sábado, 20 de setembro de 2014

O Grande Hotel Budapeste






Hospedado em um decadente hotel situado num mítico país da Europa oriental, um jovem escritor aprende de seu proprietário que aquele estabelecimento já viveu muitos dias de glória, tendo sido uma verdadeira instituição, cuja epopéia se confunde com a conturbada história da Europa no século XX. Desde que criei este blog estou enrolando para postar aqui algum filme de Wes Anderson. Esta semana finalmente assisti O Grande Hotel Budapeste. Foi também o fim da minha procrastinação: é um filme fantástico. Desde que chamou a atenção por "Os excêntricos Tenenbaums", Anderson só vem dirigindo belos filmes através dos quais construiu sua forte identidade. Mas em Budapeste ele simplesmente quebrou a banca e realizou um clássico imediato, do tipo que será falado daqui há muitos anos. 

Guardando-se as devidas proporções, eu vejo Anderson como um homólogo americano do francês Jean Pierre Jeunet (de "Amelie Poulain"). Sob um aspecto deliberadamente mágico, ingênuo e levemente pueril de seus filmes, paira a evidente melancolia de temas como perda, abandono, solidão. Os dois equilibram muito bem esta equação. Outro ponto em comum dos dois é a coesão estética e a densidade de detalhes. Ambos são estetas, artesãos do pós modernismo. 

No caso de Anderson, o apuro visual de seus filmes chega nos limites do fetiche, o que faz lembrar de outro mestre: Tim Burton. Em Budapeste, Anderson leva ao extremo sua rima de cores (sempre usa cenografia com poucas cores que se harmonizam) e suas composições meticulosamente simétricas. É uma espécie de Peter Greenaway, só que pop. Em resumo, o cinema de Anderson está em outro nível, ele é jovem ainda, e sabe-se lá o que ainda vai nos preparar no futuro. Seus críticos reclamam justamente do aspecto "fabricado" de sua cenografia, o que eu tomaria sinceramente como um elogio se fosse o diretor.  





Outra conexão interessante deste filme é a inspiração literária do célebre autor austríaco-judeu Stefan Zweig, sujeito extremamente culto e erudito, à quem o filme é dedicado. Desencantado pela ascensão do fascismo, ele mesmo baseou boa parte de seus escritos no tema da decadência e do "suicídio" da Europa em meados do século XX, tema no qual o filme é conceitualmente e inteiramente baseado. Por conta do nazismo, ele também foi obrigado a deixar para traz seu amado continente, e fugir para o Brasil, onde, entre outras coisas cunhou a célebre expressão "O Brasil é o país do futuro", que é ao mesmo tempo uma promessa e uma maldição. Instalou-se na mais européia das cidades brasileiras de então, Petrópolis, mas sua saudade da velha Europa o levou a cometer suicídio, após escrever uma bela carta de adeus.


                     



Título Original: The Grand Budapest Hotel
Ano: 2014
Diretor: Wes Anderson
País: Alemanha / UK
Awards: Festival de Berlin / Prêmio David di Donatello / Golden Trailer Awards / Italian National Syndicate of Film Journalists, por enquanto ..

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Um bonde chamado Desejo






Blanche Dubois é um provinciana dama do interior do Mississipi, que se vê forçada à viver com sua irmã Stella em um cortiço na cidade de New Orleans. Blanche, uma mulher de meia idade, está no meio de uma crise de esgotamento nervoso, alimentado por delírios de grandeza, sedução, e juventude eterna. Para piorar, sua irmã Stella vive com o boçal troglodita Stanley, que, contrariado com a chegada de Blanche, resolve investigar à fundo as reais motivações do de seu exílio em sua casa. Este filme carrega, além de suas qualidades, uma enorme historia e rede de conexões ao seu redor, que certamente contribuiram para sua mítica.

