quarta-feira, 8 de março de 2017

La La Land






La La Land é o filme do momento. Por trás das aparências é um filme de diversos significados, e de pensamento primoroso. Damien Chazelle, seu diretor, fez um trabalho impressionante.

E o que faz de La La land um filme espetacular não é apenas sua cenografia impecável e produção ilibada, mas sim o fato de que o filme é, do primeiro ao ultimo plano, nada mais do que o cinema lançando um olhar sobre si próprio. Um olhar amoroso, apaixonado, nostálgico, bem refletido. La La Land é metalinguagem PURA. Um filme-conceito, pois ilustra teorias de cinema. Ele não têm a pretensão de fazer crer uma historia, que por sinal é propositalmente banal e milhões de vezes já contada, ou seja, um singelo romance com altos e baixos. 




Não. La La Land quer pensar o cinema e ponto final. É um exercício de auto-reflexão. O filme pensa e mostra toda a cadeia de produção, distribuição e recepção na industria cinematográfica. Ele funciona como um balanço de um século de cultura popular de massa, de industrialização da cultura, cujo cinema é talvez um dos maiores estandartes. Sendo um produto pós moderno por excelência, La La Land o faz em boa parte através da apropriação de elementos semânticos do cinema clássico de grande consumo, mas também lançando uso da intertextualidade de forma despudorada, descomplexada, mas ao mesmo tempo respeitosa e próxima da devoção. La La Land não é nem original, nem inovador. Também não tem esta pretensão. Ele é uma celebração do cinema e isso é tudo que ele almeja. Ser um hino de amor. Ele é um deleite para os teóricos de cinema, e um presente para os cinéfilos, que quanto mais atentos forem, maior deleite vão obter deste belo filme.




Categorizar La la land como musical é um primeiro reflexo, mas ao assisti-lo você se dá conta que os códigos do gênero são mais um elemento convocado pelo diretor na construção do seu discurso. Hoje praticamente extinto, o cinema musical foi no curso da historia o produto mais bem acabado de um modelo de cultura de massa. Produzidos em escala industrial por Hollywood em seus anos de ouro, dominaram o planeta, fizeram escola (e o grande exemplo é Bollywood), e se interpuseram à inúmeros outros gêneros.

Um fato certo é que o musical coreografado é uma das maiores especificidades da cultura americana. O Filosofo e teórico de cinema Sigfrield Kracauer teorizou em sua obra clássica, “O ornamento de massa”, que o cinema musical foi o emblema máximo da sociedade e cultura americana, uma vez que, inspirado no Taylorismo, é uma transposição de seus princípios: as pernas dos dançarinos e a exatidão dos movimentos correspondem à exatidão e à produtividade das engrenagens industriais. “Ornamento de massa” por excelência, o filme musical, é segundo ele o reflexo da estética inspirada pela racionalidade do sistema econômico predominante, que usa na coreografia movimentos que são análogos às operações formais dos padrões de produção das maquinas no fordismo.  Feitos em série, uns após o outro, seguindo formulas padronizadas, amplamente consumidos, o musical foi o momento supremo da industria cultural de massa. Portanto La La Land não é estritamente um musical, mas brinca com sua mítica, convoca a sua aura como importante elemento estruturante do texto fílmico.  




Esteticamente, La La Land também se apropria da ideia do ornamento de massa subjacente aos musicais, e assume um colorido exuberante, propositalmente Kitsch, no sentido do excesso, do colorido da felicidade. Este Kitsch também traz um salutar afastamento da realidade, graças à universalidade do artificial. O colorido explosivo é algo típico da gramática dos filmes musicais. Todo musical alias, possui um quociente de irrealismo subjacente em si. As regras de tempo e espaço são quase sempre jogadas pela janela. Constantemente, dentro dos musicais, grandes fraturas na economia formal do filme são impostas ao texto. Na lógica do musical, por exemplo, dois personagens deixam para trás o universo diegético do filme e, dançando, podem dar uma volta no mundo inteiro, para depois voltarem para o mesmo lugar como se nada tivesse acontecido. Geralmente, expectadores mais pragmáticos detestam essa característica dos musicais, e já conheci muitas pessoas que não suportam este gênero em virtude desta particularidade.  La La Land por sua vez, se utiliza em determinados momento deste dispositivo de maneira tão dogmática, que o filme se transforma em um tipo de surrealismo, capaz de liberar o expectador de sua própria realidade. Talvez esteja ai o segredo do seu sucesso. La la Land fala à uma geração que provavelmente nunca assistiu à um musical, e que nunca soube, ou simplesmente se esqueceu, que o cinema é sim capaz de proporcionar este tipo de onirismo.

Neste sentido, o filme empresta amplamente no realizador francês Jacques Demy, que também fazia uso no modelo do musical americano, e também ressaltando o seu elevado teor Kitsch, para contar historias de amor mal sucedidas. O cinéfilo atento vai perceber finalmente que La La Land pega emprestado muito de “ Os Guardas chuvas do amor”, de 1964, obra prima de Demy. Essa hipótese é reforçada ao atentarmos para a sequência em que Mia, durante o passeio pelo estúdio, mostra para Sebastian a sacada onde foi filmado Casablanca. Em baixo desta sacada vemos uma loja de guardas chuvas, na qual se lê a palavra “Parapluies”, que é nada menos que uma recriação da loja onde trabalhava Deneuve no filme original.




Assistindo La la Land, o espectador se da conta que a complexa teia de auto referencia tecida por Damien Chazelle atinge níveis quase fractais. 

. No inicio do filme, no carro de Sebastian, escuta-se no radio o locutor falar dos indicados ao Oscar daquele ano. 

. Existem planos em que filmes são rodados dentro do filme, na cidade de Los Angeles (que da nome ao filme), nada menos que a capital mundial do cinema. 

. Uma sequência dentro da clássica sala de cinema Rialto, que remonta aos anos dourados de Hollywood, onde os personagens assistem ao não menos clássico filme Rebelde sem Causa. Em um determinado momento, a tela do Rialto, que mostra o Observatório Griffith, se torna a tela que o próprio espectador assiste. 

. O "final alternativo" do filme é apresentado como um filme, inclusive com uma sofisticada sequência de narrativa em abismo, onde os personagens assistem à própria historia que os dois vivenciam

. Além dos acima citados Casablanca, Guardas chuvas do amor e Rebelde sem Causa, outros filmes clássicos são mencionados textualmente: Sinfonia em Paris, Cantando na Chuva, A Roda da Fortuna, Cinderela em Paris, Meia noite em Paris , e o belo Balão Vermelho. Além disso, os posters no quarto de Mia mostram diversas clássicos da era de Ouro de Hollywood.


Titulo Original : La La Land
Ano : 2016
Pais : USA
Direção : Damien Chazelle
Awards : Oscar : Golden Globe : Diversos



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