sábado, 25 de abril de 2015

Festim Diabólico




Dois jovens dandis da classe alta de New York cometem um homicidio por motivos banais, e como prova de arrogância e transgressão, resolvem ocultar o cadáver dentro de um baú que se encontra bem no meio da sala onde a dupla organiza uma festa que começará em minutos. Durante a recepção, os outros convidados se perguntam insistentemente onde estaria o rapaz que não compareceu à festa, sem desconfiarem entretanto que ele estava ali bem perto de todos. Após mais de 400 postagens me dei conta que jamais havia postado nada de Hitchcock neste blog. Um vil sacrilégio à ser reparado imediatamente. O mestre britânico é comumente aclamado por suas obras mais populares, como os clássicos Psicose, Janela indiscreta e Pássaros, mas em minha modesta opinião, seu melhor momento é esse filme, considerado "menor", mas que julgo um dos mais instigantes e emblemáticos de seu cinema.




Hitchcock é no imaginário coletivo um diretor sempre associado ao suspense e terror, e Festim Diabólico corrobora com essa visão unidimensional, mas ele na verdade foi um realizador plural, e, de acordo com muitos teóricos, um dos mais completos da história, tendo cumprido a transição do cinema mudo para o falado com maestria, coisa que poucos conseguiram, e ainda forjando uma assinatura eterna. Em 1948, Hitchcock já estava muito bem instalado em Hollywood, para onde trouxera sua genial gramática com sucesso. Neste momento ele estava cada vez mais interessado em psicanálise e psicologia humana, temas que se popularizavam cada vez mais entre o publico leigo, imprimindo progressivamente elementos pulsionais nos seus personagens, até chegar mais tarde à apoteose edipiana de Psycho, já nos anos 60. Assim, seus filmes passam a ser também estudos informais do caráter humano, e Festim é um belo exemplo desta tendência. Hitchcock se foca aqui no narcisismo patológico, tirânico, do mesmo tipo que Oscar Wilde tratou em seu livro O retrato de Dorian Gray. Não por acaso existe uma espécie de fio condutor conceitual ligando os temas de ambas as histórias.





Ambas fazem uma correlação entre a faceta narcísica da personalidade, o dandismo, e a homossexualidade masculina, que Hitchcock, num ato de ousadia (o ano era 1948 e o país os EUA) bancou e colocou em cena. Fazer de um filme um recurso de estudo gender, nos anos 40, na América, já seria suficiente para tirar Hitchcock do clichê suspense. É verdade que antes, esse caso baseado em fatos reais, foi encenado na Broadway, mas o fato é que sempre existiu maior tolerância com o tema gay no meio teatral. Por isso, pode ser considerado um milagre que o filme de Hitchcock tenha escapado do controle do código estreito de moral e conduta, uma vez que a relação de casal entre os dois protagonistas é mostrada abertamente, guardada as proporções para a época. Mas o que se vê é bastante claro, o suficiente para que o filme sofresse boicote por alguns distribuidores americanos na época.

No plano estético o filme é ainda mais surpreendente. Primeiramente ele foi fotografado nos primórdios do Technicolor, e como o sistema ainda engatinhava, o resultado não era dos mais vívidos. Entretanto, o filme possui uma adorável tonalidade sépia não intencional, que lhe tatuou de maneira indelével com o selo dos anos 40. Mas essa não é uma especificidade desse filme. Seu verdadeiro phallus é a sua cenografia: ele se passa em tempo real, o que subverte de certa forma o próprio modo de representação do cinema clássico, que tradicionalmente picota o tempo e o espaço em diversos fragmentos, e depois nos devolve uma construção à partir dos mesmos. Aqui Hitchcock abriu mão deste direito exclusivo do cinema, para nos ofertar um filme em narrativa e cenografia lineares, de modo a criar um verdadeiro exercício de auto reflexão, pela negativa, do cinema e de seu modo de produção (o mesmo dispositivo que vimos recentemente em Birdman). Aliás, uma das marcas inovadoras de Hitchcock era justamente a auto-reflexividade, tendo ele próprio feito uma aparição Cameo em praticamente todos os seus filmes, o que se tornou uma assinatura pessoal, mais tarde copiada por muitos diretores. Em Festim, dada as exigências do roteiro, teve de improvisar um anuncio luminoso com a sua imagem, que se vê através da janela, que faz parte de um conjunto cênico absolutamente estilizado e teatral. Com tudo isso, Festim diabólico pode ser estudado também como um tratado sobre as relações fenomenológicas do cinema e do teatro. 

Todos os planos são planos sequência, enormes, de 10 minutos cada um (o quanto durava uma bobina de filme na época), tão magnificamente bem coreografados entre atores e operadores de câmera Technicolor (que eram gigantescas na época), que só isso já valeria parar tudo para ver o filme. Para amarrar os planos Hitchcock usou o recurso de focar em close up nas costas dos personagens, como forma de dissimular os cortes, embora existam dois ou três cuts tradicionais ao longo do filme, que aparentemente estão lá para servir de lembrete ao espectador que ele ainda está no cinema. O roteiro é um luxo, vetorial, auto explicativo, e é solidário com a cenografia proposta. Um roteiro tipico da era de ouro de Hollywood, época onde todos os relatos eram facilmente entregues sem osso e sem gorduras. No final das contas Hitchcock brinca com a linguagem que dominava tão bem, e praticamente transporta o espectador do cinema para o teatro, para paradoxalmente nos presentear com um filme brilhante. Um lembrete da dimensão irônica e britânico-sarcástica da sua personalidade.

Título Orginal: Rope
Ano: 1948
Diretor: Alfred Hitchcock
País : USA
Awards: Edgar Allan Poe Awards



                       

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Contos da lua vaga






No Japão medieval assolado por uma guerra civil, dois casais provincianos terão a vida transformada quando seus respectivos chefes decidem deixar o vilarejo em que vivem, constantemente atacado por milicias, para tentar a sorte como comerciantes na cidade vizinha. É o início de uma fabula moralizante, porém extremamente bem realizada pelo mestre Kenji Mizoguchi.





Mizoguchi é considerado um dos grandes do cinema japonês e mundial. Extremamente prolifico, rodou este filme nos últimos anos de sua carreira, quando sua imagem no japão do pós guerra estava bastante arranhada por colaboração ideológica no conflito. Em contrapartida, ele acabava de ser descoberto no ocidente, e foi imediatamente saudado como gênio, sobretudo pela turma do Cahiers du cinéma, (principalmente Jacques Rivette, Jean-Luc Godard,  Éric Rohmer). Não por acaso o diretor veio somar-se ao realismo italiano como influência direta na construção da Nouvelle vague anos mais tarde. 

Abordando os temas fantásticos recorrentes tanto no cinema japonês, quanto na cultura nipônica em geral, esse filme-monumento possui uma mise-en-scène de primeira, planos longos e bem estudados, iluminação prodigiosa, que são a marca estética do perfeccionismo deste diretor-mito, e porque não dizer, da própria identidade cultural japonesa.

Quem quiser ter outra porta de entrada no filme, que tal uma reflexão sobre como o Japão medieval estava em sintonia total com o modelo sócio econômico do ocidente, que começava na época também a migrar lentamente do modelo feudal para o modelo burguês ? E esse é um sub-texto importante do filme. Seria mesmo um acaso que hoje o Japão seja o mais ocidental dos países do oriente ou essa afiliação teve origens comuns há 5 séculos ? Boa peça de cinefilia.

Título Original: Ugetsu Monogatari
Ano: 1953
Diretor: Kenji Mizoguchi
País: Japão
Awards: Festival de Veneza



                      
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