sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Cidadão Kane




Para "comemorar" a postagem de numero 400 deste blog, achei simbólico postar um filme mítico: Cidadão kane. Bem, um blog de cinema deveria ter este filme como sua postagem numero 1, mas há cinco anos atrás, quando criei esse blog, pensava em limitar o interesse do mesmo à pequenos filmes alvos de minha afeição, filmes cult, esquecidos, estilo brechó. Afinal, do que valeria me lançar sobre filmes sobre os quais se encontra material farto em todas as partes ? (E certamente melhor escritos). Com o passar dos anos, meus objetivos (que sempre foram modestos, pessoais) em relação à este blog acabaram por se diversificar. Inicialmente tinha o idealismo de colaborar na divulgação dos torrents de filmes geniais e raros que circulam na net, ao mesmo tempo que teria a oportunidade de entrar em contato com outros admiradores (o que aconteceu muito pouco). Mais tarde ele foi se transformando pouco à pouco em uma via de extração para a minha peculiar compulsão por escrever. Um caderno pessoal de cinema, que qualquer um pode olhar se quiser, embora eu não esteja certo de que alguém o faça. 




Minha relação com Cidadão Kane começou quando minha irmã mais velha, uma pessoa muito acadêmica e erudita por sinal, apareceu em casa com uma fita VHS do filme, que se comprava em bancas de jornal, como era costume uma época. Naturalmente o assisti, como aliás fazia com qualquer coisa que me caísse em mãos. O interessante foi que o assisti candidamente, já que ainda ignorava sua dimensão lendária. Me lembro que fiquei bastante impressionado, e o considerei "diferente", denso, sobretudo para um filme clássico, "antigo". Depois disso, na progressão do meu interesse por cinema, frequentemente me deparava com referências à obra em alguma resenha, livro, filmes e cultura popular (muitas e muitas), e obviamente nos famosos "rankings dos melhores filmes da história", onde comumente figura no topo da lista. Aprendi sua importância e o revi. E depois de novo, e de novo... Fiquei uns anos sem vê-lo, e há uma semana, dentro do meu projeto pessoal "revendo clássicos" , voltei à ele com enorme prazer, e acabei assistindo duas vezes.




No início dos século 18, o poeta britânico Thomas Gray escreveu em um de seus poemas a célebre linha "ignorance is bliss" (que conheci primeiro através de Joey Ramone mesmo). "A ignorância é uma benção", cuja idéia central é a de que a falta de conhecimento pode resultar em felicidade, e que alguém estará mais confortável dentro de uma situação quanto menos sabe das coisas que estão em jogo nela. É apenas quando se conhecem tais fatores que alguém poderá sentir tímidez ou medo.  Dentro de todas as virtudes de Cidadão Kane, a coisa que mais me agrada é saber que toda a sua inventividade e originalidade revolucionárias, são frutos da cabeça abusada de Orson Welles, que realizava então o seu primeiro longa metragem. Como ele mesmo declarou, quando foi perguntado sobre a fonte de tamanho gênio, ele disse que tudo foi fruto da sua "ignorância" e desconhecimento de causa. Tudo era criado à medida que o filme era executado, de maneira pura, ingênua mesmo, e deu no que deu. Welles foi um destes sujeitos que tanto admiro: já começam prontos. Sem nenhum academicismo limitador. Seu primeiro dia dirigindo um longa metragem foi também seu primeiro dia na escola de cinema, e suas referências eram o que tinha visto nas salas de projeção. Nesse sentido me lembra muito nosso muito amado Mojica, que também traz o cinema dentro de si como uma segunda natureza.




Através de uma narrativa bastante original na época (mas depois amplamente institucionalizada na linguagem do cinema) Welles nos desvendava pouco a pouco o enigma que era seu personagem central, o tal Cidadão kane, através de depoimentos dados à um jornalista que investigava sua história, fornecidos em flash back (também uma técnica ainda pouco explorada) por personagens que fizeram parte dos acontecimentos narrados. Como o personagem Kane era um magnata da imprensa, essa confluência da estética jornalística como elemento de narrativa ganha ainda mais relevância na criação da ambiência do filme, onde a visão midiática do mundo é que define a relevância dos fatos. Welles criava de quebra, o que seria o esqueleto do formato documentário jornalístico até nossos dia. Porque o filme é exatamente isso, um marco zero do sub-gênero "falso-documentário". Nada mais natural, já que ele era, originalmente, um radialista da era pré televisão, o que significava muita coisa naquele momento.

