quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Demônios e Maravilhas






Em meados da década de 70, o realizador brasileiro de cinema fantástico, José Mojica Marins, atravessava um período muito complicado de sua vida. Já longe do auge criativo da década anterior, afogado em dívidas, e se dizendo vítima de uma "máfia do cinema" nacional, Mojica acabou sofrendo um ataque cardíaco, que lhe renderia um mês de hospital. De fato, o momento era horrível para Mojica. Após a instituição da Embrafilme, fazer cinema no Brasil tornou-se quase impossível, a menos que o diretor fosse um apadrinhado do órgão, o que não era de jeito nenhum o caso de Mojica. "O despertar da besta", uma de suas esperanças de sair da penúria, havia sido interditado pela censura federal, e não tinha previsão de lançamento (só sairia 13 anos depois de pronto). Sua fama de maldito começava a tomar forma, chegando a ser preso por estelionato sob a acusação de vender cotas de um filme inexistente, mas foi inocentado das acusações. Para sobreviver, Mojica se viu forçado a realizar pornochanchadas na boca do lixo, que de tamanha vergonha, sequer as assinava com o próprio nome. Sua vida pessoal também não era um paraíso. Bebia como um peixe, fumava como um dragão, alimentava-se mal (torresmo, calabresa e ovo de codorna), e ainda tinha que dar conta de 6 filhos que tinha com 3 mulheres ao mesmo tempo (ainda arrumaria tempo para ter mais um filho com uma quarta mulher). Para piorar, perdeu seu querido pai no meio deste turbilhão, e foi ameaçado de um novo processo na justiça. Desta vez foi demais, e o coração de Mojica pifou.

É justamente o retrato desta época difícil, que Mojica dramatizou e montou nesta espécie de documentário heroico sobre si mesmo e sobre seu séquito de seguidores. Usando de uma narração poética e de uma trilha sonora grandiosa (provavelmente surrupiada, com Pink Floyd, Vangelis, tema de 007, etc), Mojica criou um retrato épico e megalomaníaco de si mesmo, e nos lembra que ele é antes de mais nada, o rei da auto-promoção. O resultado é curioso, e até mesmo estranhamente bom, como todo o mais que leva o selo Mojica de qualidade. O filme transforma involuntariamente o dramático em cômico e o trágico em patético, através de sua mise-en-scène tosca e improvisada. Contudo, existem algumas sequências esteticamente interessantes, como a figuração de sua muito propagada experiência de quase morte (em que se vê solitário em um desolador deserto de gelo, pelo qual é engolido), ou a representação do seu calvário junto à "máfia do cinema", com belos planos de plongée, com uma bela iluminação, e uma composição primorosa (lembra a imagem de um covil criminoso em um filme noir). É justamente essa mistura de podridão e perfume que torna suas obras fascinantes, e suscita em todos o questionamento eterno: Mojica é um gênio ou um louco ?

Talvez um pouco dos dois. Mas Mojica é antes de mais nada um cineasta nato, selvagem, formidavelmente irresponsável, que sem jamais ter frequentado uma escola de cinema, realizou filmes primitivistas e primitivos, antropofágicos, cuja classificação é algo difícil de se estabelecer. Sem duvida criou uma gramática própria de horror, um estilo brutal, direto, cru, que acabaria por colocar, ainda que tardiamente, seu nome ao lado dos grandes. Pelo menos dos grandes entre os pequenos. Junto de suas habilidades como artista, está o seu indiscutível carisma. Mojica é um bonachão de personalidade magnética, capaz de se comunicar com todas as classes sócio-culturais, e de atrair os olhares da mídia como abelha no doce há mais de 50 anos. É justamente sobre esse seu traço de caráter, que o filme se porta de fato documental: Mojica é mostrado sempre rodeado de amigos, de seus alunos e seguidores, de seu assistente Satã, de sua querida mãe, e de sua companheira "principal" na época, Nilce, a italiana loura que montava seus filmes. Ele também aparece adulado por personalidades célebres, como Pelé por exemplo, numa festa que celebra os 15 anos do caixão de Zé.

No Brasil, todos conhecem muito bem o seu personagem símbolo, suas unhas compridas e sua cartola de mágico, mas poucos viram de fato seus filmes. Mas independente deste paradoxo, Mojica é o cinema, e ponto final. Não importa se o seu trabalho tem um valor estético maior ou menor do que qualquer outro cinema, porque isso é irrelevante diante do seu sacerdócio pelo ofício, quase comovente. Dentre as tantas lendas e bravatas que Mojica adora proferir, ele já declarou que seu sonho é morrer dirigindo um filme, bem no meio de um take, e eu espero que seu sonho se realize. Mas o que eu mais temo é que, no dia em que isso acontecer, uma multidão de aproveitadores, carpideiras, papa-defuntos, venha à publico para dizer o que até as pedras já sabem, mas que quase nunca é dito ou lembrado enquanto ele está vivo e possa ouvir: Mojica é um dos maiores homem de cinema que o Brasil já teve. 





Título Original: Demônios e Maravilhas
Ano: 1976 (concluído em 1987)
Diretor: José Mojica Marins
País: Brasil
Awards: Nenhum

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...