domingo, 28 de dezembro de 2014

A Rainha Diaba





Diaba é um travesti sádico e cheio de marra que comanda, dos fundos de seu próprio puteiro, o crime organizado na Lapa dos anos 70, numa época mais romântica do crime carioca, onde malandro ainda usava navalha. Mas um desequilíbrio no jogo de poder entre Diaba e seus asseclas pode acabar com o reinado da rainha. Filmaço, dirigido pelo veterano Antônio Carlos da Fontoura. A Rainha Diaba é a própria essência do imaginário que inspirou o já saudoso primeiro momento de Hermes e Renato: anos 70, malandragem, gírias impagáveis, indumentária de cabaré e violência. Em sua época pré Cidade de Deus, causou impacto, pela sua crueza, em diversas mostras e festivais europeus, tendo sido reprisado na exibição paralela do festival de Cannes deste ano. 






Contudo, o maior trunfo do filme é a fotografia realista de José Medeiros, o conhecido "poeta da luz", verdadeiro mestre no ofício. Medeiros foi um dos diretores de fotografia mais competentes do cinema brasileiro nos anos 70, fotógrafo discípulo de Henri Cartier Bresson, um verdadeiro artista. Em Diaba ele fez um lindo trabalho, e são inúmeros os planos onde a composição é impecável, os enquadramentos inventivos, cheios de poesia, além dos travellings de câmera bastante criativos e belos. Com certeza somou muito ao apelo do filme, que só por isso merece ser assistido pelo cinéfilo aplicado. Mas Rainha Diaba tem muito mais: um colorido e uma iluminação perfeitos, um elenco espetacular, uma história sólida, e a trilha sonora original que inclui momentos rock-jazzisticos de alta qualidade. Grande patrimônio do cinema brasileiro, e de um valor estético impressionante.


Título Original: A Rainha Diaba
Ano: 1974
Diretor: Antônio Carlos da Fontoura
País: Brasil
Awards : Festival do Cinema Brasileiro de Brasília / Prêmio de Qualidade do Instituto Nacional de Cinema / Cannes / Festival de Cinema de San Sebastian / 80 Ans de Cinéma Brésilien Centre Pompidou - Paris / Mostra Black Roots-Racines Noires, Milão e Paris / Prêmio Air France de Cinema / Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte



                       

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

The Interview




Dois jornalistas de um show popular da Tv americana conseguem uma entrevista com o líder supremo da Coréia do Norte, Kim Jong Un, mas acabam recebendo uma missão extra da CIA: matar o homem. Fazia muitos anos que um filme não provocava tanto barulho em torno de seu lançamento. A entrevista conseguiu um grau de atenção que nunca, jamais alcançaria se não fosse a retaliação violenta e as ameaças lançadas pelos supostos "hackers" da Coréia do Norte. A Sony recuou e suspendeu o lançamento do filme, e a América, acovardada, expôs uma fraqueza surpreendente: se curvou perante as ameaças, e terminou com a imagem arranhada no final das contas. Onde está o maior pilar da mitologia Americana, a tão propagada liberdade de expressão ? Fiquei curioso, até mesmo surpreso com toda essa intriga de guerra fria, e assisti o filme (você sabe onde encontrá-lo: na rede com 3 minutos de procura no Google). 

O filme, como filme é uma "comédia de amigos" igual à um trilhão de outras que inundam o cinema americano: dois-amigos-jovens-adultos-solteiros-que-são-muito-loucos-bebem-fumam-e-comem-todo-mundo-mas-também-são-bem-sucedidos-e-possuem-em-meio-à-tudo-isso-um-ideal-sublime. Tecnicamente o filme é irretocável, como todo blockbuster americano, o que não significa necessariamente uma virtude: piruetas de câmera, montagem milimétrica, efeitos especiais espaciais e uma transparência que deixa tudo bem asséptico no fim. Tudo muito limpinho. Muita forma e pouco fundo. E dai ? Ninguém que vai assistir A entrevista espera se deparar com o tipo de poesia visual e narrativa que encontraria em um documentário art-house iraniano sobre camelos diabéticos. A Entrevista é o tipico filme hollywoodiano, formatado, feito para ser consumido rápido como um big-mac.




