segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Malvada







Quando eu era moleque e comecei a me interessar por cinema, tive a "sorte" de pegar um momento em que a TV à cabo estava no começo e pouca gente tinha. A internet não existia, e para se assistir um bom filme você devia: ir ao cinema (o que nem sempre era óbvio), peneirar alguma coisa na locadora (mas geralmente tinha muita tralha), ou contar com a programação da televisão. Parece estranho hoje em dia, mas a televisão aberta era uma boa fonte de cinema de qualidade. Geralmente, os filmes que valiam à pena eram relegados à madrugada, nos finais de semana, como tapa-buracos da emissora. A sessão coruja ou corujão, foi o meu grande parque de diversões durante meus primeiros anos de aspirante à cinéfilo-menino. Eu me preparava com antecedência: no domingo anterior meu pai sempre comprava o jornal e eu ia direto na revista da tv, que já dava a programação do que iria passar no outro final de semana, com uma pequena resenha do filme, elenco, etc. Eram 3 filmes em sequência, praticamente sem intervalo, que começavam depois da meia noite e por vezes terminavam com o nascer do dia e a mensagem de "Encerramos aqui nossa transmissão ...". Era simplesmente fantástico, pois a programação incluía muitos filmes cultuados, por vezes "estrangeiros", isto é, não-americanos, e muitos muitos clássicos, na boa parte das vezes legendados, o que era ainda melhor. Depois que cresci ainda guardei este hábito e me lembro de tê-lo feito até os dois primeiros anos de faculdade, mas aí já estava mais fácil conseguir bons filmes de outras formas, e dei outro rumo para minhas noites. Mas o legado para mim foi dos melhores. Desde então aprendi que é completamente diferente assistir à um filme de madrugada. Eu era um pouco notivago de fim de semana, porque um filme bate de maneira muito diferente na madrugada, quando sensorialmente você está na sua frequência de subjetividade. O filme funciona como um sonho que você sonha acordado, e fica lá pra sempre. Quem conhece sabe do que estou falando. Mas sobretudo, o maior legado do corujão: descobri muitos filmes bons nessa altura, alguns dos quais tenho dificuldade de encontrar até hoje. Apurei bastante meu senso estético em relação à cinema (e sigo até hoje tentando fazê-lo), mas, principalmente, desenvolvi, ao contrário de muitos colegas da minha geração, um amor incondicional pelo classicismo de Hollywood, que a maioria considera como "insuportável". Ultimamente tenho sentido a necessidade de dar uma "reciclada" nestes filmes que assisti ainda moleque, ou aqueles cujas referências pipocam por todo lado, e eu penso, "já vi esse filme, tenho que rever", agora com outros olhos, com novas referências.



Quando falo de cinema de Hollywood clássico me refiro à tudo que foi feito na América desde o início do cinema falado até o final do "sistema de estúdios", isto é, meados dos anos 60, quando dois fenômenos importantes apareceram: a televisão na sala de cada família americana como forte concorrente às salas de projeção, e o advento da "renascença" do cinema americano. Nesta altura, uma nova geração de realizadores, influenciados em parte pela libertadora nouvelle vague, começava à mudar o paradigma com filmes autorais, independentes, marginais e inovadores, que não seguiam à cartilha dos anos de ouro de Hollywood. Kubrick, Wood Allen, John Cassavetes, etc. O diretor não era mais um "funcionário" do estúdio, mas um artista, um criador que moldava o filme mais como uma declaração pessoal de princípios do que como um produto com a "cara" do estúdio. Isso mudaria o que entendemos como cinema para sempre, e a maneira clássica de filmar viraria uma peça de museu, o que para uns é lixo, mas para outros é um luxo. Um luxo que com os anos virou culto, e assim, o cinema clássico de Hollywood, concebido para as massas, trocaria curiosamente seu status de mainstream, por outro de cinema cult, de corujão e de amadores. E "All about Eve" é um dos exemplares mais prezados do cinema clássico de Hollywood, um verdadeiro protótipo do momento.








Embora tenha sua trama deslocada para o teatro, O filme é sobre o star system Hollywoodiano. Foi lançado emblematicamente no início da década de 50, quando a austeridade do pós guerra ficava para traz em favor do brilho. Uma mediatização crescente expunha de maneira extrema todo o "glamour" e afetação das estrelas de cinema. Isso servia como uma ferramenta de publicidade dos estudios, que alimentava e fazia crescer a própria industria, fazendo dos anos 50 a década que passaria para a história como a mais platinada do século passado. "All about Eve" brinca um pouco com essa promiscuidade entre mídia e showbizz, e nesse sentido é a cara da velha Hollywood. Traduzido para o português como "A Malvada" (o que não quer dizer muita coisa, já que todos são malvados no filme), o filme tem um enredo bem simples: Margo é uma diva do teatro atormentada pela ferida narcísica causada pela chegada de seus 40 anos, e encara cada jovem mulher como uma grave ameaça.  À despeito disso, começa uma estreita amizade com uma bela jovem aspirante à atriz, Eve, que por trás de suas aparências modestas e gestos suaves é na verdade uma ambiciosa loba, ávida por tomar o lugar de Margo. O resto é pura contemplação.