Trata-se de um dos grandes filmes do cinema americano, adaptado de uma peça teatral igualmente célebre, escrita pelo renomado dramaturgo Tennessee Willians, vencedor do prêmio Pulitzer por esta obra. De todos os seus trabalhos, este é o que imortalizou, e também o que encontra diversos elementos de sua própria biografia, que foi de fato teatral. Seu pai era beberrão e violento, como Stanley, e a atormentada Blanche era uma mistura de sua mãe, emocionalmente instável, e de sua irmã, clinicamente esquizofrênica. Conhecia bem a sociedade sulista, onde viveu por muitos anos, e era declaradamente homossexual, elemento que constava no script da versão teatral, mas que foi retirado da versão cinematográfica de acordo com a política dos bons costumes que os estúdios de Holywood praticavam na época (o filme é de 1951). Um dos pilares no qual o corpo teórico da psicanálise se apóia é a análise de obras literárias e de ficção em geral, em que os complexos do autor criativo transparecem em seus trabalhos, explicita ou implicitamente. Não por acaso, Tennessee Willians foi uma das primeiras celebridades a propagar que passou por um processo analítico, e que usava sua obra como uma espécie de purgação de seus demônios pessoais. 





O filme foi realizado pelo diretor Elia Kazan, nome forte da industria na era de ouro de Hollywood, tendo ele mesmo uma biografia que merece algumas linhas. Nascido de uma família grega, mas na Turquia, imigrou para os Estados Unidos onde interessou-se por teatro, tornando-se ator e mais tarde produtor teatral. Foi no teatro que dirigiu este texto de Willians pela primeira vez, daí sua intimidade com o roteiro, e o resultado final do filme como uma sessão de teatro filmada. Foi um dos fundadores do Actors Studio, a renomada escola de atuação que criou a técnica de "imersão total" do artista no papel, hoje em dia consagrada no meio. Não por acaso, os melhores atores de Hollywood nos anos 50 foram de lá pupilos: Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift. Mas se você investigar a biografia de todos os grandes atores americanos desde então, vai achar uma passagem de cada um pela escola. 





Além de utilisar o método, Kazan gostava de escalar rostos desconhecidos mas promissores em seus filmes, para intensificar a força dos papéis e a sensação de realismo dos trabalhos, sempre envolvendo fortes temas pessoais ou de realismo sociail. Kazan era um comunista militante, mas quando foi vítima de uma investigação federal em meio à caça às bruxas da histeria anti-comunista americana, não se fez de rogado e entregou uma dúzia de colegas de Hollywood. Este ato foi considerado como uma traição no meio, e o marcou para o resto da vida. Quando recebeu um Oscar pelo conjunto da obra em 1999, assistiu metade do auditório aplaudir, e a outra metade sentada de maneira indiferente em sinal de protesto.

O filme entrou no imaginário popular, e desde então faz parte do patrimônio cultural do cinema. E tudo colaborava para tal. A peça já era um sucesso de público e crítica. Marlon Brando estava no auge de sua beleza, e o apelo físico-animal do seu personagem cativou o publico feminino logo de cara. Vivian Leigh aparecia justamente revivendo uma "southern belle", tal qual Scarlet O'hara de E o vento levou , que já era na época um clássico amado por todos.  Através dos anos, referências do filme podem ser encontradas por todos os lados, desde os Simpsons (sempre !!!) até o clamor desesperado por Stella, na linda canção "stella was a diver and she was always down" da grande banda Interpol. E finalmente, há exatamente um ano atrás, o mestre Woody Allen lançava sua homenagem ao filme, Blue Jasmine, em que revisita a trama de maneira mais que espetacular.


                         


Título Original: A Streetcar named Desire
Ano: 1951
Diretor: Elia kazan
País: USA
Awards: Oscar 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hamlet






Hamlet é a obra literária mais festejada da língua inglesa de todos os tempos. Não é pra menos. Trata-se de uma tragédia que agrupa temas tão universais, que é praticamente impossível permanecer impassível diante dela. É um clássico, um patrimônio da humanidade. Uma referência incontornável no canon da civilização ocidental. Na verdade o drama nasceu como uma peça teatral, escrita pelo brilhante bardo britânico William Shakespeare, acredita-se, à partir de versões mais antigas de uma história que circulava há séculos na tradição popular. De qualquer maneira, foi ele quem a adaptou, estruturou e criou os célebres diálogos e aforismos que garantiram a imortalidade do texto.