Geralmente eu nunca posto lançamentos por aqui, mas A entrevista, como compromisso produção-recepção, é um filme que só faz sentido agora, ou no máximo por algumas semanas, enquanto a chapa ainda está quente. Depois de um tempo o filme vai ser interessante por outros motivos, e provavelmente um dia vai se transformar nos "Espiões que entraram numa fria" desta incarnação atual do planeta, nada mais do que uma curiosidade datada. E depois não há como negar que o filme é provocador de fato. Seu discurso é o choque. E mais, ele é quase tão anti-americano quanto anti-coreano, mas talvez ninguém note isso. O resto é o bom e velho humor de toillete de Seth Rogen, uma grande piada cheia de racismo, grosserias e sexismos quetais, com um forte subtexto anal que indica precisamente para qual estágio psicossexual regrediu o homem americano médio nesse meado de década. Nada contra por minha parte, incorreção politica é sempre salutar (pelo menos contesta o puritanismo yankee). Auto humilhações, estilo roasting, de Rob Lowe e Eminem são também bem vindas.




Uma reflexão que me veio após assistir um filme, que no final das contas é nada mais do que um divertido besteirol, é o quanto ainda as pessoas são fascinadas pelas imagens, e de como essas imagens são lidas como uma espécie de verdade, como uma espécie de declaração de princípios, como um evangelho. Tamanha mitificação parece impedir as pessoas de verem o óbvio: o cinema é apenas uma construção, uma fantasia, uma ficção que termina em si mesmo, quando a tela fica preta e as luzes se acendem volta-se para o mundo de verdade, ou pelo menos deveríamos. Matar alguém na tela não significa nada, cuspir na cruz idem, as pessoas não deviam nem ao menos se importar, mesmo os anacrônicos ditadores. Vai embora o filme, com seu texto e seu discurso, e fica apenas (e no máximo) uma reflexão, pronto. Um filme jamais, nunca, carrega nenhuma verdade. O curioso paradoxo desta suposta verdade da teoria do cinema é que A entrevista, com toda sua carga de mentiras, documenta a verdade deste momento do planeta como talvez nenhum documentário o faria.

Título Original:  The Interview
Ano: 2014
País : USA
Diretor: Evan Goldberg, Seth Rogen
Award: Nenhum


                       

Vestida para Matar





Um assassinato envolvendo uma de suas pacientes muda a rotina de um psiquiatra de um bairro elegante de Manhatan, que se vê envolvido na trama e pode ser o único a ter respostas para solucionar o crime. Primeiro filme "sério", dirigido por de Palma, que vinha de dois grandes êxitos artísticos, onde o Kitsch e o pastiche são assumidos: O Fantasma do Paradiso, e Carrie a estranha. Eu particularmente prefiro seus filmes nessa linha, pois nesses momentos ele parecia mais livre, despreocupado, soando mais autêntico, sem aparentar nenhuma responsabilidade de provar nada para ninguém, apenas divertir a si e aos outros. 

Vestida para Matar, para Brian de Palma é um divisor de águas. Ele parecia ter pressa de se transformar em um realizador "respeitável", à procura de um reconhecimento de cineasta puro e autoral. Por isso considero muito interessante esse filme, ou melhor, lhe considero curioso: se por um lado de Palma deixava claro seu inegável talento, por outro parecia ainda muito apegado ao apelo chiclete dos seus filmes anteriores, com uma vocação óbvia para o cinema de atração. 

