domingo, 15 de fevereiro de 2015

Big eyes




Cinebiografia da pintora americana Margaret Keane, que foi vítima de plágio e infração de direitos autorais pelo próprio esposo, e precisou recorrer à justiça americana para ser reconhecida como verdadeira autora de seus quadros. O grande atrativo do filme é a direção de Tim Burton, um dos grandes realizadores americanos em atividade. Pela primeira vez ele dirige um filme cujo tema/ cenografia não são ligados ao universo fantástico. O grande prazer que Big Eyes proporciona é justamente a oportunidade de variar um pouco as coisas, e ver o grande diretor que é Burton, cuja construção de filmes é fortemente marcada pela fabricação do excêntrico, se permitir fazer um filme de cenografia tradicional, pela primeira vez em 30 anos. E Big eyes é um filme pequeno, sem malabarismos, sem orçamento gigante, e mesmo sem Johnny Depp ou Helena Bonham Carter, de quem ele recentemente se divorciou. Tim Burton deixa de lado a extrema estilização pela qual se tornou célebre, em favor da construção de um espaço diegético realista, obediente de cada código de produção típico do cinema tradicional.




Esse retorno quase que arqueológico de Burton às formas fílmicas de base nos oferece um filme ultra agradável e envolvente. Cada plano possui composição e duração primorosas, com montagem perfeita. Cada fotograma merece um pause por parte do espectador, com trinta segundos de contemplação respeitosa. A narrativa é fluída, transparente, vetorial. Um luxo. A impressão que o filme passa é de tranquilidade e segurança de um realizador completamente à vontade, em casa, tranquilo. A direção de arte é um caso à parte. Não é porque Burton está representando o mundo real que os cenários não sejam magníficos, detalhados, precisos (O filme se passa nos anos 50 e 60). Mesmo acostumado à brincar com o kitsch e o camp em seus filmes de uma maneira quase icônica, desta vez Burton reservou este espaço apenas aos quadros de Keane, o que coloca a obsessão do diretor pela estética do artificial, do exagerado, do produto pop, muito bem restrito apenas ao tema central do filme afinal e não à cenografia como um todo. Mas atenção: os esquemas de cores continuam lá, firmes e fortes, para a nossa alegria. Um filme espetacular.


                   



Título Original: Big Eyes
Ano: 2014
Diretor: Tim Burton
País: USA
AWards: Gobo de Ouro / Independent Spirit Awards

sábado, 14 de fevereiro de 2015

American Sniper




Cinebiografia romanceada de Chris Kyle, o mais letal atirador de elite do exército americano, que prestou serviços durante a segunda guerra USA-Iraque, e que foi dirigida por ele, prefeito de Carmel, e figura(ça) eternamente associada à truculência, justa ou injustamente: Clint Eastwood. American Sniper é o filme do momento, centro de debates ferozes, mas achei interessante postá-lo aqui com a singela intenção de refletir sobre o papel da recepção de um filme na construção de sua identidade, o que considero um assunto apaixonante.

O primeiro reflexo, mesmo antes de se assistir o filme, seja pela visão do cartaz, do trailler, ou de sua resenha, é incluir de imediato American Sniper na interessante teorização proposta pelo colunista  Mario Sergio Conti, que li aqui há mais ou menos uma ano atrás, quando eu pesquisava referências para escrever um trabalho de faculdade justamente sobre o rolo compressor do cinema americano : "O cinema americano continua a sua saga de embrutecimento e emburrecimento. (...). O conteúdo deles é a violência. São cenas e mais cenas com corpos destroçados, explosões de pessoas e prédios, chantagem psicológica, pancadaria coreografada, tortura explícita. O cinema americano adestra o público, sobretudo as novas gerações, para a bestialidade do mundo que os Estados Unidos comandam.". Pode parecer à primeira impressão que American Sniper é apenas isso, mas não é.

