quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Minnie the moocher





O esporte predileto do nosso planeta é andar para trás. No final dos anos 20, o mercado de animação norte-americano, importantíssimo filão da industria cinematográfica da era pré televisiva, era esquematicamente dividido em duas grandes correntes, representadas pelos dois gigantes principais: a corrente família, representada pela Disney, que embora ainda estivesse anos luz de distancia do bom mocismo que viria ostentar mais tarde, produzia cartoons voltados para um mercado familiar; e os Estúdios Fleischer, cujas produções eram claramente voltadas para o publico adulto, seguindo a mesma tradição acida dos quadrinhos adultos do inicio do seculo. A América vivia os últimos anos de uma chamada era progressista, que culturalmente resultou num salutar liberalismo de costumes, que vistos da perspectiva moral conservadora e politicamente correta de nossos dias parecia bastante espantosa. Eram os anos que antecederam a criação do infame "código" instaurado em 1934 por Will Hayes, presidente da associação dos produtores americanos de cinema, e que moldaria a industria pelos próximos 30 anos.

Hayes estabeleceu uma especie de patrulha de mandamentos morais e de costumes, para que as produções de cinema se adequassem aos estreitos preceitos de conduta reivindicados pelas associações civis, politicas e religiosas dos setores mais conservadores e influentes da sociedade americana de então, absolutamente chocada pela vida de excessos e vícios das estrelas de Hollywood, que pareciam já na época repetir em vida as peripécias de decadência assistidas em seus filmes. Isso significou a eliminação completa de qualquer insinuação sexual, prostituição, violência, abuso de álcool, drogas, miscigenação racial, aborto, temas ou situações de conflito familiar, e tudo o mais que fizesse baby Jesus chorar. Foi o começo de um afastamento da realidade social que marcaria o cinema americano profundamente por muitos anos, e que deixaria marcas na industria que perduram ate os nossos dias. 




O código isolou o cinema americano do resto do mundo, e criou para si uma atmosfera de total artificialidade, retratando um ideal de sociedade e família que não existia senão dentro do universo diegético dos filmes, mas que paradoxalmente passariam a ser o modelo imitado, primeiro pelas famílias americanas e depois pelo resto do mundo ocidental. Eram famílias compostas por pessoas rosadas, gentis, religiosas, livres de vícios e que jamais blasfemavam, vivendo vidas perfeitas e sem conflitos, ate que a paz fosse quebrada por: uma amante, uma minoria, um comunista, um monstro, um extraterrestre, um estrangeiro, etc etc. As demarcações morais eram muito nítidas e os personagens construídos sem nenhuma ambiguidade, de modo a serem imediatamente identificados como bons ou maus pelo publico. Roteiros mais cabeludos eram dificilmente aprovados, geralmente delegados aos filmes B ou filmes noir, e quando milagrosamente escapavam o controle do código tinham temas e situações potencialmente nocivos tão dissimulados através da modificação dos diálogos, da montagem ou simplesmente pelo corte, que simplesmente passavam despercebidos pelo publico menos atento ou eram convertidos em discurso moralizante. Um outro recurso era retratar situações potencialmente incomodas como adultério e homossexualidade de maneira histérica e estereotipada, próximas do pastelão.





Esteticamente, o código acabou por contaminar a forma dos filmes de Hollywood, que passaram ao extremo de transparência e correção técnica, que não dava espaço para nenhum tipo de experimentação que se afastasse dos códigos clássicos e limpos de produção. Forma 'limpa' para conteúdo 'limpo'. Esta assepsia é ao mesmo tempo a gloria e a ruína do cinema Hollywoodiano, que ficou preso numa espécie de ostracismo de formas, uma vez que passou ao largo de inúmeros movimentos de vanguarda e renovação estética que revigoravam o cinema mundo afora, e que no máximo, se infiltravam na gramatica de Hollywood quase como um contrabando, pelas mãos de diretores europeus importados. 

