domingo, 7 de setembro de 2014

O Senhor das moscas






Um grupo de meninos internos de um colégio militar chega à uma ilha deserta após um acidente de avião. Ali precisam se organizar para sobreviverem. Surge estão a maquete de uma sociedade, cuja evolução se mostrará indelevelmente semelhante à recente história da civilização ocidental. Espetacular versão do livro "O senhor das moscas", do Nobel de literatura William Golding. O livro já havia ganhado tratamento cinematográfico nos anos 60, mas decidi estranhamente (uma vez que sou mais chegado em velharias) postar aqui a versão que conheci primeiro, filmada em 1990 pelo quase anônimo Harry Hook , que é mais gráfica e foge um pouco dos "britanismos" excessivos do filme original, sem que a essência da obra fosse perdida. Essa versão é constantemente massacrada e considerada como "menor" frente à original, mas eu a considero bem simpática e sólida. Mas confesso que tomei contato com à obra de fato na primeira vez que asisti a um episódio dos "Simpsons" inteiramente baseado no filme, há anos atrás, e uma coisa leva à outra ...   



Trata-se de uma fábula de enorme viés sociológico, psico-social, e psicanalitico. A natureza do mal: medo, ódio e violência. Segundo a visão do autor, muito mais do que mero elemento da natureza humana, o mal é a própria essência da humanidade. A besta humana, como diria Émile Zola. A imagem de uma cabeça de porco decepada em um espeto, repleta de moscas, é a metáfora do mal inerente ao homem. Belzebu, o termo hebraico para Satanás, significa literalmente "senhor das moscas". Ou seja, o diabo como personificação da sombra humana, projetada numa figura mítica. Receptáculo mágico da carga de desejos mais abjetos, bestiais, primitivos e violentos dos seres humanos. 







Particularmente, à despeito de sua grande capacidade retórica, sempre considerei a influência da filosofia de Russeau nefasta. Sua teoria do 'bom selvagem' e sua visão do homem bom por natureza, criada em sintonia com o seu tempo (isto é, o colonialismo europeu de então), sempre me desagradou. Provavelmente essa idéia condizia mais com sua vida mansa de proxeneta de luxo na França pré revolução do que com a realidade do mundo lá fora, que ele pouco conhecia na prática. Já William Golding, circulou pelos intestinos da humanidade, uma vez que serviu na marinha britânica na segunda guerra mundial. Essa experiência o marcou profundamente, tendo testemunhado coisas terríveis, e observado que o homem produz o mal com uma naturalidade espantosa.



Foi justamente a crueza da realidade deste período de sua vida que o impulsionou à escrever esta fábula sobre o mal igualmente crua e mesmo chocante. Golding compartilha a visão que Freud descrevera antes em seu seminal ensaio " Psicologia de grupo e análise do Ego" : é preciso muito pouco para um grupo de pessoas assumir um comportamento de manada. Sem a presença de uma instância reguladora superior, que ele chamava de "Superego", nada mais resta do que a barbárie inata do "Id": horror, violência, narcisismo. Um "animal sem freios" à solta. Sem a moral civilizadora o homem tende a isso e nada mais. Mas Golding não se limita à questão psicanalítica, e através de metáforas muito claras em sua maquete de sociedade, faz reflexões profundas sobre a fragilidade da democracia, o desprezo coletivo da razão em favor de uma pregação de promessas fantasiosas, o fascismo, o militarismo, o terror, e muito importante em nossos dias: o medo coletivo e a propaganda. Isto é, como o estado (não importa qual) consegue perpetuar seu poder através da cultura do medo e da criação de inimigos coletivos imaginários. No caso do filme "o monstro" da caverna.   



Além do supra-citado episódio dos Simpsons, o livro se mostrou bastante influente no decorrer dos anos, e passou a fazer parte do canon de referências da cultura popular. Muitas bandas gravaram canções intituladas "Lord of the flies", inclusive o Iron Maiden, cujo letrista Bruce Dickinson possui longa tradição de referências literárias e historiográficas em suas letras. O seriado "Lost", pelo qual nunca me interessei, mas sobre o qual conheço o mínimo para perceber que chupou muitos elementos do livro, e finalmente, quem escutou o fundamental album "Suffer" do Bad Religion com o encarte na mão (no tempo que se fazia isso) conhece bem a referência do filme na letra de "1000 fools", num disco que possui todo ele inclusive, uma visão muito negativa da sociedade ocidental.  E "O Senhor das Moscas" é a apoteose dos instintos.



Titulo Orginal: Lord of the Flies
Ano: 1990
País: USA
Diretor: Harry Hook
Awards: Nenhum



                        

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...