sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vestida para Matar





Um assassinato envolvendo uma de suas pacientes muda a rotina de um psiquiatra de um bairro elegante de Manhatan, que se vê envolvido na trama e pode ser o único a ter respostas para solucionar o crime. Primeiro filme "sério", dirigido por de Palma, que vinha de dois grandes êxitos artísticos, onde o Kitsch e o pastiche são assumidos: O Fantasma do Paradiso, e Carrie a estranha. Eu particularmente prefiro seus filmes nessa linha, pois nesses momentos ele parecia mais livre, despreocupado, soando mais autêntico, sem aparentar nenhuma responsabilidade de provar nada para ninguém, apenas divertir a si e aos outros. 

Vestida para Matar, para Brian de Palma é um divisor de águas. Ele parecia ter pressa de se transformar em um realizador "respeitável", à procura de um reconhecimento de cineasta puro e autoral. Por isso considero muito interessante esse filme, ou melhor, lhe considero curioso: se por um lado de Palma deixava claro seu inegável talento, por outro parecia ainda muito apegado ao apelo chiclete dos seus filmes anteriores, com uma vocação óbvia para o cinema de atração. 

De Palma, nesta altura, já demonstrava um talento inegável, e parecia estar disposto à jogar alto para se igualar aos mestres que tanto gosta de citar e reverenciar. Declaradamente inspirado em Hitchcock, de Palma assume a intertextualidade mas passa raspando e consegue fazer um filme de personalidade, ao contrário, por exemplo, do monstrengo pós moderno típico de Tarantino, que retalha clássicos aqui e acolá e depois organiza com eles um teatro de marionetes, um simples Cover que ele chama de filme autoral. Uma vez foi interessante, mas depois fica chato. De Palma por sua vez se utiliza da estratégia de captação, isto é, buscou um texto filmico no seu mestre predileto (Hitchcock), o incorporou em seu próprio trabalho, se revestiu um pouco com a aura do seu mestre, mas construiu um novo discurso à partir do já dito, com identidade própria.

A finesse aparece ainda no esforço de roteiro, escrito por ele mesmo (bingo para o seu projeto autoral), que se não é espetacular é pelo menos interessante, e guarda algumas boas surpresas. Mas seu maior trunfo é o domínio da linguagem, que beira o virtuosismo. O filme é todo bem montado, cheios de planos longos, e possui pelo menos duas sequências antológicas: uma é a sequência do museu. São quase 10 minutos sem diálogos onde a narrativa avança e todas as intenções dos personagens ficam claras através da cenografia, seja pelo jogo dos atores, seja pelas metáforas suscitadas pelos elementos do cenário (foto abaixo). E nada poderia ser mais específico do cinema do que isso.



Brian também se utiliza de um recurso que a esta altura já poderia ser chamado de sua assinatura pessoal: o split-screen. Ele o utiliza como estratégia para ilustrar os pensamentos dos atores, as memórias, e também como elemento multiplicador da narrativa, o que deu origem à outra parte antológica: uma longa sequencia em split screen no meio do filme, muito bem estudada, que mostrando dois lugares diferentes do universo diegético, resolve de maneira pedagógica o mistério do assassinato muito antes de sua revelação cronológica, apenas através do que dizem as imagens mostradas em conjunto. Uma bela especificidade do cinema, e que não é algo simples de se alcançar.  




Apesar de tamanha finura, o filme não atingiu o status de um clássico porque derrapa em clichês e pequenas vulgaridades despropositadas, que comprometeram com certeza  a imagem de filme que ele tentava projetar. Era o lado chiclete de Brian se fazendo sentir. Longe de me considerar um moralista, o banho de chuveiro no começo do filme, com as caras e bocas de Angie Dickinson, e o evidente duble de corpo masturbatório, é cinema boca do lixo total, que nem Antônio Meliande faria melhor. Obviamente não tenho qualquer problema com nudez no cinema (nem com o cinema da boca do lixo), mas a cena simplesmente não funciona. Mas de Palma insistiu na história de dinheiro na mão e calcinha no chão filme afora, talvez pela necessidade de rotulá-lo de thriller erótico à qualquer custo, seja lá o que for isso.  

Outra bola fora é que os personagens são, com exceção de Michael Kane e Angie Dickinson, mau construídos, mau interpretados, superficiais e caricaturais, principalmente a puta, o policial, e o jovem nerd (dois atores ganharam troféu framboesa pela pior atuação). Enfim, em Dressed to Kill Brian subiu sim o nível de seu cinema, mas parece que ele escorregou na própria ansiedade ou nos próprios instintos,e ficou pelo meio do caminho. E o filme não é especialmente ruim. Se assistido de forma contextualizada funciona, até mesmo pelas coisas que estão sobrando, que no final restituem o inevitável Kitsch do qual Brian tentava escapar

Finalmente, pode-se dizer que Dressed to kill sintetiza um pouco a própria essência do cinema de Brian de Palma como um todo : por um lado grandioso, operístico, pretensioso e bem intencionado, e por outro vulgar, brega, e caricatural. Brian de Palma, dentro do mundo do cinema, continua um diretor ao mesmo tempo detestado e admirado, não por dois grupos distintos de adoradores e haters, como era de se esperar, mas pelo cinéfilo em geral. 

Título Original: Dressed to kill
Ano: 1980
País: USA
Awards : Saturn Awards/ Golden Globe



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...