De Palma, nesta altura, já demonstrava um talento inegável, e parecia estar disposto à jogar alto para se igualar aos mestres que tanto gosta de citar e reverenciar. Declaradamente inspirado em Hitchcock, de Palma assume a intertextualidade mas passa raspando e consegue fazer um filme de personalidade, ao contrário, por exemplo, do monstrengo pós moderno típico de Tarantino, que retalha clássicos aqui e acolá e depois organiza com eles um teatro de marionetes, um simples Cover que ele chama de filme autoral. Uma vez foi interessante, mas depois fica chato. De Palma por sua vez se utiliza da estratégia de captação, isto é, buscou um texto filmico no seu mestre predileto (Hitchcock), o incorporou em seu próprio trabalho, se revestiu um pouco com a aura do seu mestre, mas construiu um novo discurso à partir do já dito, com identidade própria.

A finesse aparece ainda no esforço de roteiro, escrito por ele mesmo (bingo para o seu projeto autoral), que se não é espetacular é pelo menos interessante, e guarda algumas boas surpresas. Mas seu maior trunfo é o domínio da linguagem, que beira o virtuosismo. O filme é todo bem montado, cheios de planos longos, e possui pelo menos duas sequências antológicas: uma é a sequência do museu. São quase 10 minutos sem diálogos onde a narrativa avança e todas as intenções dos personagens ficam claras através da cenografia, seja pelo jogo dos atores, seja pelas metáforas suscitadas pelos elementos do cenário (foto abaixo). E nada poderia ser mais específico do cinema do que isso.



Brian também se utiliza de um recurso que a esta altura já poderia ser chamado de sua assinatura pessoal: o split-screen. Ele o utiliza como estratégia para ilustrar os pensamentos dos atores, as memórias, e também como elemento multiplicador da narrativa, o que deu origem à outra parte antológica: uma longa sequencia em split screen no meio do filme, muito bem estudada, que mostrando dois lugares diferentes do universo diegético, resolve de maneira pedagógica o mistério do assassinato muito antes de sua revelação cronológica, apenas através do que dizem as imagens mostradas em conjunto. Uma bela especificidade do cinema, e que não é algo simples de se alcançar.  




Apesar de tamanha finura, o filme não atingiu o status de um clássico porque derrapa em clichês e pequenas vulgaridades despropositadas, que comprometeram com certeza  a imagem de filme que ele tentava projetar. Era o lado chiclete de Brian se fazendo sentir. Longe de me considerar um moralista, o banho de chuveiro no começo do filme, com as caras e bocas de Angie Dickinson, e o evidente duble de corpo masturbatório, é cinema boca do lixo total, que nem Antônio Meliande faria melhor. Obviamente não tenho qualquer problema com nudez no cinema (nem com o cinema da boca do lixo), mas a cena simplesmente não funciona. Mas de Palma insistiu na história de dinheiro na mão e calcinha no chão filme afora, talvez pela necessidade de rotulá-lo de thriller erótico à qualquer custo, seja lá o que for isso.  

Outra bola fora é que os personagens são, com exceção de Michael Kane e Angie Dickinson, mau construídos, mau interpretados, superficiais e caricaturais, principalmente a puta, o policial, e o jovem nerd (dois atores ganharam troféu framboesa pela pior atuação). Enfim, em Dressed to Kill Brian subiu sim o nível de seu cinema, mas parece que ele escorregou na própria ansiedade ou nos próprios instintos,e ficou pelo meio do caminho. E o filme não é especialmente ruim. Se assistido de forma contextualizada funciona, até mesmo pelas coisas que estão sobrando, que no final restituem o inevitável Kitsch do qual Brian tentava escapar

Finalmente, pode-se dizer que Dressed to kill sintetiza um pouco a própria essência do cinema de Brian de Palma como um todo : por um lado grandioso, operístico, pretensioso e bem intencionado, e por outro vulgar, brega, e caricatural. Brian de Palma, dentro do mundo do cinema, continua um diretor ao mesmo tempo detestado e admirado, não por dois grupos distintos de adoradores e haters, como era de se esperar, mas pelo cinéfilo em geral. 

Título Original: Dressed to kill
Ano: 1980
País: USA
Awards : Saturn Awards/ Golden Globe



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...