O código prosperou ate meados dos anos 50, mas não resistiu ao choque estético e de realismo dos movimentos de vanguarda europeus do pós guerra, como o realismo italiano e a nouvelle vague, e foi se dissolvendo progressivamente nos anos 60 até o formato standard americano de cinema ser substituído pela new wave que passou a ser a gramatica dominante, com filmes como Midnight Cowboy por exemplo, que é a antítese total do que pregou o código. Mas o dano do código foi de certa forma indelével. Até hoje uma especie de código informal funciona como patrulha moral que escolhe o que as pessoas podem ver ou não, sobretudo para agradar aos espectadores do cinturão da bíblia, grandes pagadores de ingresso. Se um filme quer ser blockbuster naquelas bandas, ainda hoje não pode ousar muito. O mercado de DVDs domésticos nos USA, por exemplo, recebe comumente duas versões dos filmes, sendo a versão 'limpa', sem profanações, cenas picantes, ou linguagem dita inadequada, aquela que pode ser apreciada por mórmons, pentecostais ou outros grupos de satanistas-cristãos, e vendidos sem problema nos Wal Mart da vida.

Portanto me parece interessante voltarmos aqui à um exemplo canônico da era pre código, com o filme da postagem em questão, Minnie the moocher. Obra dos estúdios Fleischer, que geralmente apresentava protagonistas humanos, enquanto a Disney preferia lançar mão de um vasto bestiário que era por si só, senão uma especie de censura, pelo menos uma maneira de amenizar potenciais choques. Na Fleischer os protagonistas eram quase sempre humanos, e sua estrela precoce era Betty Boop, que embora tenha sido concebida originalmente como um poodle, evoluiu para a caricatura de uma pessoa real, a cantora Helen Kane; uma mulher que encarnava à época o próprio ideal progressista. Betty era unica entre os personagens de cartoon, pois ela era sensualizada e ostentava formas femininas. Outros personagens femininos dos cartoons contemporâneos eram pueris e assexuados, e na maior parte do tempo; clones de sua contra parte masculina, como a Minnie mouse, forma feminina de seu amasio Mickey. Na verdade todos os personagens Disney eram castrados, assexuados, enquanto Betty Boop era dotada de formas generosas, e as ostentava em vestidos curtos, decotados, enquanto saboreava charutos cubanos, um escândalo para a época. 





No episodio em questão; Betty é claramente mostrada como filha de imigrantes judeus do leste da Europa, fato que desagradaria o código sobremaneira, uma vez que suas diretrizes pretendiam mostrar uma America homogênea, branca, anglo saxã e protestante unicamente. Além disso era anoréxica e se envolveu com o maloqueiro Bimbo ao ponto de decidir deixar a família para fugir com ele. Como se não bastasse, o filme é uma especie de vídeo clip da canção de mesmo nome, sucesso eterno na voz do figuraça Cab Calloway, que viveria o resto da vida nas barbas dela, tendo feito uma participação antológica em Os irmãos cara de pau; de John Landis; onde a interpreta, já idoso, para o deleite de uma turba impaciente. 

Minnie The Moocher (Minnie a desocupada) não era exatamente o tipo de canção que as mamães cantariam para os filhos, mas uma musica que fala do cotidiano de uma tal Minnie que se envolveu com um cafetão maconheiro, viciado em cocaína e opio, figurinhas fáceis na paisagem das grandes cidades americanas entre os anos 10 e 30, e clara referencia ao caso de amor entre Betty e Bimbo (repare na maneira como Bimbo caminha). A foca que canta a canção foi animada por rotoscopia, a partir da dança registrada do próprio Calloway. E como no showbizz nada se cria, e no máximo se transforma, o filme já era uma referencia / parodia da serie clássica Silly Sinphonies (aquele das caveirinhas dançando), realizada anos antes pelos estúdios Disney, igualmente espetacular, sendo a versão Fleischer evidentemente mais carregada no surreal e ofensivo. Minnie the Moocher é um dos últimos suspiros de liberalismo de Hollywood antes do código Hayes entrar em vigor, dois anos mais tarde.  Um clássico. 

Titulo Original: Minnie the Moocher
Ano: 1932
Pais: USA
Diretor: David Fleischer




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...