O cinema foi minha porta de entrada para Hamlet, e conheço a estória de trás para frente, graças aos filmes. Eu confesso que nunca li a obra original. Li uma versão traduzida para o português que, na tentativa de manter o rigor linguístico do autor, resultou em algo um pouco hermético, chato mesmo, que afasta a riqueza da obra. Além disso, sua condição de referência universal faz com que sua trama apareça repetidamente em adaptações, resenhas e ensaios, sendo o mais interessante para mim o realizado por Freud em seu "Livro dos Sonhos". Sempre acreditei que o cinema não é apenas as duas horas que você passa assistindo ao filme, mas sim uma porta de entrada que pode revelar muitas outras coisas, dependendo do seu interesse. E Hamlet merece ser conhecido, de uma maneira ou de outra.

A estória da peça é basicamente uma trama de vingança passional. O jovem príncipe da Dinamarca, Hamlet, profundamente deprimido pela recente perda de seu pai, aprende através do fantasma do mesmo que sua morte foi na verdade um assassinato perpretado pelo seu ardiloso irmão, Claudius, que planejava apoderar-se não apenas da coroa do reino, mas também do amor da rainha Gertrudes. Hamlet trama um plano de vingança, em que simula um estado de loucura para vingar-se de seu tio Claudius, adultero e assassino. A idéia de vingança controla Hamlet de tal forma que até mesmo o amor da doce Ofélia, sua namorada de infância, não lhe parece mais um atrativo.





Shakespeare teve a fineza de transformar o enredo básico em algo muito maior, através de seus personagens complexos, à começar por Hamlet, um sujeito profundamente filosófico e pouco convencional para um príncipe. O autor antecipou em alguns séculos o tema do existêncialismo através dos conflitos de seu personagem central, que proferiu a mais célebre passagem da peça "Ser ou não ser (existir ou não), eis a questão", talvez a sentença mais citada da história da literatura mundial. Hamlet evoca ainda o conceito milenar dentro da filosofia de que nada é real, mas sim a maneira como cada um percebe cada coisa. Não existe uma verdade absoluta, apenas uma verdade relativa.

O caráter edipiano da estória é flagrante, e fortemente defendido por Freud em seu mais célebre trabalho, na tentativa de dar crédito à pedra angular de toda a sua teoria através de referências literárias. De fato, é bastante obvio que a trama central é uma trama edipiana, sendo que o desejo de Hamlet em matar o próprio pai foi disfarçado pelo autor, e transferido para o tio. A motivação de Hamlet é dupla, e acoberta seus desejos proibidos pela mãe. O crime perpretado por seu tio era na verdade seu próprio crime inconsciente. Assim, a vingança de Hamlet contra seu tio Claudius é em parte contra si próprio, o que explicaria tamanha confusão mental do jovem príncipe, atormentado também pela culpa.





A versão cinematográfica de Franco Zeffirelli, desta postagem, é a que considero a mais simpática. É constantemente atacada, principalmente pela escalação de Mel Gibson no papel central, que na visão arrogante de alguns, não seria um autor "à altura" de representar Shakespeare, tarefa geralmente reservada aos grandes nomes do teatro. Pura bobagem. Independente do que tenha feito antes, ou depois, Gibson está bem no papel. O filme tem diálogos que abrandam a complexidade impenetrável do texto original, tornando-o mais natural, relaxado, porém conservando fortes feições de um espetáculo teatral. Isso não é surpreendente, já que Zeffirelli é um grande diretor, especializado em filmes de época, sobretudo medievais, tendo dirigido anos antes uma versão meio "paz e amor" de outra obra clássica do mesmo autor, "Romeu e Julieta", e também a biografia romanceada de São Francisco de Assis, "Irmão sol, irmão lua". E todo esforço para popularizar Hamlet é sempre bem vindo.



