domingo, 12 de outubro de 2014

Thriller




Thriller você já assistiu com certeza. É um dos maiores eventos da cultura popular do século XX, e um dos objetos audio-visuais mais assistidos na história da humanidade, então todo ser vivo com mais de 10 anos já o assistiu. Com relação à postagem de Thriller em um blog sobre cinema a primeira pergunta a ser feita é se um video clip pode ser considerado como cinema. Boa pergunta. O videoclip tem origens profundas ao longo da história do cinema, em experimentos audio visuais onde uma musica pré existente conduz as imagens e não o contrário, como de costume. Como elemento de linguagem audio visual é justamente essa inversão na hierarquia sensorial a sua maior marca estética. Desde a aurora do cinema sonoro a musica caminha junto com o cinema, lado à lado, como elemento de criação de ambiência primordial, ao ponto de ser difícil se montar um filme sem ela. Mas na escala de valores a imagem sempre ocupa o primeiro lugar dentro do cinema clássico. Então temos o video clip como elemento transgressor da linguagem. Mas o videoclip é também uma peça publicitária. Um filme que dura o tempo da musica para promover uma canção junto ao seu publico potencial, estratégia surgida à partir de um momento em que as grandes gravadoras se deram conta que o rádio já não tinha mais fôlego para concorrer com a televisão nos corações e mentes das pessoas. O videoclip vive no limbo entre cinema e publicidade, e nem sempre goza de boa reputação.

Historicamente é difícil se chegar à um consenso de onde nasceu o videoclip como objeto midiático. Nos anos 40 e 50 já existiam os soundies, espécies de jukebox visuais, basicamente reservadas à artistas soul. No início dos anos 60 Richard Lester dirigiu A hard day's night, com os Beatles, que foi uma espécie de ensaio geral do formato adequado ao universo poético do rock. Mas formalmente era um filme. Os mesmos Beatles, à partir do momento em que deixaram de fazer turnês, apareceram com uma ideia genial: para promover o single "rain", ao invés de pegarem a estrada e passarem meses se detestando dentro de um furgão, resolveram a questão produzindo um video musical da canção, que "viajaria" o mundo promovendo a canção no lugar dos 4 rapazes de Liverpool. Estava criado o esboço do formato promocional assumido. Durante 15 anos muitas coisas parecidas com um videoclip circularam pelo universo musical, mas foi apenas em 1981, com a estréia da MTV americana que a coisa assumiu o formato definitivo, industrial, e ganhou um nome e uma casa para serem difundidos de maneira regular e massiva. 




Inicialmente produzidos de maneira amadora, por diretores vindos do mundo da moda e da publicidade, e que nem ao menos assinavam seus trabalhos, o video rapidamente desenvolveu a sua própria gramatica: breve, rápida (frenética), referencial e pós moderna. Mesmo que 90 % dos videoclips sejam um lixo sem nenhum valor artístico, a aceitação popular e das gravadoras foi imensa, e logo ele se tornou um dos pilares culturais da década de 80 e prioridade absoluta dos artistas. Video killed the radio stars, e ponto final. Não demorou muito para a sintaxe começar a se infiltrar no cinema, principalmente tomando o lugar das elipses, e muitos filmes feitos nestes últimos 30 anos emprestam pesado do formato clip, existindo mesmo casos em que o filme inteiro é um imenso videoclipe. Este diálogo se intensificou com a migração de realizadores de clip para o cinema e vice-versa. O clip é o território da experimentação por excelência, então para um diretor ele é o ambiente perfeito para experimentar, ousar ou aprender. Pense em Spike Jonze, Anton Corbijn ...