Foi exatamente como radialista que Welles chamou atenção de Hollywood. Três anos antes ele havia produzido uma emissão especial na radio CBS para festejar o Halloween: A "Guerra dos mundos", do seminal novelista inglês HG Wells. Welles, já utilizando-se do jornalismo como elemento de narrativa, apresentava boletins simulados "ao vivo", descrevendo o horror da chegada dos marcianos na terra. Ele empregou tamanho realismo na empreitada, que parte da audiência que ignorava tratar-se de uma ficção, acabou por gerar uma onda de pânico e histeria coletiva. Uma vez desfeito o mal entendido, seguiu-se um grande clamor de indignação pública, envolvendo inclusive uma investigação federal no caso. Esse acontecimento, por si só cinematográfico, chamou a atenção imediatamente dos cabeças de Hollywood, que cientes do fato que o cinema é a arte de saber iludir, perceberam estar diante de um mestre. Welles foi contratado para dois filmes pela RKO. Ele não se fez de rogado e pediu carta branca para escalar o elenco e ter controle total de seu projeto, algo raro numa época em que o diretor era tido como mero funcionário do estúdio, e não um realisador pleno. O conceito de "filme de autor" só surgiria anos depois com o estabelecimento do modernismo europeu do pós guerra.




Com a faca e o queijo na mão, tirou logo da manga uma idéia que cultivava há anos: contar a história de alguma grande figura pública americana facilmente identificável pela audiência, da infância até sua morte, através dos relatos daqueles que conviveram com ele. Como Welles era novato no ofício, contou com a ajuda do roteirista veterano Herman J. Mankiewicz, que adicionou inumeras idéias pessoais para compor o personagem. O que resultou deste trabalho foi o maior expoente do cinema en clef de todos os tempos, isto é, uma história real mal disfarçada, mas que obviamente os espectadores identificam relaciona com os fatos reais. Kane era um apanhado de diversas figuras publicas, mas principalmente do multimilionário americano do setor editorial William Randolph Hearst. Sua enorme fortuna, suas aventuras políticas e extra-conjugais foram as principais fontes de inspiração para Kane. A nababesca propriedade do personagem de Welles, verdadeiro Éden delirante, cujo nome "Xanadu" pegou emprestado do palácio de verão do imperador mongol Kublai Khan, era realmente baseado no castelo que Hearst construiu para si na california, com direito à uma piscina em marmore enfeitada com nada menos que um templo romano legítimo trazido da Europa, e um zoologico particular. Assim como a Xanadu de Kane, seu palácio jamais foi concluido totalmente em sua vida. Após o lançamento do filme, William Randolph Hearst, já idoso, usou de todo seu prestígio e fortuna (que eram muitos) para perpetuar uma campanha de boicote ao filme, o que explica em parte seu baixo publico na ocasião de sua saída em sala, e a aura de maldito precocemente construida em torno de Welles, já em sua estréia como realizador. Outros traços do personagem vinham diretamente da biografia de outros miliardários de então, entre eles do também cinematográfico Howard Hughes.