Em primeiro lugar o filme é bom. Talvez o mais interessante dos filmes de Eastwood, diretor auto-didata, que faz seus filmes de maneira profundamente obediente à regras do cinema tradicional. Será que em American Sniper essa obediência estética tem a ver com obediência civil, ordem, ou outros valores evocados tão fortemente no filme ? Ou não, ele pretende atacá-la ? É justamente isso o aspecto que me atraiu no filme, e me levou à postá-lo neste humilde blog: é o espectador quem vai "terminar" o filme que Eastwood concebeu: uma peça dramática de duas horas que pode ser tanto visto como uma propaganda belicista deslavada, quanto um líbelo pacifista da mais alta qualidade. O mérito de Eastwood é o de não construir um discurso pessoal, mas deixar que o espectador projete seus próprios anseios no filme.

É nesse ponto que entra o papel da recepção, do uso que o espectador vai fazer do filme, e o que vai determinar sua existência daqui pra frente. Se voltarmos, por exemplo até "Full Metal Jacket", de Stanley Kubrick, nos deparamos com um filme que é muito claramente concebido como um filme pacifista, mas que paradoxalmente faz um sucesso tremendo entre militaristas e entusiastas da truculência. Retornando um pouco mais no tempo chegamos até a série Rambo, cujo primeiro filme era totalmente anti-americano, a história de um ex combatente fanático, magoado com o estado que o esqueceu, e que queria mandar tudo pelos ares. E o que aconteceu com o personagem ? Acabou virando o símbolo maior da era Reagan, da truculência e da intrusão americana. Se Stallone resolveu moldar posteriormente seu personagem desta maneira por motivos ideológicos ou financeiros pouco importa, pois na base de tudo estava a maneira como o personagem foi visto e recebido pelo americano médio: um herói yankee da guerra fria.





O que o atirador de elite de Eastwood vai virar, só o tempo vai mostrar. Se a recepção do público for a de um filme de propaganda americano, o filme é de fato escandaloso: uma ode à brutalidade heroica, à intrusão americana, ao desperdício de vidas e recursos em função do domínio da ordem global à qualquer custo. Se a recepção do público for a de um filme anti-americano, o filme é revelador exatamente pelos mesmos motivos, só que tristes obviamente. Um exemplo é uma sequência central do filme, muito bem estudada, e que dura vários minutos, na qual Kyle executa tranquilamente uma mulher e uma criança árabes. Se a sequência foi concebida para ufanar valores republicanos, ela é escandalosa. Se a sequência foi concebida para denunciá-los ela é provocativa, então ponto para Clint Eastwood.

O filme, afinal, é corajoso, seja qual for a intenção do seu discurso. Ele enfia o dedo inteiro dentro de uma ferida gigante, incômoda, aparentemente sem solução: a postura do ocidente frente ao integrismo islâmico. Historicamente ele também passa em revista a bizarra guerra do Iraque, uma guerra lutada entre o exército mais poderoso do mundo, acostumado com operações militares cirúrgicas, contra um grupo de guerrilheiros sem pátria, sem rosto, sem bandeira, movidos por um ideal aparentemente incompreensível e financiado por poderes econômicos obscuros. Uma guerra suja, labiríntica, entrincheirada, de usura, que o planeta não via desde o cerco alemão em Stalingrad, e que manchou a recente história americana de maneira indelével, e pergunto novamente, justa ou injustamente ? O filme afinal deixa mais perguntas do que respostas. 

Aqui, falo do uso pessoal que fiz do filme, e que passa longe de questões ideológicas: American Sniper é um filme que transcende a questão objetiva da guerra do Iraque, e mesmo das guerras em geral. Eu vejo este filme como uma reflexão sobre uma certa brutalidade americana, quotidiana e banal. Sobre uma sociedade que produz em série seres humanos violentos, como mostrado no filme, seja através da violência autoritária do pai texano, o mesmo pai que glorifica uma arma e que ensina seus filhos à atirarem, seja através da violência de uma religião imposta duramente. Através de uma sociedade que faz da tortura aos animais de rodeio um espetáculo, através do americano médio que resolve seus problemas com socos, que levanta peso para se sentir superior, que dirige um carro gigante para se sentir mais forte, e que se alista finalmente no exército para defender violentamente todos estes valores, que entende como "liberdade", talvez sem entender ao certo o que isso signifique. Finalmente, o filme de Eastwood é exatamente isso: a história de uma rapaz cuja vida foi totalmente, do primeiro ao ultimo dia, dominada pela violência, geradora de mais violência. Uma especie assustadora de dança da violência.