Foi nos primórdios do videoclip que Thriller surgiu. Michael Jackson já era o maior fenômeno fonográfico da história e era preciso algo à altura para ilustrar essa façanha. Ironicamente, a MTV havia levado um ano para abrir as portas à um artista negro, e foi justamente um deles que realizaria o maior êxito do formato de todos os tempos. Michael Jackson, velho conhecido das câmeras e circulando no showbizz desde a mais tenra infância, escolheu John Landis como diretor, numa época em que diretores de cinema e de video não se misturavam. Landis por sua vez era um diretor emergente, recém saído de Os irmãos cara de pau, esperto, e que sobretudo não se levava tão a sério quanto por exemplo, Spielberg, seu colega de geração. O conceito era criar algo entre um video clip tradicional e um curta metragem, com um tema de horror de acordo com a canção. Dinheiro e meios não iriam faltar, pois o garoto era ao mesmo tempo o novo Elvis, Fred Astaire e Beatles da musica pop, então façam o que quiserem. Landis veio com essa grande idéia de um curta de 13 minutos que é basicamente um exercício de auto-reflexão do cinema, sobretudo do cinema de horror B americano. A referência imediata era inclusive ele mesmo, cujo simpático filme Um lobisomem americano em Londres é obviamente presente em Thriller. 




Na década de 80 as pessoas eram por algum motivo fascinadas pela década de 50, então o casal do "filme dentro do filme" vivia um casal "branco" idealizado daquela década, cuja história de amor está em risco pelo fato do rapaz ser um lobisomem. A metalinguagem logo nos revela que trata-se de um filme, e que o mesmo casal está numa sala de cinema, em plenos anos 80, assistindo um filme de terror barato, o que nos leva à uma segunda referência / homenagem: a sala é nada menos que o mítico Palace, um dos mais tradicionais cinemas do setor histórico de Los Angeles, tombado como patrimônio juntamente com as demais salas da vizinhança, todas de fachadas igualmente magníficas, e parte da história da era de ouro de Hollywood. Quando o casal volta para casa começa o vide-clip propriamente dito, de tipologia performática, isto é, Michael dublando a canção, aspecto sem duvida mais constrangedor que o formato video-clip impõe aos artistas. E ele o faz à moda das comédias musicais de Hollywood nos anos 40, cantando e dançando ao redor da moça, como um Gene Kelly repaginado em versão 2.0.

É quando surge a principal referência do filme: O Dia dos mortos vivos de George Romero. Os zumbis se juntam à Michael, agora também energúmeno, e executam uma coreografia formidavelmente camp, cuja extensão de influência no mundo pop é difícil de se estimar. É importante lembrar que hoje em dia o mundo vive numa overdose de zumbis, mas em 1983 esse não era um tema que entrava facilmente na sala de estar do americano, então John Landis apostou nos mortos vivos, mas correndo um certo risco. Misturando a tradicional releitura que Jackson fazia de James Brown, com passos de Break e bizarros movimentos de Zumbi, o balé transforma um dos aspectos mais cafonas da cultura popular americana, isto é, a dança coreografada, em algo divertido de se assistir. Então temos mais uma pauta de auto-reflexão bem situada por Landis e Jackson: nada mais salutar para um artista popular do que assumir sem culpa a sua própria porção Kitsch, algo que Michael tinha de sobra por sinal. O Kitsch como acumulação cultural heterotrófica de gosto duvidoso mesmo, sendo esta talvez a grande (e única ?) referência estética do americano white trash. Finalmente, numa segunda virada narrativa, a moça acorda e descobre que tudo não passava de um sonho. Será mesmo ? Para completar, a faixa era luxuosamente narrada pelo ícone do cinema B de terror, Vincent Price, como o mesmo já havia feito em Welcome to My Nightmare, de Alice Cooper, e na estreia fílmica de Tim Burton, Vincent.




Além de todas as suas qualidades estéticas (Kitsch assumido) e referenciais, o filme carrega ainda um inegável caráter nostálgico, e mesmo melancólico, se sairmos um pouco da obra para explorar o que havia em torno dela. Michael era jovem e belo ainda, não havia desfigurado horrivelmente o seu rosto, e nem sucumbido à doença mental que o mataria décadas mais tarde. O começo do filme traz uma mensagem em que Michael, que se declarava evangélico (Testemunha de Jeová), adverte o espectador que apesar do teor do filme ele mesmo não acreditava no "oculto". Só isso daria uma tese de 120 páginas sobre cultural studies, mas eu nem vou entrar por esse caminho senão eu não saio daqui hoje, mas para dizer o mínimo, é uma mensagem para as gerações futuras de que o americano médio dos anos 80 ainda não sabia diferenciar uma peça de ficção e pura fantasia de eventos da vida real, e nem separar um personagem de uma pessoa de verdade. E aparentemente Michael também não sabia. 