O Kane de Orson Welles era um sujeito maior que o mundo, talentoso, rico, poderoso, e manipulador. Dono de um império econômico cujo carro chefe eram os jornais de imprensa marrom, trazia em si um vazio incompreensível que carregou até o momento de sua morte, quando pronunciou a enigmática expressão "Rosebud", palavra que serve como fio condutor para o desenvolvimento de toda história em flashback. Uma coisa interessante no filme, é que muitas dúvidas em torno de Kane ainda pairam no ar ao final do filme, o que talvez amplifique a mítica em torno do mesmo. Para o elenco Welles usou atores novatos, rostos desconhecidos do público, inclusive o dele próprio. Todos sem os vícios caricaturais típicos da era de ouro de Hollywood, o que confere maior naturalidade às representações. Para completar, Welles foi o homem das gambiarras, e com isso disfarçava bem a impressão de confinamento de um estúdio. Num tempo em que tudo era filmado em estúdios fechados, cujos tetos eram repletos de holofotes e cabos, improvisava tetos falsos em cartolina, e desta forma podia filmar os atores à partir do chão, coisa que não se fazia na época. Deu carta branca aos seus cameras e diretores de fotografia, que puderam experimentar novas tecnologias e filmes de diferentes velocidades. Um efeito notável para o momento era o multi foco que alinhava dentro do mesmo quadro diferentes profundidades sem que o foco se perdesse. A sequência que se tornou antológica é aquela que trata da adoção do pequeno Kane, na qual se vêem os adultos discutindo dentro da sala e o menino é visto ao fundo através da janela, brincando despreocupado com o seu amado treno na neve, e cada camada do plano está perfeitamente focada. O efeito narrativo, poético e estético dessa profundidade de campo dentro do espaço fílmico foi notável. Se nos primórdios do cinema, desde os irmãos Lumière, a profundidade de campo era algo relativamente presente, ela "desapareceria" misteriosamente nos anos do cinema mudo e só reencontraria seu lugar no cinema com Wells. Assim como, na pintura, a perspectiva desapareceu durante a idade média para ressurgir triunfante nas obras dos artistas renascentistas que se baseavam nos pintores da antiguidade clássica, Welles trouxe de volta a perspectiva ao cinema.




Mesmo sendo um filme clássico, feito no período do classissismo Hollywoodiano, Cidadão Kane transgredia inúmeras de suas regras estéticas e de narratologia. Era um filme que exigia mais da audiência que seus congêneres, e cuja transparência típica de Hollywood era quebrada por movimentos de câmeras inovadores, uma linearidade que fugia do óbvio, uma diégese menos obvia, e também por uma certa dose de auto-reflexão. Essa nova sintaxe apresentada por Welles explicaria também, fora as questões políticas, o baixo interesse do publico naquele momento pelo filme. Um filme, qualquer filme, é um compromisso entre a esfera de criação e a esfera do espectador, que naquele momento, simplesmente não possuia as "ferramentas" semânticas necessárias para decriptar o filme. Sendo assim, numa análise poético-histórica, o filme ganha mais ainda em virtude, por sua função pedagógica, de ensinar a linguagem proposta por ele ao espectador, de modo que hoje em dia todos conhecem o significado das formas que Welles usou para contar sua história. Ao longo dos anos o vocabulário de Welles se infiltou no cinema de maneira permanente de modo a fazer parte dele, como se sempre tivesse existido, e todo espectador entende imediatamente o sentido. 

Escolher um filme apenas como o mais importante da história seria um pouco arriscado. Eu, sinceramente não teria coragem de ser assim tão taxativo nesta opinião, quem sou eu afinal para ter este tipo de certeza. Mas o fato é que Cidadão Kane é, dentro do senso comum quase que unanimamente considerado como filme mais importante já realizado. O que sei é que "Cidadão Kane" possui de fato as qualidades para figurar entre os filmes mais célebres já feitos, e sem dúvida um dos mais influentes. É realmente um filme especial, um monumento histórico, uma aula de cinema, o retrato de um momento, o testemunho de um gênio, entre outras coisas. Seu legado é inquestionável e sua marca única. Assisti-lo é obrigaçao para um cinéfilo aplicado. É a missa de domingo, o sacrifício no altar do cinéfilo.

Título Original: Cidadão Kane
Ano: 1941
Diretor: Orson Welles
País: USA
Awards: New York Film Critics Circle Awards / Oscar
/ National Film Preservation Board, USA / Satellite Awards 



4 comentários:

  1. Obrigado pelo fabuloso blog, Vader. Isto aqui é uma mina de ouro!

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  2. Obrigado por suas palavras anônimo.

    Abs !

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  3. Caramba! Que surpresa agradável numa noite de domingo!!!
    Procurando torrents pelo google acabei caindo aqui.
    E agora não consigo mais sair.

    Parabéns pela dedicação.
    É importante manter a chama do blogueiro apaixonado acesa.
    =)

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  4. Prezado Dave,

    Obrigado por suas palavras. Gostei da chama do blogueiro apaixonado.
    pareça sempre

    Abs
    Vader

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