Uma coisa interessante no período clássico de Hollywood é o caráter teatral dos filmes, isto é, as cenas se parecem com uma peça de teatro filmada, onde o espectador ocuparia um lugar privilegiado. A câmera geralmente "invisível", sem os arroubos de movimento que ganharia anos depois. Planos simples e comportados. Trilha sonora sempre pesada e melodramática. E "A malvada" segue esta cartilha de maneira aplicada. O caráter e as motivações de cada personagem são claramente expostos ao público, uma vez que forçar o expectador a penetrar no arcabouço psicológico de cada personagem, como é a regra no cinema moderno, ainda era visto como algo estranho demais para uma audiência pouco sofisticada ou não condicionada para tal. Tudo precisava ser fácil e leve de se assistir. Em duas linhas do personagem e você já sabe de quem se trata. Suas linhas eram de costume "frases de efeito" expressando suas claras opiniões, o que transformava os diálogos em uma espécie de jogral, nada natural, mas deliciosamente camp (o que é surpreendentemente até hoje a regra das sitcoms americanas, que não por acaso são na maioria das vezes "peças teatrais" encenadas para uma audiência ao vivo, onde as tiradas de efeito são sua glória cômica.



Mas o fator que mais salta aos olhos é a maneira histrionica de atuar. Uma atuação fortemente física, focada em gestos e em expressões faciais. O cigarro era, convenientemente, um amuleto de atuação, e literalmente, atuava-se através do cigarro, existindo inclusive um bom numero de filmes da era de ouro em que todos os personagens fumam, talvez "A Malvada" seja um deles, mas nao estou certo disso. O resultado de tão grande "personificação" do papel resultaria na criação de caricaturas ambulantes, e atores que passariam para a história  imortalizados como tal. Bette Davis, a Margo do filme, é um dos maiores exemplos disso: sua personificação caricatural de tipos sardônicos e desagradáveis passou para o imaginário coletivo de tal maneira que a expressão "olhar de Bette Davis" se tornou corrente. Sinônimo de mulher de forte personalidade, e  "malvada", acabou se tornando uma eterna diva gay, assim como Liz Taylor, Madonna, Lady Gaga e outras figuras femininas construídas como "poderosas" ao ponto de tocarem o complexo materno indissociável da homossexualidade masculina. (A "Anima" de Carl Jung).



Não é nenhuma surpresa que após o "renascimento" do cinema americano, onde a forma de atuar passou a ser contida, subjetiva e natural, toda uma geração de estrelas dos anos dourados foi retirada de cena. Pouca gente conseguiu seguir carreira neste novo ambiente (Marlon Brando, uma das excessões). A maioria desta geração só conheceria novamente um pouco de fama nos anos 80, já idosos, como no caso de Bette Davis, desfigurados de seus rostos-caricatura, e distantes o suficiente dos velhos tempos. Assim, uma parte dessa geração, que estava viva ainda, foi "redescoberta" na telona durante a segunda década de ouro de Hollywood, como Bette Davis, enquanto a outra parte permaneceu reclusa, ou procurou outras coisas para fazer, como ser presidente da republica, no caso de Ronald Reagan.






Mesmo carregado de maneirismos, "A malvada" não é apenas uma peça de museu. Por trás dele existem uma profundidade dramática escondida atrás de pequenas sutilezas, adultério, lesbianismo (levou anos para o diretor "contar" para todos, nos extras do DVD,  que Eve era gay, mas isso já havia sido mostrado claramente em certa cena do filme), casamento de fachada, etc, para as quais é preciso estar atento, uma vez que tudo isso era muito insinuado, afinal era a América dos anos 50, mais bundona do que nunca, e tratava-se de um filme prestigioso de estúdio. Mas está tudo lá, engenhosamente mostrado para quem consegue enxergar.  



Caricaturais ou não, os personagens de Bette Davis, Anne Baxter e de Georges Sanders são memoráveis e eternos. Este ultimo, vive de maneira excelente um impassível critico teatral, um dandy que despreza a humanidade tal qual o faziam os deuses no Olimpo, mas que acoberta sua condição de homossexual ao lado de belas vedetes às quais secretamente despreza. Uma de suas vedetes é ninguém menos que Marilyn Monroe, interpretando (surpresa !) uma aspirante à atriz, loura burra, esteriótipo medonho que ela tanto ajudou a construir, quando na verdade sabemos que ela nunca foi boba em sua vida privada, tendo sido casada com ninguém menos que Arthur Miller, um dos maiores intelectuais, de fato, que a América já teve. Já o personagem central muito bem vivido por Anne Baxter é icônico ao ponto de inspirar um sem número de outros papéis desde então, de Lisa Simpson (Sempre ! em "All about Lisa") até o nome de uma banda de rock (All about Eve, como o filme), ou mesmo marca de perfume fashion. Emblematicamente chamada de  "Eva", a personagem evoca justamente o nome do arquétipo bíblico da mulher ardil, traidora e astuta, responsável pela queda da humanidade ao oferecer uma maça à Adão, visão misogina que não é uma exclusividade do pensamento judaico-cristão, mas que aparece também em outras culturas antigas (como por exemplo Pandora na cultura grega) que ainda entendiam a sexualidade feminina como algo perigoso.  



Feito numa época em que era natural se filmar um homem dando um tapa na cara de uma mulher no meio de uma discussão acalorada, ou um produtor teatral judeu ser mostrado como um esteriotipo ambulante, "A Malvada" é uma boa aula de cinema, e com mais à mostrar que sua aparência de filme família faz supor. Se souber relativizar os fatos uma boa diversão ainda por cima. Me parece que foi o filme mais oscarizado antes do Titanic, e isso numa época em que o Oscar ainda significava alguma coisa, com várias indicações e diversos prêmiações, mas eu não tenho certeza, porque "All about Eve" é mais importante do que esse detalhe.


Título original: All About Eve
Ano: 1950
Diretor: Joseph Mankiewicz
País: USA
Awards: Oscar / Globo de Ouro / Cannes / BAFTA / Bodil / PGA, entre outros


2 comentários:

  1. Um dos meus filmes favoritos e adorei tua análise!

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