Após o estouro de Thriller a popularidade de Michael Jackson atingiu níveis estratosféricos, beirando o status de uma divindade. O mundo era dele. Pode-se dizer que foi justamente o momento em que as coisas começaram a ir, lenta e progressivamente, ladeira abaixo em sua vida pessoal e artística, à começar pelo terrível incêndio que sofreria no próprio cabelo. Incapaz de repetir o êxito de Thriller, o artista tornou-se cada vez mais paranoico, isolado do universo real, e mergulhado em um mundo de sexualidade e escolhas confusas. Anos depois, em 1991, Michael Jackson e John Landis repetiriam a dobradinha com o (bom) clip de Black or White, mas acontece que o mundo já tinha mudado. Na década de 80 o mundo era apenas cínico, mas na década de 90 ele se tornou também amargo. Agora as pessoas não estavam mais interessadas em saber se Michael era branco ou preto, mas sim em sentir o perfume do desodorante Teen Spirit. Mas isso já é assunto para outra postagem ...




Título Original: Thriller
Ano: 1983
País: USA
Diretor: John Landis
Awards: National Film Preservation Board

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Cidadão Kane




Para "comemorar" a postagem de numero 400 deste blog, achei simbólico postar um filme mítico: Cidadão kane. Bem, um blog de cinema deveria ter este filme como sua postagem numero 1, mas há cinco anos atrás, quando criei esse blog, pensava em limitar o interesse do mesmo à pequenos filmes alvos de minha afeição, filmes cult, esquecidos, estilo brechó. Afinal, do que valeria me lançar sobre filmes sobre os quais se encontra material farto em todas as partes ? (E certamente melhor escritos). Com o passar dos anos, meus objetivos (que sempre foram modestos, pessoais) em relação à este blog acabaram por se diversificar. Inicialmente tinha o idealismo de colaborar na divulgação dos torrents de filmes geniais e raros que circulam na net, ao mesmo tempo que teria a oportunidade de entrar em contato com outros admiradores (o que aconteceu muito pouco). Mais tarde ele foi se transformando pouco à pouco em uma via de extração para a minha peculiar compulsão por escrever. Um caderno pessoal de cinema, que qualquer um pode olhar se quiser, embora eu não esteja certo de que alguém o faça. 




Minha relação com Cidadão Kane começou quando minha irmã mais velha, uma pessoa muito acadêmica e erudita por sinal, apareceu em casa com uma fita VHS do filme, que se comprava em bancas de jornal, como era costume uma época. Naturalmente o assisti, como aliás fazia com qualquer coisa que me caísse em mãos. O interessante foi que o assisti candidamente, já que ainda ignorava sua dimensão lendária. Me lembro que fiquei bastante impressionado, e o considerei "diferente", denso, sobretudo para um filme clássico, "antigo". Depois disso, na progressão do meu interesse por cinema, frequentemente me deparava com referências à obra em alguma resenha, livro, filmes e cultura popular (muitas e muitas), e obviamente nos famosos "rankings dos melhores filmes da história", onde comumente figura no topo da lista. Aprendi sua importância e o revi. E depois de novo, e de novo... Fiquei uns anos sem vê-lo, e há uma semana, dentro do meu projeto pessoal "revendo clássicos" , voltei à ele com enorme prazer, e acabei assistindo duas vezes.