                    



Título original: Hamlet
Ano: 1990
Diretor: Franco Zeffirelli
País: USA / UK / França
Awards: David di Donatello / Italian National Syndicate of Film Journalists / BAFTA Awards / National Board of Review USA

sábado, 13 de setembro de 2014

Curtindo a vida adoidado






Outro dia conversava com um amigo que está de viagem marcada para Chicago, e como boa parte de nossas conversas são medidas por filmes, logo começamos a divagar sobre aqueles que tem a cidade de Chicago como cenário. Não demorou muito para chegarmos na filmografia do finado John Hughes, que via de regra, inseria Chicago em seus filmes como Allen faz com New York nos seus: a cidade é musa e parte invariável da história. Chicago, "The all american city", como é conhecida, não é nem aberta para o mundo como New York, nem platinada como Los Angeles. É a América em seu mais puro estado, a capital do meio-oeste, e da américa "profunda". Hughes fazia questão de inserir este espírito em seus filmes, mas foi em "Ferris Bueller's day off", que celebrou a cidade de maneira jamais vista, contando a história de um trio de adolescentes que deixa para trás o conforto de um suburbio verdejante de clase média alta para se aventurar no centro da metrópole.




John Hughes, que terminou sua vida dirigindo inofensivos filmes "família", surgiu anos antes no cenário da industria com uma série de filmes densos, escritos e dirigidos por ele, invariavelmente ligados aos anseios da juventude oitentista. Eram filmes que, sob uma aparência ingênua e descartável, captavam de maneira bastante adulta os dramas daquela geração, e que se tornariam célebres como "Clube dos cinco" e "A garota de rosa choque". Apenas por isso Hughes já mereceria um registro na memória cinéfila. Mas foi com "Ferris Bueller" que Hughes criaria o seu Sargent Peppers, e colocaria definitivamente seu nome entre os grandes, ao realizar o clássico supremo de um subgênero, que acabou por extrapolar os limites do segmento, se transformando em um patrimônio da cultura popular, de real valor artístico e estético, e retrato máximo de um momento, goste você ou não. 




Com ele Hughes alcançava um grau de apuro estético e técnicas incomuns para este tipo de filme. Utilisando-se de uma abordagem cínica e mordaz, criava uma reflexão em filme acerca do momento americano, emblematicamente ambientado em Chicago, a "all american city" afinal. E acertou em cheio. Através do dualismo de seu personagem central, Hughes confrontava a América com um retrato sarcástico e muito bem sacado da era Reagan: consumismo, cinismo e individualismo, travestidos bizarramente de virtudes. Por esse motivo, e de acordo com a visão de mundo da audiência, o filme pode ser considerado tanto uma comédia quanto um drama dos mais tristes. O resultado foi um magistral comentário social, um virulento retrato da década de 80.




Ferris Bueller é brilhantemente interpretado pelo mais que carismático Matthew Broderick. Bueller é narcisista, tirânico, manipulador, e na verdade não ama ninguém senão ele próprio. Seu mau-caratismo está no limite da sociopatia. Mas o dualismo do personagem é também a chave de sua aceitação pelas massas. Bueller é um epicurista, um hedonista. É exatamente na potência de existir que está o charme do personagem. Um legítimo arauto de Nietzsche, que em meio à irracionalidade e desordem do mundo, considera viver o momento em toda a sua plenitude como a unica verdade da vida. A moralidade das regras para ele estava fora de questão. O prazer acima de tudo. Por isso em algum momento do filme todos estarão torcendo por ele, não tem jeito. O apelo evocado pelo personagem foi tamanho , e se atrelou de tal forma à imagem de Broderick, que simplesmente obscureceria qualquer trabalho posterior do cara, cuja carreira mergulhou na mediocridade até os dias de hoje, a despeito de todas as suas qualidades como ator. 

Para amplificar a identificação com o público, Hughes introduziu um dispositivo bastante sofisticado para um filme teen: quebrou o "quarto muro", isto é, rompeu as barreiras do filme, eliminando a linha invisível que o separava do espectador. Bueller conversa o tempo todo com a audiência, cria laços, e até mesmo a despreza. Uma metaficção que lembra ao expectador o tempo todo que tudo aquilo é uma construção. Uma maneira engenhosa de Hughes dizer ao seu público: "Meninos, não façam isso em casa", e também de atenuar o mau-caratismo do personagem, "afinal nada disso é de verdade", dispositivo aliás que Godard tornou célebre muitos anos antes com o marginal vivido por Jean Paul Belmondo em "Acossados", embora esta técnica de roteirização já existisse desde os irmãos Marx. Na verdade o conceito de "quarto muro" foi teorizado primeiramente pelo superdotado Diderot, versão dramaturgo, em suas reflexões sobre teatro, ainda no século 18. 

