sábado, 29 de novembro de 2014

Solaris






Em um futuro próximo, os humanos constroem uma base espacial localizada no distante planeta oceânico Solaris. Entretanto, começam a circular rumores nos bastidores terrestres da missão, de que formas humanoides fortuitas tem sido avistadas pelos ocupantes da base. Para avaliar a veracidade da situação, um psicólogo é enviado até a estação. 

Solaris é um filme-monumento. Um daqueles raros momentos no cinema em que o timing é perfeito e absolutamente tudo dá certo e funciona bem do início ao fim. Concebido como um filme de ficção científica, ele pode ser entendido mais como um tratado sobre a filosofia da ciência, mas que também não fica só por aí. Solaris é claramente dividido em dois grandes capítulos. A primeira parte do filme, eu diria, é um angustiante filme de horror psicológico, enquanto que a segunda parte se transforma em uma densa alegoria que gira em torno de profundas questões existenciais e psicanalíticas. Assistir Solaris é uma experiência que provoca reflexões e exige mesmo uma certa introspecção do espectador.





Assistir Solaris provoca um primeiro reflexo de associá-lo à 2001, de outro mestre, Kubrick. Muitos críticos de cinema o apontam inclusive como um plágio do primeiro, o que é uma tolice sem fim, uma vez que cada um deles é baseado em romances de ficção científica distintos que antecedem ambos os filmes em anos, então esta acusação não merece nenhum crédito. Outros entendem a dualidade Solaris x 2001, como um prolongamento, no campo fílmico, da corrida espacial e ideológica que travavam os blocos capitalistas e comunistas numa era em que o planeta era assumidamente bipolar. Essa associação seria mais justificável, porque Solaris, pode ser visto sim, como um herdeiro imediato de 2001. Com sua obra prima, Kubrick liberava finalmente o subgênero "viagem espacial" do universo circense e de pura fantasia de Buck Rogers, Flash Gordon, e de tantos filmes espaciais de série B que reinaram até os anos 50. À partir do 2001 de Kubrick, o gênero passa a servir como uma espécie de especulação metafísica, na qual a viagem espacial é vista como metáfora de uma jornada interior, intima, e que posicionaria o homem-fragilizado diante do infinito, à par de todo o vazio e absurdo da sua própria existência. E Solaris compartilha com 2001 essa particularidade, de colocar  o ser humano em perspectiva, em situação de total insignificância face ao desconhecido, de modo a esmagar-lhe completamente o ego. 




A diferença é que Solaris é um filme intimo, artesanal e não solta fogos de artifício como 2001, cujas intenções eram bem mais ambiciosas. Solaris é bem mais econômico, não apenas no sentido de orçamento, mas no sentido de economia fílmica mesmo. A cenografia é frugal, mas extremamente coerente com seu discurso. Para completar, durante a primeira metade de Solaris, o uso do espaço cinematográfico é inteligente, e boa parte da ação se passa fora do campo, isto é, fora da cena que se vê nos planos, ou seja, dentro da imaginação do espectador. A segunda metade é uma vitrine, teatral, épica, sensacional.

Andre Tarkovisky é um antigo predileto da casa. Já apareceu por aqui há alguns anos com O espelho e Andrei Rublev, um dos meus filmes prediletos de todos os tempos. É considerado comumente um dos maiores cineastas da história, e era ídolo de ninguém menos que Ingmar Bergman, o que convenhamos, não é pouca coisa.  Solaris é evidentemente impregnado de sua gramática, e com espaço para a auto-reflexão: de Andrei Rublev vê-se um ícone ortodoxo do pintor, que decora um muro da estação. De O espelho, que já existia na mente do diretor, vê-se um pouco do filme em vários planos. O fato é que Tarkovsky era um mestre, do tipo sereno e discreto. Também um teórico de cinema, escreveu o impressionante le temps scélé, sobre as implicações filosóficas da manipulação do tempo no cinema. Sou um enorme admirador de seu trabalho, que me toca profundamente. 