No início dos século 18, o poeta britânico Thomas Gray escreveu em um de seus poemas a célebre linha "ignorance is bliss" (que conheci primeiro através de Joey Ramone mesmo). "A ignorância é uma benção", cuja idéia central é a de que a falta de conhecimento pode resultar em felicidade, e que alguém estará mais confortável dentro de uma situação quanto menos sabe das coisas que estão em jogo nela. É apenas quando se conhecem tais fatores que alguém poderá sentir tímidez ou medo.  Dentro de todas as virtudes de Cidadão Kane, a coisa que mais me agrada é saber que toda a sua inventividade e originalidade revolucionárias, são frutos da cabeça abusada de Orson Welles, que realizava então o seu primeiro longa metragem. Como ele mesmo declarou, quando foi perguntado sobre a fonte de tamanho gênio, ele disse que tudo foi fruto da sua "ignorância" e desconhecimento de causa. Tudo era criado à medida que o filme era executado, de maneira pura, ingênua mesmo, e deu no que deu. Welles foi um destes sujeitos que tanto admiro: já começam prontos. Sem nenhum academicismo limitador. Seu primeiro dia dirigindo um longa metragem foi também seu primeiro dia na escola de cinema, e suas referências eram o que tinha visto nas salas de projeção. Nesse sentido me lembra muito nosso muito amado Mojica, que também traz o cinema dentro de si como uma segunda natureza.




Através de uma narrativa bastante original na época (mas depois amplamente institucionalizada na linguagem do cinema) Welles nos desvendava pouco a pouco o enigma que era seu personagem central, o tal Cidadão kane, através de depoimentos dados à um jornalista que investigava sua história, fornecidos em flash back (também uma técnica ainda pouco explorada) por personagens que fizeram parte dos acontecimentos narrados. Como o personagem Kane era um magnata da imprensa, essa confluência da estética jornalística como elemento de narrativa ganha ainda mais relevância na criação da ambiência do filme, onde a visão midiática do mundo é que define a relevância dos fatos. Welles criava de quebra, o que seria o esqueleto do formato documentário jornalístico até nossos dia. Porque o filme é exatamente isso, um marco zero do sub-gênero "falso-documentário". Nada mais natural, já que ele era, originalmente, um radialista da era pré televisão, o que significava muita coisa naquele momento.

Foi exatamente como radialista que Welles chamou atenção de Hollywood. Três anos antes ele havia produzido uma emissão especial na radio CBS para festejar o Halloween: A "Guerra dos mundos", do seminal novelista inglês HG Wells. Welles, já utilizando-se do jornalismo como elemento de narrativa, apresentava boletins simulados "ao vivo", descrevendo o horror da chegada dos marcianos na terra. Ele empregou tamanho realismo na empreitada, que parte da audiência que ignorava tratar-se de uma ficção, acabou por gerar uma onda de pânico e histeria coletiva. Uma vez desfeito o mal entendido, seguiu-se um grande clamor de indignação pública, envolvendo inclusive uma investigação federal no caso. Esse acontecimento, por si só cinematográfico, chamou a atenção imediatamente dos cabeças de Hollywood, que cientes do fato que o cinema é a arte de saber iludir, perceberam estar diante de um mestre. Welles foi contratado para dois filmes pela RKO. Ele não se fez de rogado e pediu carta branca para escalar o elenco e ter controle total de seu projeto, algo raro numa época em que o diretor era tido como mero funcionário do estúdio, e não um realisador pleno. O conceito de "filme de autor" só surgiria anos depois com o estabelecimento do modernismo europeu do pós guerra.




Com a faca e o queijo na mão, tirou logo da manga uma idéia que cultivava há anos: contar a história de alguma grande figura pública americana facilmente identificável pela audiência, da infância até sua morte, através dos relatos daqueles que conviveram com ele. Como Welles era novato no ofício, contou com a ajuda do roteirista veterano Herman J. Mankiewicz, que adicionou inumeras idéias pessoais para compor o personagem. O que resultou deste trabalho foi o maior expoente do cinema en clef de todos os tempos, isto é, uma história real mal disfarçada, mas que obviamente os espectadores identificam relaciona com os fatos reais. Kane era um apanhado de diversas figuras publicas, mas principalmente do multimilionário americano do setor editorial William Randolph Hearst. Sua enorme fortuna, suas aventuras políticas e extra-conjugais foram as principais fontes de inspiração para Kane. A nababesca propriedade do personagem de Welles, verdadeiro Éden delirante, cujo nome "Xanadu" pegou emprestado do palácio de verão do imperador mongol Kublai Khan, era realmente baseado no castelo que Hearst construiu para si na california, com direito à uma piscina em marmore enfeitada com nada menos que um templo romano legítimo trazido da Europa, e um zoologico particular. Assim como a Xanadu de Kane, seu palácio jamais foi concluido totalmente em sua vida. Após o lançamento do filme, William Randolph Hearst, já idoso, usou de todo seu prestígio e fortuna (que eram muitos) para perpetuar uma campanha de boicote ao filme, o que explica em parte seu baixo publico na ocasião de sua saída em sala, e a aura de maldito precocemente construida em torno de Welles, já em sua estréia como realizador. Outros traços do personagem vinham diretamente da biografia de outros miliardários de então, entre eles do também cinematográfico Howard Hughes.