Do lado oposto de Bueller está Cameron, uma reflexão existencialista ambulante. Cameron, um ser humano atormentado, cujo pai yuppie prefere sua Ferrari vermelha à própria família, se arrasta pelo mundo com pesar. Cameron não apenas amplifica o desespero de Bueller por viver, mas também acentua o inegável caráter melancólico do filme, que quase nunca é lembrado. "Curtindo a vida adoidado" passou para a história como o filme "mais divertido" dos anos 80, mas que na verdade desperta também uma sensação de estranheza e melancolia. Um filme simplesmente genial, que talvez tenha virado um clássico pelas razões erradas.

Título Original: Ferris Bueller's Day off
Ano: 1986
Diretor: John Hughes
País: USA
Awards: Globo de Ouro


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Malvada






Quando eu era moleque e comecei a me interessar por cinema, tive a "sorte" de pegar um momento em que a TV à cabo estava no começo e pouca gente tinha. A internet não existia, e para se assistir um bom filme você devia: ir ao cinema (o que nem sempre era óbvio), peneirar alguma coisa na locadora (mas geralmente tinha muita tralha), ou contar com a programação da televisão. Parece estranho hoje em dia, mas a televisão aberta era uma boa fonte de cinema de qualidade. Geralmente, os filmes que valiam à pena eram relegados à madrugada, nos finais de semana, como tapa-buracos da emissora. A sessão coruja ou corujão, foi o meu grande parque de diversões durante meus primeiros anos de aspirante à cinéfilo-menino . Eu me preparava com antecedência: no domingo anterior meu pai sempre comprava o jornal e eu ia direto na revista da tv, que já dava a programação do que iria passar no outro final de semana, com uma pequena resenha do filme, elenco, etc. Eram 3 filmes em sequência, praticamente sem intervalo, que começavam depois da meia noite e por vezes terminavam com o nascer do dia e a mensagem de "Encerramos aqui nossa transmissão ...". Era simplesmente fantátisco, pois a programação incluia muitos filmes cultuados, por vezes "estrangeiros", isto é, não-americanos, e muitos muitos clássicos, na boa parte das vezes legendados, o que era ainda melhor. Depois que cresci ainda guardei este hábito e me lembro de tê-lo feito até os dois primeiros anos de faculdade, mas aí já estava mais fácil conseguir bons filmes de outras formas, e dei outro rumo para minhas noites. Mas o legado para mim foi dos melhores. Desde então aprendi que é completamente diferente assistir à um filme de madrugada. Eu era um pouco notivago de fim de semana, porque um filme bate de maneira muito diferente na madrugada, quando sensorialmente você está na sua frequência de subjetividade. O filme funciona como um sonho que você sonha acordado, e fica lá pra sempre. Quem conhece sabe do que estou falando. Mas sobretudo, o maior legado do corujão: descobri muitos filmes bons nessa altura, alguns dos quais tenho dificuldade de encontrar até hoje. Apurei bastante meu senso estético em relação à cinema (e sigo até hoje tentando fazê-lo), mas, principalmente, desenvolvi, ao contrário de muitos colegas da minha geração, um amor incondicional pelo classicismo de Hollywood, que a maioria considera como "insuportável". Ultimamente tenho sentido a necessidade de dar uma "reciclada" nestes filmes que assisti ainda moleque, ou aqueles cujas referências pipocam por todo lado, e eu penso, "já vi esse filme, tenho que rever", agora com outros olhos, com novas referências.



