sábado, 13 de setembro de 2014

Curtindo a vida adoidado






Outro dia conversava com um amigo que está de viagem marcada para Chicago, e como boa parte de nossas conversas são medidas por filmes, logo começamos a divagar sobre aqueles que tem a cidade de Chicago como cenário. Não demorou muito para chegarmos na filmografia do finado John Hughes, que via de regra, inseria Chicago em seus filmes como Allen faz com New York nos seus: a cidade é musa e parte invariável da história. Chicago, "The all american city", como é conhecida, não é nem aberta para o mundo como New York, nem platinada como Los Angeles. É a América em seu mais puro estado, a capital do meio-oeste, e da américa "profunda". Hughes fazia questão de inserir este espírito em seus filmes, mas foi em "Ferris Bueller's day off", que celebrou a cidade de maneira jamais vista, contando a história de um trio de adolescentes que deixa para trás o conforto de um suburbio verdejante de clase média alta para se aventurar no centro da metrópole.




John Hughes, que terminou sua vida dirigindo inofensivos filmes "família", surgiu anos antes no cenário da industria com uma série de filmes densos, escritos e dirigidos por ele, invariavelmente ligados aos anseios da juventude oitentista. Eram filmes que, sob uma aparência ingênua e descartável, captavam de maneira bastante adulta os dramas daquela geração, e que se tornariam célebres como "Clube dos cinco" e "A garota de rosa choque". Apenas por isso Hughes já mereceria um registro na memória cinéfila. Mas foi com "Ferris Bueller" que Hughes criaria o seu Sargent Peppers, e colocaria definitivamente seu nome entre os grandes, ao realizar o clássico supremo de um subgênero, que acabou por extrapolar os limites do segmento, se transformando em um patrimônio da cultura popular, de real valor artístico e estético, e retrato máximo de um momento, goste você ou não. 




Com ele Hughes alcançava um grau de apuro estético e técnicas incomuns para este tipo de filme. Utilisando-se de uma abordagem cínica e mordaz, criava uma reflexão em filme acerca do momento americano, emblematicamente ambientado em Chicago, a "all american city" afinal. E acertou em cheio. Através do dualismo de seu personagem central, Hughes confrontava a América com um retrato sarcástico e muito bem sacado da era Reagan: consumismo, cinismo e individualismo, travestidos bizarramente de virtudes. Por esse motivo, e de acordo com a visão de mundo da audiência, o filme pode ser considerado tanto uma comédia quanto um drama dos mais tristes. O resultado foi um magistral comentário social, um virulento retrato da década de 80.




Ferris Bueller é brilhantemente interpretado pelo mais que carismático Matthew Broderick. Bueller é narcisista, tirânico, manipulador, e na verdade não ama ninguém senão ele próprio. Seu mau-caratismo está no limite da sociopatia. Mas o dualismo do personagem é também a chave de sua aceitação pelas massas. Bueller é um epicurista, um hedonista. É exatamente na potência de existir que está o charme do personagem. Um legítimo arauto de Nietzsche, que em meio à irracionalidade e desordem do mundo, considera viver o momento em toda a sua plenitude como a unica verdade da vida. A moralidade das regras para ele estava fora de questão. O prazer acima de tudo. Por isso em algum momento do filme todos estarão torcendo por ele, não tem jeito. O apelo evocado pelo personagem foi tamanho , e se atrelou de tal forma à imagem de Broderick, que simplesmente obscureceria qualquer trabalho posterior do cara, cuja carreira mergulhou na mediocridade até os dias de hoje, a despeito de todas as suas qualidades como ator. 

Para amplificar a identificação com o público, Hughes introduziu um dispositivo bastante sofisticado para um filme teen: quebrou o "quarto muro", isto é, rompeu as barreiras do filme, eliminando a linha invisível que o separava do espectador. Bueller conversa o tempo todo com a audiência, cria laços, e até mesmo a despreza. Uma metaficção que lembra ao expectador o tempo todo que tudo aquilo é uma construção. Uma maneira engenhosa de Hughes dizer ao seu público: "Meninos, não façam isso em casa", e também de atenuar o mau-caratismo do personagem, "afinal nada disso é de verdade", dispositivo aliás que Godard tornou célebre muitos anos antes com o marginal vivido por Jean Paul Belmondo em "Acossados", embora esta técnica de roteirização já existisse desde os irmãos Marx. Na verdade o conceito de "quarto muro" foi teorizado primeiramente pelo superdotado Diderot, versão dramaturgo, em suas reflexões sobre teatro, ainda no século 18. 

Do lado oposto de Bueller está Cameron, uma reflexão existencialista ambulante. Cameron, um ser humano atormentado, cujo pai yuppie prefere sua Ferrari vermelha à própria família, se arrasta pelo mundo com pesar. Cameron não apenas amplifica o desespero de Bueller por viver, mas também acentua o inegável caráter melancólico do filme, que quase nunca é lembrado. "Curtindo a vida adoidado" passou para a história como o filme "mais divertido" dos anos 80, mas que na verdade desperta também uma sensação de estranheza e melancolia. Um filme simplesmente genial, que talvez tenha virado um clássico pelas razões erradas.

Título Original: Ferris Bueller's Day off
Ano: 1986
Diretor: John Hughes
País: USA
Awards: Globo de Ouro


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...