sábado, 14 de fevereiro de 2015

American Sniper




Cinebiografia romanceada de Chris Kyle, o mais letal atirador de elite do exército americano, que prestou serviços durante a segunda guerra USA-Iraque, e que foi dirigida por ele, prefeito de Carmel, e figura(ça) eternamente associada à truculência, justa ou injustamente: Clint Eastwood. American Sniper é o filme do momento, centro de debates ferozes, mas achei interessante postá-lo aqui com a singela intenção de refletir sobre o papel da recepção de um filme na construção de sua identidade, o que considero um assunto apaixonante.

O primeiro reflexo, mesmo antes de se assistir o filme, seja pela visão do cartaz, do trailler, ou de sua resenha, é incluir de imediato American Sniper na interessante teorização proposta pelo colunista  Mario Sergio Conti, que li aqui há mais ou menos uma ano atrás, quando eu pesquisava referências para escrever um trabalho de faculdade justamente sobre o rolo compressor do cinema americano : "O cinema americano continua a sua saga de embrutecimento e emburrecimento. (...). O conteúdo deles é a violência. São cenas e mais cenas com corpos destroçados, explosões de pessoas e prédios, chantagem psicológica, pancadaria coreografada, tortura explícita. O cinema americano adestra o público, sobretudo as novas gerações, para a bestialidade do mundo que os Estados Unidos comandam.". Pode parecer à primeira impressão que American Sniper é apenas isso, mas não é.

Em primeiro lugar o filme é bom. Talvez o mais interessante dos filmes de Eastwood, diretor auto-didata, que faz seus filmes de maneira profundamente obediente à regras do cinema tradicional. Será que em American Sniper essa obediência estética tem a ver com obediência civil, ordem, ou outros valores evocados tão fortemente no filme ? Ou não, ele pretende atacá-la ? É justamente isso o aspecto que me atraiu no filme, e me levou à postá-lo neste humilde blog: é o espectador quem vai "terminar" o filme que Eastwood concebeu: uma peça dramática de duas horas que pode ser tanto visto como uma propaganda belicista deslavada, quanto um líbelo pacifista da mais alta qualidade. O mérito de Eastwood é o de não construir um discurso pessoal, mas deixar que o espectador projete seus próprios anseios no filme.

É nesse ponto que entra o papel da recepção, do uso que o espectador vai fazer do filme, e o que vai determinar sua existência daqui pra frente. Se voltarmos, por exemplo até "Full Metal Jacket", de Stanley Kubrick, nos deparamos com um filme que é muito claramente concebido como um filme pacifista, mas que paradoxalmente faz um sucesso tremendo entre militaristas e entusiastas da truculência. Retornando um pouco mais no tempo chegamos até a série Rambo, cujo primeiro filme era totalmente anti-americano, a história de um ex combatente fanático, magoado com o estado que o esqueceu, e que queria mandar tudo pelos ares. E o que aconteceu com o personagem ? Acabou virando o símbolo maior da era Reagan, da truculência e da intrusão americana. Se Stallone resolveu moldar posteriormente seu personagem desta maneira por motivos ideológicos ou financeiros pouco importa, pois na base de tudo estava a maneira como o personagem foi visto e recebido pelo americano médio: um herói yankee da guerra fria.





O que o atirador de elite de Eastwood vai virar, só o tempo vai mostrar. Se a recepção do público for a de um filme de propaganda americano, o filme é de fato escandaloso: uma ode à brutalidade heroica, à intrusão americana, ao desperdício de vidas e recursos em função do domínio da ordem global à qualquer custo. Se a recepção do público for a de um filme anti-americano, o filme é revelador exatamente pelos mesmos motivos, só que tristes obviamente. Um exemplo é uma sequência central do filme, muito bem estudada, e que dura vários minutos, na qual Kyle executa tranquilamente uma mulher e uma criança árabes. Se a sequência foi concebida para ufanar valores republicanos, ela é escandalosa. Se a sequência foi concebida para denunciá-los ela é provocativa, então ponto para Clint Eastwood.