Quando falo de cinema de Hollywood clássico me refiro à tudo que foi feito na América desde o início do cinema falado até o final do "sistema de estúdios", isto é, meados dos anos 60, quando dois fenômenos importantes apareceram: a televisão na sala de cada família americana como forte concorrente às salas de projeção, e o advento da "renascença" do cinema americano. Nesta altura, uma nova geração de realizadores, influenciados em parte pela libertadora nouvelle vague, começava à mudar o paradigma com filmes autorais, independentes, marginais e inovadores, que não seguiam à cartilha dos anos de ouro de Hollywood. Kubrick, Wood Allen, John Cassavetes, etc. O diretor não era mais um "funcionário" do estúdio, mas um artista, um criador que moldava o filme mais como uma declaração pessoal de princípios do que como um produto com a "cara" do estúdio. Isso mudaria o que entendemos como cinema para sempre, e a maneira clássica de filmar viraria uma peça de museu, o que para uns é lixo, mas para outros é um luxo. Um luxo que com os anos virou culto, e assim, o cinema clássico de Hollywood, concebido para as massas, trocaria curiosamente seu status de mainstream, por outro de cinema cult, de corujão e de amadores. E "All about Eve" é um dos exemplares mais prezados do cinema clássico de Hollywood, um verdadeiro protótipo do momento.








Foi lançado emblematicamente no início da década de 50, quando a austeridade do pós guerra ficava para traz em favor do brilho. Uma mediatização crescente expunha de maneira extrema todo o "glamour" e afetação das estrelas de cinema. Isso servia como uma ferramenta de publicidade dos estudios, que alimentava e fazia crescer a própria industria, fazendo dos anos 50 a década que passaria para a história como a mais platinada do século passado. "All about Eve" brinca um pouco com essa promiscuidade entre mídia e showbizz, e nesse sentido é a cara da velha Hollywood. Traduzido para o português como "A Malvada" (o que não quer dizer muita coisa, já que todos são malvados no filme), o filme tem um enredo bem simples: Margo é uma diva do teatro atormentada pela ferida narcísica causada pela chegada de seus 40 anos, e encara cada jovem mulher como uma grave ameaça.  À despeito disso, começa uma estreita amizade com uma bela jovem aspirante à atriz, Eve, que por trás de suas aparências modestas e gestos suaves é na verdade uma ambiciosa loba, ávida por tomar o lugar de Margo. O resto é pura contemplação.



Uma coisa interessante no período clássico de Hollywood é o caráter teatral dos filmes, isto é, as cenas se parecem com uma peça de teatro filmada, onde o espectador ocuparia um lugar privilegiado. A câmera geralmente "invisível", sem os arroubos de movimento que ganharia anos depois. Planos simples e comportados. Trilha sonora sempre pesada e melodramática. E "A malvada" segue esta cartilha de maneira aplicada. O caráter e as motivações de cada personagem são claramente expostos ao público, uma vez que forçar o expectador a penetrar no arcabouço psicológico de cada personagem, como é a regra no cinema moderno, ainda era visto como algo estranho demais para uma audiência pouco sofisticada ou não condicionada para tal. Tudo precisava ser fácil e leve de se assistir. Em duas linhas do personagem e você já sabe de quem se trata. Suas linhas eram de costume "frases de efeito" expressando suas claras opiniões, o que transformava os diálogos em uma espécie de jogral, nada natural, mas deliciosamente camp (o que é surpreendentemente até hoje a regra das sitcoms americanas, que não por acaso são na maioria das vezes "peças teatrais" encenadas para uma audiência ao vivo, onde as tiradas de efeito são sua glória cômica.



Mas o fator que mais salta aos olhos é a maneira histrionica de atuar. Uma atuação fortemente física, focada em gestos e em expressões faciais. O cigarro era, convenientemente, um amuleto de atuação, e literalmente, atuava-se através do cigarro, existindo inclusive um bom numero de filmes da era de ouro em que todos os personagens fumam, talvez "A Malvada" seja um deles, mas nao estou certo disso. O resultado de tão grande "personificação" do papel resultaria na criação de caricaturas ambulantes, e atores que passariam para a história  imortalizados como tal. Bette Davis, a Margo do filme, é um dos maiores exemplos disso: sua personificação caricatural de tipos sardônicos e desagradáveis passou para o imaginário coletivo de tal maneira que a expressão "olhar de Bette Davis" se tornou corrente. Sinônimo de mulher de forte personalidade, e  "malvada", acabou se tornando uma eterna diva gay, assim como Liz Taylor, Madonna, Lady Gaga e outras figuras femininas construídas como "poderosas" ao ponto de tocarem o complexo materno indissociável da homossexualidade masculina. (A "Anima" de Carl Jung).