O cinema de Tarkovsky foi produzido em um período especial da União Soviética, e cada um dos seus filmes é muito claramente, também um reflexo deste momento: a URSS estável da era de Brejnev, de meados dos anos 60 até final dos anos 70 quando a invasão do Afeganistão exumaria mais uma vez o cadáver putrefato do czarismo russo. Mas antes deste equívoco, a União Soviética viveu um momento de estabilidade que fez dela um lugar bem mais familiar aos olhos ocidentais. A economia planificada, aproximou muito a sociedade soviética de uma sociedade de consumo ocidental (Moscou não acredita em lágrimas é um fabuloso retrato deste momento). A estabilidade econômica provocou também a estabilidade na esfera social. O nome "Stalin" não era mais pronunciado, a diplomacia prosperava. Acreditar que a Perestroika e a Glasnost apareceram da noite para o dia com Gorbatchev, nos anos 80 é ingênuo e pueril. Isso foi apenas a culminação de um processo que o cinema de Tarkovsky, que nunca teve intenções ideológicas de um Eisenstein por exemplo, documenta bem através da ficção. 

Caso o eventual leitor compartilhe comigo o enorme fascínio que tenho pela história russa e soviética (atenção, nada à ver com possíveis convicções políticas pessoais, pois sou e morrerei como um livre pensador) sugiro humildemente a leitura do livro "O século Soviético", de Mosh Levin, editado em português pela editora Record, que cobre em detalhes cada aspecto da utopia soviética que durou apenas 70 anos. Quanto à Solaris, sei que foi feito um remake americano do filme há alguns anos, do qual não pretendo jamais me aproximar, não por preconceito, mas por medo do que eu possa porventura encontrar. 





Título Original: Солярис
Ano: 1982
Diretor: Andrei Tarkovsky
País: União Soviética


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Toda a memória do mundo






Espetacular filme-documentário de 20 minutos em que o grande realizador Alain Resnais lança um olhar sobre a Biblioteca Nacional da França, venerável instituição que abriga um patrimônio histórico-cultural inestimável, que inclui por exemplo, manuscritos de Proust, Boudelaire, Emile Zola, Balzac, Debussy, Flauber, Victor Hugo, entre tantos outros textos de autores que formam o panteão literário do ocidente. Ele foi filmado ainda no antigo prédio da instituição (atualmente há um bem mais moderno, mas o primeiro ainda continua ativo), Resnais, aparentemente possuído, nos oferece uma experiência visual espetacular. A cenografia épica transmite do primeiro ao ultimo plano a ideia do arquivo, do conhecimento, do saber, como algo maior que a vida. Cada plano glorifica e comunica a ideia de seu poder quase divino. Nada mais natural vindo do país onde a doutrina cartesiana da razão fundiu-se à própria identidade nacional. Os seres humanos, raros, são fotografados sempre em planos em que parecem "esmagados" ou "pequenos" frente à tamanha força.  Já fazia 5 anos que Alain Resnais não aparecia aqui no blog (desde Guernica). Nesse período, o diretor, ele mesmo um monumento, desapareceu, mas sua rica filmografia vai durar para sempre. 


                      


Título Original: Toute la memoire du monde
Ano: 1956
Diretor: Alain Resnais
País : França

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Demônios e Maravilhas






Em meados da década de 70, o realizador brasileiro de cinema fantástico, José Mojica Marins, atravessava um período muito complicado de sua vida. Já longe do auge criativo da década anterior, afogado em dívidas, e se dizendo vítima de uma "máfia do cinema" nacional, Mojica acabou sofrendo um ataque cardíaco, que lhe renderia um mês de hospital. De fato, o momento era horrível para Mojica. Após a instituição da Embrafilme, fazer cinema no Brasil tornou-se quase impossível, a menos que o diretor fosse um apadrinhado do órgão, o que não era de jeito nenhum o caso de Mojica. "O despertar da besta", uma de suas esperanças de sair da penúria, havia sido interditado pela censura federal, e não tinha previsão de lançamento (só sairia 13 anos depois de pronto). Sua fama de maldito começava a tomar forma, chegando a ser preso por estelionato sob a acusação de vender cotas de um filme inexistente, mas foi inocentado das acusações. Para sobreviver, Mojica se viu forçado a realizar pornochanchadas na boca do lixo, que de tamanha vergonha, sequer as assinava com o próprio nome. Sua vida pessoal também não era um paraíso. Bebia como um peixe, fumava como um dragão, alimentava-se mal (torresmo, calabresa e ovo de codorna), e ainda tinha que dar conta de 6 filhos que tinha com 3 mulheres ao mesmo tempo (ainda arrumaria tempo para ter mais um filho com uma quarta mulher). Para piorar, perdeu seu querido pai no meio deste turbilhão, e foi ameaçado de um novo processo na justiça. Desta vez foi demais, e o coração de Mojica pifou.