O Kane de Orson Welles era um sujeito maior que o mundo, talentoso, rico, poderoso, e manipulador. Dono de um império econômico cujo carro chefe eram os jornais de imprensa marrom, trazia em si um vazio incompreensível que carregou até o momento de sua morte, quando pronunciou a enigmática expressão "Rosebud", palavra que serve como fio condutor para o desenvolvimento de toda história em flashback. Uma coisa interessante no filme, é que muitas dúvidas em torno de Kane ainda pairam no ar ao final do filme, o que talvez amplifique a mítica em torno do mesmo. Para o elenco Welles usou atores novatos, rostos desconhecidos do público, inclusive o dele próprio. Todos sem os vícios caricaturais típicos da era de ouro de Hollywood, o que confere maior naturalidade às representações. Para completar, Welles foi o homem das gambiarras, e com isso disfarçava bem a impressão de confinamento de um estúdio. Num tempo em que tudo era filmado em estúdios fechados, cujos tetos eram repletos de holofotes e cabos, improvisava tetos falsos em cartolina, e desta forma podia filmar os atores à partir do chão, coisa que não se fazia na época. Deu carta branca aos seus cameras e diretores de fotografia, que puderam experimentar novas tecnologias e filmes de diferentes velocidades. Um efeito notável para o momento era o multi foco que alinhava dentro do mesmo quadro diferentes profundidades sem que o foco se perdesse. A sequência que se tornou antológica é aquela que trata da adoção do pequeno Kane, na qual se vêem os adultos discutindo dentro da sala e o menino é visto ao fundo através da janela, brincando despreocupado com o seu amado treno na neve, e cada camada do plano está perfeitamente focada. O efeito narrativo, poético e estético dessa profundidade de campo dentro do espaço fílmico foi notável. Se nos primórdios do cinema, desde os irmãos Lumière, a profundidade de campo era algo relativamente presente, ela "desapareceria" misteriosamente nos anos do cinema mudo e só reencontraria seu lugar no cinema com Wells. Assim como, na pintura, a perspectiva desapareceu durante a idade média para ressurgir triunfante nas obras dos artistas renascentistas que se baseavam nos pintores da antiguidade clássica, Welles trouxe de volta a perspectiva ao cinema.




Mesmo sendo um filme clássico, feito no período do classissismo Hollywoodiano, Cidadão Kane transgredia inúmeras de suas regras estéticas e de narratologia. Era um filme que exigia mais da audiência que seus congêneres, e cuja transparência típica de Hollywood era quebrada por movimentos de câmeras inovadores, uma linearidade que fugia do óbvio, uma diégese menos obvia, e também por uma certa dose de auto-reflexão. Essa nova sintaxe apresentada por Welles explicaria também, fora as questões políticas, o baixo interesse do publico naquele momento pelo filme. Um filme, qualquer filme, é um compromisso entre a esfera de criação e a esfera do espectador, que naquele momento, simplesmente não possuia as "ferramentas" semânticas necessárias para decriptar o filme. Sendo assim, numa análise poético-histórica, o filme ganha mais ainda em virtude, por sua função pedagógica, de ensinar a linguagem proposta por ele ao espectador, de modo que hoje em dia todos conhecem o significado das formas que Welles usou para contar sua história. Ao longo dos anos o vocabulário de Welles se infiltou no cinema de maneira permanente de modo a fazer parte dele, como se sempre tivesse existido, e todo espectador entende imediatamente o sentido. 