Não é nenhuma surpresa que após o "renascimento" do cinema americano, onde a forma de atuar passou a ser contida, subjetiva e natural, toda uma geração de estrelas dos anos dourados foi retirada de cena. Pouca gente conseguiu seguir carreira neste novo ambiente (Marlon Brando, uma das excessões). A maioria desta geração só conheceria novamente um pouco de fama nos anos 80, já idosos, como no caso de Bette Davis, desfigurados de seus rostos-caricatura, e distantes o suficiente dos velhos tempos. Assim, uma parte dessa geração, que estava viva ainda, foi "redescoberta" na telona durante a segunda década de ouro de Hollywood, como Bette Davis, enquanto a outra parte permaneceu reclusa, ou procurou outras coisas para fazer, como ser presidente da republica, no caso de Ronald Reagan.





Mesmo carregado de maneirismos, "A malvada" não é apenas uma peça de museu. Por trás dele existem uma profundidade dramática escondida atrás de pequenas sutilezas, adultério, lesbianismo (levou anos para o diretor "contar" para todos, nos extras do DVD,  que Eve era gay, mas isso já havia sido mostrado claramente em certa cena do filme), casamento de fachada, etc, para as quais é preciso estar atento, uma vez que tudo isso era muito insinuado, afinal era a América dos anos 50, mais bundona do que nunca, e tratava-se de um filme prestigioso de estúdio. Mas está tudo lá, engenhosamente mostrado para quem consegue enxergar.  



Caricaturais ou não, os personagens de Bette Davis, Anne Baxter e de Georges Sanders são memoráveis e eternos. Este ultimo, vive de maneira excelente um impassível critico teatral, um dandy que despreza a humanidade tal qual o faziam os deuses no Olimpo, mas que acoberta sua condição de homossexual ao lado de belas vedetes às quais secretamente despreza. Uma de suas vedetes é ninguém menos que Marilyn Monroe, interpretando (surpresa !) uma aspirante à atriz, loura burra, esteriótipo medonho que ela tanto ajudou a construir, quando na verdade sabemos que ela nunca foi boba em sua vida privada, tendo sido casada com ninguém menos que Arthur Miller, um dos maiores intelectuais, de fato, que a América já teve. Já o personagem central muito bem vivido por Anne Baxter é icônico ao ponto de inspirar um sem número de outros papéis desde então, de Lisa Simpson (Sempre ! em "All about Lisa") até o nome de uma banda de rock (All about Eve, como o filme), ou mesmo marca de perfume fashion. Emblematicamente chamada de  "Eva", a personagem evoca justamente o nome do arquétipo bíblico da mulher ardil, traidora e astuta, responsável pela queda da humanidade ao oferecer uma maça à Adão, visão misogina que não é uma exclusividade do pensamento judaico-cristão, mas que aparece também em outras culturas antigas (como por exemplo Pandora na cultura grega) que ainda entendiam a sexualidade feminina como algo perigoso.  



Feito numa época em que era natural se filmar um homem dando um tapa na cara de uma mulher no meio de uma discussão acalorada, ou um produtor teatral judeu ser mostrado como um esteriotipo ambulante, "A Malvada" é uma boa aula de cinema, e com mais à mostrar que sua aparência de filme família faz supor. Se souber relativizar os fatos uma boa diversão ainda por cima. Me parece que foi o filme mais oscarizado antes do Titanic, e isso numa época em que o Oscar ainda significava alguma coisa, com várias indicações e diversos prêmiações, mas eu não tenho certeza, porque "All about Eve" é mais importante do que esse detalhe.


Título original: All About Eve
Ano: 1950
Diretor: Joseph Mankiewicz
País: USA
Awards: Oscar / Globo de Ouro / Cannes / BAFTA / Bodil / PGA, entre outros


domingo, 7 de setembro de 2014

O Senhor das moscas






Um grupo de meninos internos de um colégio militar chega à uma ilha deserta após um acidente de avião. Ali precisam se organizar para sobreviverem. Surge estão a maquete de uma sociedade, cuja evolução se mostrará indelevelmente semelhante à recente história da civilização ocidental. Espetacular versão do livro "O senhor das moscas", do Nobel de literatura William Golding. O livro já havia ganhado tratamento cinematográfico nos anos 60, mas decidi estranhamente (uma vez que sou mais chegado em velharias) postar aqui a versão que conheci primeiro, filmada em 1990 pelo quase anônimo Harry Hook , que é mais gráfica e foge um pouco dos "britanismos" excessivos do filme original, sem que a essência da obra fosse perdida. Essa versão é constantemente massacrada e considerada como "menor" frente à original, mas eu a considero bem simpática e sólida. Mas confesso que tomei contato com à obra de fato na primeira vez que asisti a um episódio dos "Simpsons" inteiramente baseado no filme, há anos atrás, e uma coisa leva à outra ...   



