terça-feira, 22 de setembro de 2015

The Bounty - Rebelião em alto Mar





No final do século 18, um navio britânico zarpa da Inglaterra com a importante missão de ir até o Tahiti buscar espécies de fruta-pão, para levá-las até a Jamaica (estratégica colônia britânica de então) e ali introduzi-las de modo que os escravos vindos da África tivessem uma fonte de alimento barata, abundante e nutritiva. Entretanto, os marujos acabaram por se amotinar durante a viagem, no ano de 1789 (emblematicamente o mesmo ano da tomada da Bastilha em Paris) e a missão se degenerou numa sequência de surpreendentes eventos.

Há 8 anos atrás tomei contato com a história verídica do navio HMS Bounty, de sua incrível trajetória e dos personagens que a compõe, além do impacto social e da impressão durável que os eventos deixaram no imaginário ocidental. Diversos autores se utilizaram dos eventos ocorridos à bordo do navio como uma alegoria para teorizações em torno das transformações sociais e morais de um ser humano diante da crise. O primeiro a ressuscitar de forma semi-ficcional os dramáticos eventos, para o uso de um grande público, foi o seminal escritor francês Jules Verne, 100 anos depois dos fatos originais, que publicou um conto sobre a viagem do Bounty, em 1889, no quadro de suas "Viagens extraordinárias". Após esta primeira popularização, foi natural que anos mais tarde adaptações cinematográficas aparecessem. A primeira encarnação fílmica se deu com um relato semi documental australiano, mudo, de 1915 (hoje desaparecido), mas outras quatro versões se seguiriam ao longo do século XX, sendo a publicada neste post a ultima delas, The Bounty, que data de 1984.



Eu conheço apenas duas versões cinematográficas da história: a que está em questão neste post, e a mais célebre de todas, que data de 1962, com Marlon Brando como protagonista. Aquela outra versão, totalmente hollywoodiana, é certamente interessante, clássica e recomendável. Porém deixa menos espaço para o aspecto humano dos personagens, e em alguns momentos lembra visualmente os filmes da fase havaiana de Elvis Presley. Existem ainda versões da década de 30 (sendo uma delas com Errol Flynn), que jamais assisti, mas estou com uma vontade danada de fazê-lo. Essa sequência abundante de filmes que contam a mesma história é inclusive uma boa oportunidade de reflexão em torno da politica do remake, bastante interessante para quem gosta de teoria do cinema, mas vou elucubrar sobre este tema um outro dia, para não padecer de excesso de digressões.

The Bounty é um filme que quase desaparece dentro da vasta (e notável) produção cinematográfica mundial da década de 80, considerada a segunda era de ouro de Hollywood. Ele é hoje um filme virtualmente esquecido, bem longe da categoria "memorável" mesmo que tenha sido excepcionalmente bem produzido, fruto de um esforço fenomenal nitidamente detectável ao assisti-lo, e certamente milhas à frente da tautologia do cinema médio de consumo de nossos dias. Um filme interessante que mesmo na época de seu lançamento foi quase que solenemente ignorado, e deixou um prejuízo financeiro de respeito. Eu humildemente acho que para um cinéfilo aplicado, uma visita ao filme é recomendável, por diversos motivos.

Primeiramente porque existe uma certa grandeza neste filme. Uma inegável pretensão épica que não falhou completamente em suas intensões, mas falou nos resultados, pelo menos em termos de recepção. E poucas coisas são mais deliciosas para um cinéfilo do que assistir à um épico frustrado: uma mistura de gratificação sádica e culpa vexatória frente à um deus que falhou. O filme foi dirigido por Ronald Donaldson, um nome facilmente esquecível, diretor de diversos filmes de menor envergadura. Um diretor australiano que passa longe da alcunha de mestre ou de revolucionário, mas que se mostrou um realizador competente e eficiente ao ponto de emplacar alguns sucessos em Hollywood, como por exemplo o abacaxi Cocktail, com Tom Cruise. Não sou um profundo conhecedor/admirador da filmografia de Donaldson, mas posso afirmar sem medo que em The Bounty, ele fez um grande trabalho.

O filme é esteticamente esmerado. Muito bem fotografado, montado e com inúmeros planos bem estudados que lhe conferem uma certa classe. Um uso muito certeiro dos dispositivos cinematográficos clássicos. Transparência à moda antiga. O elenco é particularmente digno de nota, pois se não sou um grande partidário da teoria de que é um ator quem faz o filme, neste caso em particular o elenco atingiu uma confluência rara que se mostrou muito salutar ao filme, e inegavelmente um ima para cinéfilos, visto o estatuto de limbo dado ao filme. Temos Sir Laurence Olivier, a lenda, em um pequeno papel. Anthony Hopkins em plena forma, e antes da histeria em torno de sua figura. Daniel Day Lewis já forjado como o grande ator que se confirmaria nos anos à seguir. Liam Neeson, como um bully, em um de seus papéis mais sólidos e interessantes. Já no caso de Mel Gibson, fica a impressão de que não teve seu personagem tão bem construído quando se lê a respeito do Fletcher Christian da vida real. Gibson constrói um homem misteriosos de olhar vazio bastante diferente dos tipos careteiros que faria mais tarde (justa exceção para o seu Hamlet de 1990). Mas no final acaba funcionando, primeiro que é inegável que o sujeito tem carisma de sobra, e segundo porque existe uma tonelada de coisas acontecendo em torno de sua atuação. 




O único senão estético do filme, que considero grave ao ponto de comprometer a experiência, é a trilha sonora inteiramente executada com um sintetizador, e composta por Vangelis, a lenda grega do instrumento. Ele certamente tem talento e sua musica ambient cai muito bem no documentário Cosmos, embalando os lindos devaneios de Carl Sagan e criando um clima etéreo na medida. O mesmo para o seu trabalho no futurista Blade Runner, ou até mesmo no tema clássico de Carruagens de fogo, onde funcionou e ajudou na construção antológica da sequência-chave do filme, mesmo que este também seja um filme de época. 

Contudo para The Bounty, a escolha se mostrou totalmente inapropriada. O filme teria se beneficiado enormemente de uma trilha orgânica atemporal. Infelizmente os timbres datados dos sintetizadores acabaram por contaminar o filme, no qual o espaço sonoro não é, de maneira alguma, solidário com aquilo que se vê em cena. Toda a impressão subjetiva do termo "épico" se esvai no momento da audição das frias melodias dos sintetizadores.  Realmente não cola, e o sentimento de dissociação cognitiva é inevitável. Não se monta E o vento levou com uma trilha de frevo e nem Deus e o diabo na terra do sol com uma trilha de Strauss. Mesmo entendendo que a década de 80 foi a década do sintetizador, muitos filmes caíram nesta armadilha, e acabaram, talvez por este motivo, caindo em descrédito ou se expondo ao ridículo. 

Os temas e motivos do filme, mesmo que não tenham sido fortemente elaborados pelo realizador, permanecem todos lá, pois na verdade já estavam presentes na história original: uma boa reflexão sobre o custo da moral civilizatória ocidental, e de seus efeitos amplificados pelo choque cultural. A constatação da sexualidade reprimida dos europeus, a negação da própria civilização, o inevitável primitivismo inerente aos seres humanos. Enfim, um filme mais curioso do que espetacular, mas ainda assim um ótimo filme. 

Título Original: The Bounty
Ano: 1984
País: UK
Diretor: Ronald Donaldson
Awards: Indicado Cannes



(legendas em Português - Br)

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