É justamente o retrato desta época difícil, que Mojica dramatizou e montou nesta espécie de documentário heroico sobre si mesmo e sobre seu séquito de seguidores. Usando de uma narração poética e de uma trilha sonora grandiosa (provavelmente surrupiada, com Pink Floyd, Vangelis, tema de 007, etc), Mojica criou um retrato épico e megalomaníaco de si mesmo, e nos lembra que ele é antes de mais nada, o rei da auto-promoção. O resultado é curioso, e até mesmo estranhamente bom, como todo o mais que leva o selo Mojica de qualidade. O filme transforma involuntariamente o dramático em cômico e o trágico em patético, através de sua mise-en-scène tosca e improvisada. Contudo, existem algumas sequências esteticamente interessantes, como a figuração de sua muito propagada experiência de quase morte (em que se vê solitário em um desolador deserto de gelo, pelo qual é engolido), ou a representação do seu calvário junto à "máfia do cinema", com belos planos de plongée, com uma bela iluminação, e uma composição primorosa (lembra a imagem de um covil criminoso em um filme noir). É justamente essa mistura de podridão e perfume que torna suas obras fascinantes, e suscita em todos o questionamento eterno: Mojica é um gênio ou um louco ?

Talvez um pouco dos dois. Mas Mojica é antes de mais nada um cineasta nato, selvagem, formidavelmente irresponsável, que sem jamais ter frequentado uma escola de cinema, realizou filmes primitivistas e primitivos, antropofágicos, cuja classificação é algo difícil de se estabelecer. Sem duvida criou uma gramática própria de horror, um estilo brutal, direto, cru, que acabaria por colocar, ainda que tardiamente, seu nome ao lado dos grandes. Pelo menos dos grandes entre os pequenos. Junto de suas habilidades como artista, está o seu indiscutível carisma. Mojica é um bonachão de personalidade magnética, capaz de se comunicar com todas as classes sócio-culturais, e de atrair os olhares da mídia como abelha no doce há mais de 50 anos. É justamente sobre esse seu traço de caráter, que o filme se porta de fato documental: Mojica é mostrado sempre rodeado de amigos, de seus alunos e seguidores, de seu assistente Satã, de sua querida mãe, e de sua companheira "principal" na época, Nilce, a italiana loura que montava seus filmes. Ele também aparece adulado por personalidades célebres, como Pelé por exemplo, numa festa que celebra os 15 anos do caixão de Zé.

No Brasil, todos conhecem muito bem o seu personagem símbolo, suas unhas compridas e sua cartola de mágico, mas poucos viram de fato seus filmes. Mas independente deste paradoxo, Mojica é o cinema, e ponto final. Não importa se o seu trabalho tem um valor estético maior ou menor do que qualquer outro cinema, porque isso é irrelevante diante do seu sacerdócio pelo ofício, quase comovente. Dentre as tantas lendas e bravatas que Mojica adora proferir, ele já declarou que seu sonho é morrer dirigindo um filme, bem no meio de um take, e eu espero que seu sonho se realize. Mas o que eu mais temo é que, no dia em que isso acontecer, uma multidão de aproveitadores, carpideiras, papa-defuntos, venha à publico para dizer o que até as pedras já sabem, mas que quase nunca é dito ou lembrado enquanto ele está vivo e possa ouvir: Mojica é um dos maiores homem de cinema que o Brasil já teve. 





Título Original: Demônios e Maravilhas
Ano: 1976 (concluído em 1987)
Diretor: José Mojica Marins
País: Brasil
Awards: Nenhum
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...