O filme, afinal, é corajoso, seja qual for a intenção do seu discurso. Ele enfia o dedo inteiro dentro de uma ferida gigante, incômoda, aparentemente sem solução: a postura do ocidente frente ao integrismo islâmico. Historicamente ele também passa em revista a bizarra guerra do Iraque, uma guerra lutada entre o exército mais poderoso do mundo, acostumado com operações militares cirúrgicas, contra um grupo de guerrilheiros sem pátria, sem rosto, sem bandeira, movidos por um ideal aparentemente incompreensível e financiado por poderes econômicos obscuros. Uma guerra suja, labiríntica, entrincheirada, de usura, que o planeta não via desde o cerco alemão em Stalingrad, e que manchou a recente história americana de maneira indelével, e pergunto novamente, justa ou injustamente ? O filme afinal deixa mais perguntas do que respostas. 

Aqui, falo do uso pessoal que fiz do filme, e que passa longe de questões ideológicas: American Sniper é um filme que transcende a questão objetiva da guerra do Iraque, e mesmo das guerras em geral. Eu vejo este filme como uma reflexão sobre uma certa brutalidade americana, quotidiana e banal. Sobre uma sociedade que produz em série seres humanos violentos, como mostrado no filme, seja através da violência autoritária do pai texano, o mesmo pai que glorifica uma arma e que ensina seus filhos à atirarem, seja através da violência de uma religião imposta duramente. Através de uma sociedade que faz da tortura aos animais de rodeio um espetáculo, através do americano médio que resolve seus problemas com socos, que levanta peso para se sentir superior, que dirige um carro gigante para se sentir mais forte, e que se alista finalmente no exército para defender violentamente todos estes valores, que entende como "liberdade", talvez sem entender ao certo o que isso signifique. Finalmente, o filme de Eastwood é exatamente isso: a história de uma rapaz cuja vida foi totalmente, do primeiro ao ultimo dia, dominada pela violência, geradora de mais violência. Uma especie assustadora de dança da violência.

Partindo desta constatação, não há como não fazer aqui uma extrapolação teórica (que é o que eu mais faço neste Blog que ninguém lê) em torno da teoria da "Banalidade do mal" proposta pela filósofa teuto-americana Hanna Arendt, inspirada justamente pelo julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém: Chris Kyle, antes de ser um monstro sanguinário que matou centenas de pessoas, é um mero funcionário, um homem tristemente banal, subordinado à uma autoridade, e indiferente à questão do bem e do mal em seus atos. Porém, Kyle não deve por isso ser desculpado da imoralidade de seus atos. Para Hanna Arendt, dentro de um sistema mais amplo (no caso a máquina de guerra americana), quem escolhe praticar atos monstruosos simplesmente o faz porque parou de pensar, de ter um senso crítico em torno do que representar de fato assassinar centenas de pessoas. Ele finalmente banalizou o mal. Para Hanna a única solução de não banalizar o mal é pensar, é refletir, e não refletir é imperdoável. Então, olhando o filme através de uma lupa, está lá a história de um homem que banalizou o mal, porque não pensou, porque estava inserido em uma realidade cultural-ideológica que não lhe dava meios de fazê-lo.

Título Original: American Sniper
Ano: 2014
Diretor: Clint Eastwood
País: USA
Awards: Oscar (indicação) / BAFTA / Critics choice award / National Board of Reviews, entre outros



                 

3 comentários:

  1. eu fiquei fascinado com o seu blog e apesar de não ter o gẽnio de um Einstein ou um filsofo como Wittgenstein gosto de ler textos que me façam refletir sobre a realidade do mundo em que vivemos!!Marcos Punch.

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  2. Ótima crítica! Fui assistir Sniper Americano com péssimas referências, mas no final das contas eu gostei do filme. Ele bom para o que se propõe e não achei ufanista, como os filmes de guerra americanos. É como você diz: ele dá a escolha de você pensar: e aí, é ufanista ou brutal? Achei bem brutal.

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