quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O signo do leão




Um insolente musico americano que vive em Paris, descobre que seus problemas financeiros acabaram após a morte de uma tia milionária, que lhe deixa uma enorme fortuna. Festeiro e hedonista, começa a celebrar imediatamente seu novo estilo de vida. Porém, não contava com a existência de um primo distante, que também beneficiário da herança, frustrará seus planos. Primeiro longa de Eric Rohmer, clássico absoluto, que faz parte da santíssima trindade da nouvelle vague, tendo sido realizado entre Os incompreendidos de Truffaud, e Acossados de Godard, dois outro filmes não escolares que gozaram do ingênuo frescor criativo do novo cinema francês (e mundial) que se desenhava. O filme é, à exemplo dos outros dois carros-chefe do movimento, uma espécie de síntese estilística da Nouvelle Vague. A narrativa austera de uma história simples encontra amparo na sobriedade e na econômia típicas do movimento, cuja espontaniedade das cenas rodadas em externa e em cenários naturais amplificam o caráter realista do filme, uma vez que a Nouvelle Vague tinha também o realismo italiano como forte referência. Eu inclusive vejo uma correlação bastante justificável, guardadas as devidas proporções, deste filme com Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica.





A evidente relativa inexperiência de Rohmer, à exemplo das estréias de Truffaud e de Godard, agregam de certa forma valor ao filme, e lhe conferem um adorável ar documental. Muito embora vários planos e soluções já possuam um ar bastante "profissional". Como toda estréia, o filme ainda não trazia uma "marca" bem definida do autor, mas já apresentava elementos que marcariam a obra de Rohmer, tais quais: a finalidade intima de suas obras, que não eram feitas com a intenção de atingir uma grande audiência. Ele costumava também utilizar pouca ou nenhuma musica em seus filmes, pois as considerava como um "narrador" extra, uma espécie de muleta que completaria aquilo que o autor falhou em transmitir por imagens. Outra característica sua é a presença de filmagens em externas. Rohmer as adorava, e na sua estréia isso é mais que evidente. Se Paris foi a musa maior do movimento, em nenhum outro filme que assisti da Nouvelle Vague essa impressão fica mais clara. Fotografada em preto e branco de seus mais diversos angulos, o filme celebra a cidade e seus habitantes de maneira evidente.






Um tema recorrente em seus filmes, do personagem altivo e cheio de orgulho, aparece também pela primeira vez aqui, na figura do músico preguiçoso, que sendo do signo de Leão, acredita que é a providência zodiacal que lhe salvará em momentos de dificuldade. Narrado em dois grandes capítulos que abordam de forma evidente certos aspectos da natureza humana, vividos por pessoas comuns - o que é uma característica da nouvelle vague, e repito, do realismo italiano - este belo filme, que é bem menos afamado que seus congêneres imediatos, mereceria uma sessão respeitosa de todo cinéfilo que valoriza o prazer estético de assistir um filme orgânico e artesanal. Como bônus, temos uma ponta de Jean Luc Godard, amigo de Rohmer no Cahiers du Cinéma, como um maníaco que escuta o mesmo disco diversas vezes. Clássico.


                         



Título Original: Le signe du Lion
Ano: 1962 (produzido em 1959)
Diretor: Eric Rhomer
País: França
Awards: Nenhum


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