sábado, 14 de fevereiro de 2015

Birdman (Ou a inesperada virtude da ignorância)



Um decadente ator de Hollywood, após um passado de sucesso, dinheiro e mulheres, conseguidos graças à uma sequência de blockbusters do personagem super-herói "Birdman", resolve provar à todos que é não apenas uma celebridade, mas um ator de verdade. Para isso ele arrisca o pouco que ainda tem, e se lança na enorme aventura de produzir, dirigir e interpretar um espetáculo teatral na Broadway. Porém, o peso do seu passado é forte demais, e o fantasma de Birdman insiste em rondar cada aspecto de sua vida. Surpreendente filme do talentoso diretor mexicano Alejandro Gonzales Iñarritu (do excelente Babel) que, após demonstrar que é um grande realizador, se mostra agora também como um teórico de cinema dos bons, com este filme que é antes de mais nada um enorme exercício de auto-reflexão. O filme inteiro é pura metalinguagem, e faz pensar o próprio cinema desde a primeira sequência. 




A grande pergunta, mais óbvia (transposta na decisão do astro de Birdman em migrar para o teatro em busca de reconhecimento), é se o cinema pode mesmo ser considerado como uma arte em si, inteira, ou se ele é, na melhor das hipóteses, uma arte menor, quando comparado ao seu ancestral mais "respeitável", o teatro. Curioso como esta "questão" remonta ao dilema e ao estado de causa que o próprio cinema viveu nos seus primeiros anos: considerado nos finais do século 19 como uma mera atração de feiras de exposição e de parques de diversão, o cinema, antes de possuir uma linguagem própria, precisou recorrer justamente ao teatro, encenando "peças filmadas", para receber algum tipo de reconhecimento artístico e deixar de ser considerado um simples divertimento de pessoas incultas. Essa primeira grande pergunta volta brilhantemente em sub-texto provocativo dentro do filme, e desta vez atualizada em: será que o cinema autoral, artesanal e intimista, é o único que poderia ser considerado como arte, frente ao seu irmão mais novo, menos "respeitável", o Blockbuster ? (Numa sequência antológica em que Michael voa). O cinema de "arte", seria enfim reconhecido como tal, mas o cinema de espetáculo manteria o mesmo status que o cinema teve em seus anos de surgimento: uma diversão de incultos, e um espetáculo sem nenhum espaço para uma reflexão crítica do espectador. Qual cinema é herdeiro do "cinema" afinal ?

O filme dedica ainda uma boa parte do seu texto ao star-system de Hollywood, através das inúmeras referências e comentários que sublinham o quanto a industria do cinema americano confere um lugar desproporcionalmente grande ao ator, e de como o ator, por causa disso, cria uma relação de conluio com os personagens de filmes do qual se torna um escravo. Por isso foi brilhante a escalação de Michael Keaton. Pode-se dizer tranquilamente que ele interpreta com bastante licença poética ele mesmo: o cara que fez o blockbuster Batman (Birdman ? - a voz dos dois é igual !) nos anos 90, virou escravo do papel, e busca redenção em um filme "de verdade" (no teatro) 20 anos depois. E conseguiu. Não tem como não pensar que o filme não tenha sido escrito para ele, ou que o argumento inicial não tenha surgido do fenômeno Michael Keaton / Batman. Neste aspecto, a coisa toda beira o auto-biográfico, a meta ficção.





Mas é em termos de forma filmica, que  o diretor Iñarritu nos dá uma outra porta de reflexão, e faz pensar na própria linguagem do cinema como um todo, durante o filme inteiro, simplesmente nos privando desta mesma linguagem durante as duas horas de projeção. Para isso ele recorreu ao gesto estético de rodar o filme inteiramente em plano-sequência, amarrado por uma ou outra trucagem. Essa decisão corajosa, transgride as normas de produção de um filme, estabelecidas como canônicas, mesmo que por questões puramente culturais, e coloca a engrenagem da montagem e do plano A-plano B totalmente fora do jogo. Uma exceção que permite pensar na regra. O efeito é que, pela ausência da linguagem, você se dá conta de como esta linguagem, de como a transparência e a fluidez da montagem é algo que já entrou em nossa percepção de espectador e nem nos damos mais conta que ela existe. Somos homens-cinema, desenvolvemos uma capacidade cognitiva de ver filmes, como se fosse uma lei da natureza. E esse gesto estético do diretor funciona perfeitamente solidário com o roteiro: o filme se liberta dos próprios códigos de fabricação de um filme, assim como o personagem de Michael Keaton quer se livrar do cinema à qualquer custo. 

Mas não para por aí. O cinéfilo aplicado, logo de cara, vai perceber que os créditos iniciais do filme se apresentam exatamente da mesma forma que Godard o fez no seu "Demônio das onze horas" (Pierrot le fou). E não existe coincidência em cinema. Tudo que se vê dentro do quadro foi calculado, pensado e repensado por um exército de pessoas durante muito tempo. Ao longo do filme fica a cada instante a certeza de que "Birdman" e "Pierrot le fou" são dois filmes que contam a mesma história: Uma temporada no inferno, de Rimbaud, tendo cada diretor adaptado o relato para o seu próprio contexto cultural, geográfico e de tempo. Cada um deles mostra o seu próprio homem de meia idade torturado e à beira da loucura. Outro aspecto que faz soar a sineta cinéfila, num nível mais teórico, é a citação explícita de Rolland Barthes, em Birdman, já que em Pierrot le fou Godard (o rei dos subtextos) fez uma espécie de representação mítica coletiva da sociedade francesa de então, numa ligação direta com os escritos contemporâneos do filósofo. É o tipo de referência que um diretor só faz quando a relação com a obra à ser referenciada ultrapassa a simples admiração. Dois filmes diferentes, separados por 50 anos, ligados pelo mesmo princípio poético. As cenas finais de ambos os filmes são exatamente "as mesmas", e não tem como não se arrepiar com a apoteose. Iñarritu passou definitivamente para o time dos grandes, e fez de Birdman uma experiência polissêmica extraordinária. Cinéfilo, não perca.


                  



Título Original: Birdman
Ano: 2014
Diretor: Alejandro Gonzales Iñarritu
País: USA / Canada
Awards: Globo de Ouro / Oscar (indicação) / BAFTA / Austin Film Critic association / Australian Film Institute / Independent Spirit Awards / London Critics Circle Film Awards / Entre outros 




2 comentários:

  1. Grande análise. Fiquei com vontade de ver o filme.
    Seguem outros dois pontos de vista:
    Obvious: http://lounge.obviousmag.org/viver_e_escapar/2015/02/inarritu-provoca-lucifer-na-parabola-da-decadencia-existencial.html
    Cinegnose: http://cinegnose.blogspot.com.br/2015/02/oscar-para-birdman-revela-secreta.html#comment-form
    Muito legal isso, de um filme gerar idéias tão diferentes.

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  2. Interessante a tua crítica. Como prometido vim aqui dar uma espreitadela ao teu blogue, vou adiciona-lo à minha blogroll. Bons filmes e já agora dá uma olhadela na minha crítica do Birdman! http://cinemaschallenge.blogspot.pt/2015/01/critica-birdman-ou-inesperada-virtude.html

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