sábado, 20 de setembro de 2014

O Grande Hotel Budapeste






Hospedado em um decadente hotel situado num mítico país da Europa oriental, um jovem escritor aprende de seu proprietário que aquele estabelecimento já viveu muitos dias de glória, tendo sido uma verdadeira instituição, cuja epopéia se confunde com a conturbada história da Europa no século XX. Desde que criei este blog estou enrolando para postar aqui algum filme de Wes Anderson. Esta semana finalmente assisti O Grande Hotel Budapeste. Foi também o fim da minha procrastinação: é um filme fantástico. Desde que chamou a atenção por "Os excêntricos Tenenbaums", Anderson só vem dirigindo belos filmes através dos quais construiu sua forte identidade. Mas em Budapeste ele simplesmente quebrou a banca e realizou um clássico imediato, do tipo que será falado daqui há muitos anos. 

Guardando-se as devidas proporções, eu vejo Anderson como um homólogo americano do francês Jean Pierre Jeunet (de "Amelie Poulain"). Sob um aspecto deliberadamente mágico, ingênuo e levemente pueril de seus filmes, paira a evidente melancolia de temas como perda, abandono, solidão. Os dois equilibram muito bem esta equação. Outro ponto em comum dos dois é a coesão estética e a densidade de detalhes. Ambos são estetas, artesãos do pós modernismo. 

No caso de Anderson, o apuro visual de seus filmes chega nos limites do fetiche, o que faz lembrar de outro mestre: Tim Burton. Em Budapeste, Anderson leva ao extremo sua rima de cores (sempre usa cenografia com poucas cores que se harmonizam) e suas composições meticulosamente simétricas. É uma espécie de Peter Greenaway, só que pop. Em resumo, o cinema de Anderson está em outro nível, ele é jovem ainda, e sabe-se lá o que ainda vai nos preparar no futuro. Seus críticos reclamam justamente do aspecto "fabricado" de sua cenografia, o que eu tomaria sinceramente como um elogio se fosse o diretor.  





Outra conexão interessante deste filme é a inspiração literária do célebre autor austríaco-judeu Stefan Zweig, sujeito extremamente culto e erudito, à quem o filme é dedicado. Desencantado pela ascensão do fascismo, ele mesmo baseou boa parte de seus escritos no tema da decadência e do "suicídio" da Europa em meados do século XX, tema no qual o filme é conceitualmente e inteiramente baseado. Por conta do nazismo, ele também foi obrigado a deixar para traz seu amado continente, e fugir para o Brasil, onde, entre outras coisas cunhou a célebre expressão "O Brasil é o país do futuro", que é ao mesmo tempo uma promessa e uma maldição. Instalou-se na mais européia das cidades brasileiras de então, Petrópolis, mas sua saudade da velha Europa o levou a cometer suicídio, após escrever uma bela carta de adeus.


                     



Título Original: The Grand Budapest Hotel
Ano: 2014
Diretor: Wes Anderson
País: Alemanha / UK
Awards: Festival de Berlin / Prêmio David di Donatello / Golden Trailer Awards / Italian National Syndicate of Film Journalists, por enquanto ..

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