Partindo desta constatação, não há como não fazer aqui uma extrapolação teórica (que é o que eu mais faço neste Blog que ninguém lê) em torno da teoria da "Banalidade do mal" proposta pela filósofa teuto-americana Hanna Arendt, inspirada justamente pelo julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém: Chris Kyle, antes de ser um monstro sanguinário que matou centenas de pessoas, é um mero funcionário, um homem tristemente banal, subordinado à uma autoridade, e indiferente à questão do bem e do mal em seus atos. Porém, Kyle não deve por isso ser desculpado da imoralidade de seus atos. Para Hanna Arendt, dentro de um sistema mais amplo (no caso a máquina de guerra americana), quem escolhe praticar atos monstruosos simplesmente o faz porque parou de pensar, de ter um senso crítico em torno do que representar de fato assassinar centenas de pessoas. Ele finalmente banalizou o mal. Para Hanna a única solução de não banalizar o mal é pensar, é refletir, e não refletir é imperdoável. Então, olhando o filme através de uma lupa, está lá a história de um homem que banalizou o mal, porque não pensou, porque estava inserido em uma realidade cultural-ideológica que não lhe dava meios de fazê-lo.

Título Original: American Sniper
Ano: 2014
Diretor: Clint Eastwood
País: USA
Awards: Oscar (indicação) / BAFTA / Critics choice award / National Board of Reviews, entre outros



                 

Birdman (Ou a inesperada virtude da ignorância)



Um decadente ator de Hollywood, após um passado de sucesso, dinheiro e mulheres, conseguidos graças à uma sequência de blockbusters do personagem super-herói "Birdman", resolve provar à todos que é não apenas uma celebridade, mas um ator de verdade. Para isso ele arrisca o pouco que ainda tem, e se lança na enorme aventura de produzir, dirigir e interpretar um espetáculo teatral na Broadway. Porém, o peso do seu passado é forte demais, e o fantasma de Birdman insiste em rondar cada aspecto de sua vida. Surpreendente filme do talentoso diretor mexicano Alejandro Gonzales Iñarritu (do excelente Babel) que, após demonstrar que é um grande realizador, se mostra agora também como um teórico de cinema dos bons, com este filme que é antes de mais nada um enorme exercício de auto-reflexão. O filme inteiro é pura metalinguagem, e faz pensar o próprio cinema desde a primeira sequência. 




A grande pergunta, mais óbvia (transposta na decisão do astro de Birdman em migrar para o teatro em busca de reconhecimento), é se o cinema pode mesmo ser considerado como uma arte em si, inteira, ou se ele é, na melhor das hipóteses, uma arte menor, quando comparado ao seu ancestral mais "respeitável", o teatro. Curioso como esta "questão" remonta ao dilema e ao estado de causa que o próprio cinema viveu nos seus primeiros anos: considerado nos finais do século 19 como uma mera atração de feiras de exposição e de parques de diversão, o cinema, antes de possuir uma linguagem própria, precisou recorrer justamente ao teatro, encenando "peças filmadas", para receber algum tipo de reconhecimento artístico e deixar de ser considerado um simples divertimento de pessoas incultas. Essa primeira grande pergunta volta brilhantemente em sub-texto provocativo dentro do filme, e desta vez atualizada em: será que o cinema autoral, artesanal e intimista, é o único que poderia ser considerado como arte, frente ao seu irmão mais novo, menos "respeitável", o Blockbuster ? (Numa sequência antológica em que Michael voa). O cinema de "arte", seria enfim reconhecido como tal, mas o cinema de espetáculo manteria o mesmo status que o cinema teve em seus anos de surgimento: uma diversão de incultos, e um espetáculo sem nenhum espaço para uma reflexão crítica do espectador. Qual cinema é herdeiro do "cinema" afinal ?

