terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hamlet






Hamlet é a obra literária mais festejada da língua inglesa de todos os tempos. Não é pra menos. Trata-se de uma tragédia que agrupa temas tão universais, que é praticamente impossível permanecer impassível diante dela. É um clássico, um patrimônio da humanidade. Uma referência incontornável no canon da civilização ocidental. Na verdade o drama nasceu como uma peça teatral, escrita pelo brilhante bardo britânico William Shakespeare, acredita-se, à partir de versões mais antigas de uma história que circulava há séculos na tradição popular. De qualquer maneira, foi ele quem a adaptou, estruturou e criou os célebres diálogos e aforismos que garantiram a imortalidade do texto.





O cinema foi minha porta de entrada para Hamlet, e conheço a estória de trás para frente, graças aos filmes. Eu confesso que nunca li a obra original. Li uma versão traduzida para o português que, na tentativa de manter o rigor linguístico do autor, resultou em algo um pouco hermético, chato mesmo, que afasta a riqueza da obra. Além disso, sua condição de referência universal faz com que sua trama apareça repetidamente em adaptações, resenhas e ensaios, sendo o mais interessante para mim o realizado por Freud em seu "Livro dos Sonhos". Sempre acreditei que o cinema não é apenas as duas horas que você passa assistindo ao filme, mas sim uma porta de entrada que pode revelar muitas outras coisas, dependendo do seu interesse. E Hamlet merece ser conhecido, de uma maneira ou de outra.

A estória da peça é basicamente uma trama de vingança passional. O jovem príncipe da Dinamarca, Hamlet, profundamente deprimido pela recente perda de seu pai, aprende através do fantasma do mesmo que sua morte foi na verdade um assassinato perpretado pelo seu ardiloso irmão, Claudius, que planejava apoderar-se não apenas da coroa do reino, mas também do amor da rainha Gertrudes. Hamlet trama um plano de vingança, em que simula um estado de loucura para vingar-se de seu tio Claudius, adultero e assassino. A idéia de vingança controla Hamlet de tal forma que até mesmo o amor da doce Ofélia, sua namorada de infância, não lhe parece mais um atrativo.





Shakespeare teve a fineza de transformar o enredo básico em algo muito maior, através de seus personagens complexos, à começar por Hamlet, um sujeito profundamente filosófico e pouco convencional para um príncipe. O autor antecipou em alguns séculos o tema do existêncialismo através dos conflitos de seu personagem central, que proferiu a mais célebre passagem da peça "Ser ou não ser (existir ou não), eis a questão", talvez a sentença mais citada da história da literatura mundial. Hamlet evoca ainda o conceito milenar dentro da filosofia de que nada é real, mas sim a maneira como cada um percebe cada coisa. Não existe uma verdade absoluta, apenas uma verdade relativa.

O caráter edipiano da estória é flagrante, e fortemente defendido por Freud em seu mais célebre trabalho, na tentativa de dar crédito à pedra angular de toda a sua teoria através de referências literárias. De fato, é bastante obvio que a trama central é uma trama edipiana, sendo que o desejo de Hamlet em matar o próprio pai foi disfarçado pelo autor, e transferido para o tio. A motivação de Hamlet é dupla, e acoberta seus desejos proibidos pela mãe. O crime perpretado por seu tio era na verdade seu próprio crime inconsciente. Assim, a vingança de Hamlet contra seu tio Claudius é em parte contra si próprio, o que explicaria tamanha confusão mental do jovem príncipe, atormentado também pela culpa.





A versão cinematográfica de Franco Zeffirelli, desta postagem, é a que considero a mais simpática. É constantemente atacada, principalmente pela escalação de Mel Gibson no papel central, que na visão arrogante de alguns, não seria um autor "à altura" de representar Shakespeare, tarefa geralmente reservada aos grandes nomes do teatro. Pura bobagem. Independente do que tenha feito antes, ou depois, Gibson está bem no papel. O filme tem diálogos que abrandam a complexidade impenetrável do texto original, tornando-o mais natural, relaxado, porém conservando fortes feições de um espetáculo teatral. Isso não é surpreendente, já que Zeffirelli é um grande diretor, especializado em filmes de época, sobretudo medievais, tendo dirigido anos antes uma versão meio "paz e amor" de outra obra clássica do mesmo autor, "Romeu e Julieta", e também a biografia romanceada de São Francisco de Assis, "Irmão sol, irmão lua". E todo esforço para popularizar Hamlet é sempre bem vindo.



                    



Título original: Hamlet
Ano: 1990
Diretor: Franco Zeffirelli
País: USA / UK / França
Awards: David di Donatello / Italian National Syndicate of Film Journalists / BAFTA Awards / National Board of Review USA

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