Escolher um filme apenas como o mais importante da história seria um pouco arriscado. Eu, sinceramente não teria coragem de ser assim tão taxativo nesta opinião, quem sou eu afinal para ter este tipo de certeza. Mas o fato é que Cidadão Kane é, dentro do senso comum quase que unanimamente considerado como filme mais importante já realizado. O que sei é que "Cidadão Kane" possui de fato as qualidades para figurar entre os filmes mais célebres já feitos, e sem dúvida um dos mais influentes. É realmente um filme especial, um monumento histórico, uma aula de cinema, o retrato de um momento, o testemunho de um gênio, entre outras coisas. Seu legado é inquestionável e sua marca única. Assisti-lo é obrigaçao para um cinéfilo aplicado. É a missa de domingo, o sacrifício no altar do cinéfilo.

Título Original: Cidadão Kane
Ano: 1941
Diretor: Orson Welles
País: USA
Awards: New York Film Critics Circle Awards / Oscar
/ National Film Preservation Board, USA / Satellite Awards 



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O signo do leão




Um insolente musico americano que vive em Paris, descobre que seus problemas financeiros acabaram após a morte de uma tia milionária, que lhe deixa uma enorme fortuna. Festeiro e hedonista, começa a celebrar imediatamente seu novo estilo de vida. Porém, não contava com a existência de um primo distante, que também beneficiário da herança, frustrará seus planos. Primeiro longa de Eric Rohmer, clássico absoluto, que faz parte da santíssima trindade da nouvelle vague, tendo sido realizado entre Os incompreendidos de Truffaud, e Acossados de Godard, dois outro filmes não escolares que gozaram do ingênuo frescor criativo do novo cinema francês (e mundial) que se desenhava. O filme é, à exemplo dos outros dois carros-chefe do movimento, uma espécie de síntese estilística da Nouvelle Vague. A narrativa austera de uma história simples encontra amparo na sobriedade e na econômia típicas do movimento, cuja espontaniedade das cenas rodadas em externa e em cenários naturais amplificam o caráter realista do filme, uma vez que a Nouvelle Vague tinha também o realismo italiano como forte referência. Eu inclusive vejo uma correlação bastante justificável, guardadas as devidas proporções, deste filme com Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica.





A evidente relativa inexperiência de Rohmer, à exemplo das estréias de Truffaud e de Godard, agregam de certa forma valor ao filme, e lhe conferem um adorável ar documental. Muito embora vários planos e soluções já possuam um ar bastante "profissional". Como toda estréia, o filme ainda não trazia uma "marca" bem definida do autor, mas já apresentava elementos que marcariam a obra de Rohmer, tais quais: a finalidade intima de suas obras, que não eram feitas com a intenção de atingir uma grande audiência. Ele costumava também utilizar pouca ou nenhuma musica em seus filmes, pois as considerava como um "narrador" extra, uma espécie de muleta que completaria aquilo que o autor falhou em transmitir por imagens. Outra característica sua é a presença de filmagens em externas. Rohmer as adorava, e na sua estréia isso é mais que evidente. Se Paris foi a musa maior do movimento, em nenhum outro filme que assisti da Nouvelle Vague essa impressão fica mais clara. Fotografada em preto e branco de seus mais diversos angulos, o filme celebra a cidade e seus habitantes de maneira evidente.






Um tema recorrente em seus filmes, do personagem altivo e cheio de orgulho, aparece também pela primeira vez aqui, na figura do músico preguiçoso, que sendo do signo de Leão, acredita que é a providência zodiacal que lhe salvará em momentos de dificuldade. Narrado em dois grandes capítulos que abordam de forma evidente certos aspectos da natureza humana, vividos por pessoas comuns - o que é uma característica da nouvelle vague, e repito, do realismo italiano - este belo filme, que é bem menos afamado que seus congêneres imediatos, mereceria uma sessão respeitosa de todo cinéfilo que valoriza o prazer estético de assistir um filme orgânico e artesanal. Como bônus, temos uma ponta de Jean Luc Godard, amigo de Rohmer no Cahiers du Cinéma, como um maníaco que escuta o mesmo disco diversas vezes. Clássico.


                         



Título Original: Le signe du Lion
Ano: 1962 (produzido em 1959)
Diretor: Eric Rhomer
País: França
Awards: Nenhum


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