O filme dedica ainda uma boa parte do seu texto ao star-system de Hollywood, através das inúmeras referências e comentários que sublinham o quanto a industria do cinema americano confere um lugar desproporcionalmente grande ao ator, e de como o ator, por causa disso, cria uma relação de conluio com os personagens de filmes do qual se torna um escravo. Por isso foi brilhante a escalação de Michael Keaton. Pode-se dizer tranquilamente que ele interpreta com bastante licença poética ele mesmo: o cara que fez o blockbuster Batman (Birdman ? - a voz dos dois é igual !) nos anos 90, virou escravo do papel, e busca redenção em um filme "de verdade" (no teatro) 20 anos depois. E conseguiu. Não tem como não pensar que o filme não tenha sido escrito para ele, ou que o argumento inicial não tenha surgido do fenômeno Michael Keaton / Batman. Neste aspecto, a coisa toda beira o auto-biográfico, a meta ficção.





Mas é em termos de forma filmica, que  o diretor Iñarritu nos dá uma outra porta de reflexão, e faz pensar na própria linguagem do cinema como um todo, durante o filme inteiro, simplesmente nos privando desta mesma linguagem durante as duas horas de projeção. Para isso ele recorreu ao gesto estético de rodar o filme inteiramente em plano-sequência, amarrado por uma ou outra trucagem. Essa decisão corajosa, transgride as normas de produção de um filme, estabelecidas como canônicas, mesmo que por questões puramente culturais, e coloca a engrenagem da montagem e do plano A-plano B totalmente fora do jogo. Uma exceção que permite pensar na regra. O efeito é que, pela ausência da linguagem, você se dá conta de como esta linguagem, de como a transparência e a fluidez da montagem é algo que já entrou em nossa percepção de espectador e nem nos damos mais conta que ela existe. Somos homens-cinema, desenvolvemos uma capacidade cognitiva de ver filmes, como se fosse uma lei da natureza. E esse gesto estético do diretor funciona perfeitamente solidário com o roteiro: o filme se liberta dos próprios códigos de fabricação de um filme, assim como o personagem de Michael Keaton quer se livrar do cinema à qualquer custo. 

Mas não para por aí. O cinéfilo aplicado, logo de cara, vai perceber que os créditos iniciais do filme se apresentam exatamente da mesma forma que Godard o fez no seu "Demônio das onze horas" (Pierrot le fou). E não existe coincidência em cinema. Tudo que se vê dentro do quadro foi calculado, pensado e repensado por um exército de pessoas durante muito tempo. Ao longo do filme fica a cada instante a certeza de que "Birdman" e "Pierrot le fou" são dois filmes que contam a mesma história: Uma temporada no inferno, de Rimbaud, tendo cada diretor adaptado o relato para o seu próprio contexto cultural, geográfico e de tempo. Cada um deles mostra o seu próprio homem de meia idade torturado e à beira da loucura. Outro aspecto que faz soar a sineta cinéfila, num nível mais teórico, é a citação explícita de Rolland Barthes, em Birdman, já que em Pierrot le fou Godard (o rei dos subtextos) fez uma espécie de representação mítica coletiva da sociedade francesa de então, numa ligação direta com os escritos contemporâneos do filósofo. É o tipo de referência que um diretor só faz quando a relação com a obra à ser referenciada ultrapassa a simples admiração. Dois filmes diferentes, separados por 50 anos, ligados pelo mesmo princípio poético. As cenas finais de ambos os filmes são exatamente "as mesmas", e não tem como não se arrepiar com a apoteose. Iñarritu passou definitivamente para o time dos grandes, e fez de Birdman uma experiência polissêmica extraordinária. Cinéfilo, não perca.


                  



Título Original: Birdman
Ano: 2014
Diretor: Alejandro Gonzales Iñarritu
País: USA / Canada
Awards: Globo de Ouro / Oscar (indicação) / BAFTA / Austin Film Critic association / Australian Film Institute / Independent Spirit Awards / London Critics Circle Film Awards / Entre outros 




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