em profusão. Tudo embalado por uma trilha sinfônica, de estilo Wagneriano, perfeitamente sincronizada com a ação. A cidade em si (a "nova Babilônia") é puro delírio art déco, diretamente baseado na colagem Metropolis do holandês Paul Citroen, e é a marca mais forte do filme. O resultado impressionaria os espíritos de multiplas gerações à seguir. Hoje em dia o cinema é o reino do descartável e das edições frenéticas, e as pessoas se tornaram alérgicas aos filmes em preto e branco e ainda mais ao cinema mudo, mas sem Metropolis não haveria Blade Runner, C3P O, Radio Gaga, The Wall, Batman de Tim Burton, o disco novo do Seputura, e muitas outras coisas, espalhadas aqui e ali pela cultura pop, e que saíram diretamente da visão de Fritz Lang, que, paradoxalmente, perdeu um olho durante a realização do filme. Caçado pelos nazistas, Lang se exilaria nos EUA, onde seu expressionismo alemão se transformou naturalmente em um novo estilo: o cinema noir americano. Mas isso já é uma outra história ..



                    

                                       


Título: Metropolis
Ano: 1927
Diretor: fritz Lang
País: Alemanha então República de Weimar)
Awards: Razzie Awards / Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films / New York Film Festival / New York Film Critics Circle Awards
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