Trata-se de uma fábula de enorme viés sociológico, psico-social, e psicanalitico. A natureza do mal: medo, ódio e violência. Segundo a visão do autor, muito mais do que mero elemento da natureza humana, o mal é a própria essência da humanidade. A besta humana, como diria Émile Zola. A imagem de uma cabeça de porco decepada em um espeto, repleta de moscas, é a metáfora do mal inerente ao homem. Belzebu, o termo hebraico para Satanás, significa literalmente "senhor das moscas". Ou seja, o diabo como personificação da sombra humana, projetada numa figura mítica. Receptáculo mágico da carga de desejos mais abjetos, bestiais, primitivos e violentos dos seres humanos. 







Particularmente, à despeito de sua grande capacidade retórica, sempre considerei a influência da filosofia de Russeau nefasta. Sua teoria do 'bom selvagem' e sua visão do homem bom por natureza, criada em sintonia com o seu tempo (isto é, o colonialismo europeu de então), sempre me desagradou. Provavelmente essa idéia condizia mais com sua vida mansa de proxeneta de luxo na França pré revolução do que com a realidade do mundo lá fora, que ele pouco conhecia na prática. Já William Golding, circulou pelos intestinos da humanidade, uma vez que serviu na marinha britânica na segunda guerra mundial. Essa experiência o marcou profundamente, tendo testemunhado coisas terríveis, e observado que o homem produz o mal com uma naturalidade espantosa.



Foi justamente a crueza da realidade deste período de sua vida que o impulsionou à escrever esta fábula sobre o mal igualmente crua e mesmo chocante. Golding compartilha a visão que Freud descrevera antes em seu seminal ensaio " Psicologia de grupo e análise do Ego" : é preciso muito pouco para um grupo de pessoas assumir um comportamento de manada. Sem a presença de uma instância reguladora superior, que ele chamava de "Superego", nada mais resta do que a barbárie inata do "Id": horror, violência, narcisismo. Um "animal sem freios" à solta. Sem a moral civilizadora o homem tende a isso e nada mais. Mas Golding não se limita à questão psicanalítica, e através de metáforas muito claras em sua maquete de sociedade, faz reflexões profundas sobre a fragilidade da democracia, o desprezo coletivo da razão em favor de uma pregação de promessas fantasiosas, o fascismo, o militarismo, o terror, e muito importante em nossos dias: o medo coletivo e a propaganda. Isto é, como o estado (não importa qual) consegue perpetuar seu poder através da cultura do medo e da criação de inimigos coletivos imaginários. No caso do filme "o monstro" da caverna.   



Além do supra-citado episódio dos Simpsons, o livro se mostrou bastante influente no decorrer dos anos, e passou a fazer parte do canon de referências da cultura popular. Muitas bandas gravaram canções intituladas "Lord of the flies", inclusive o Iron Maiden, cujo letrista Bruce Dickinson possui longa tradição de referências literárias e historiográficas em suas letras. O seriado "Lost", pelo qual nunca me interessei, mas sobre o qual conheço o mínimo para perceber que chupou muitos elementos do livro, e finalmente, quem escutou o fundamental album "Suffer" do Bad Religion com o encarte na mão (no tempo que se fazia isso) conhece bem a referência do filme na letra de "1000 fools", num disco que possui todo ele inclusive, uma visão muito negativa da sociedade ocidental.  E "O Senhor das Moscas" é a apoteose dos instintos.



Titulo Orginal: Lord of the Flies
Ano: 1990
País: USA
Diretor: Harry Hook
Awards: Nenhum



                        
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...